Posts Tagged ‘“Rodrigo Pieri”’

Michel Maffesoli e os Junguianos para diálogo

Imagem0052

Michel Maffesoli (Graissessac, 14 de novembro de 1944) é um sociólogo francês conhecido sobretudo pela popularização do conceito de tribo urbana.

Antigo aluno de Gilbert Durand, é professor da Université de Paris-Descartes. Michel Maffesoli construiu uma obra em torno da questão da ligação social comunitária e a prevalência do imaginário nas sociedades pós-modernas. Ele é secretário geral do Centre de recherche sur l’imaginaire e membro do comitê científico de revistas internacionais, como Social Movement Studies[1] e Sociologia Internationalis.

Michel recebeu o Grand Prix des Sciences Humaines da Academia Francesa em 1992 por seu trabalho La transfiguration du politique. Ele é também vice-presidente do Institut International de Sociologie (I.I.S.), fundado em 1893 por René Worms, e membro do Institut universitaire de France – I.U.F.[2]

Origem: Wikipedia

Anúncios

A Importância da Concavidade Terapêutica

A Importância da Concavidade Terapêutica

Rodrigo de Vasconcellos Pieri

Trabalho apresentado no III Encontro dos Junguianos Nomades

  • “Espelho, espelho meu, existe alguém mais… mais do que eu?”.

Muitas vezes esta é a pergunta que os analisando levam para seu terapeuta. Pergunta essa que encontramos em um dos maiores clássicos da Literatura “Infantil”. Quando a Madrasta de Branca de Neve, bela por fora e terrível por dentro, insiste em fazer a mesma pergunta “Espelho, espelho meu há alguém mais bela do que eu?”.

Corso & Corso (2006), em Fadas no Divã (2006), consideram o espelho o complemento da imagem, que cada um busca decifrar o impacto da sua imagem nos olhos dos outros. “Queremos superar alguém que, pelo direito ou pelo avesso, consideramos como parâmetro”1.

No popular e, acredito não por acaso, pois a psicanálise de Freud provoca essa possível interpretação da psicoterapia, um dos papeis transferidos aos terapeutas é o do espelho, ou até o do Oráculo – que por refletir imagens, mesmo que “premonitórias”, não deixam de ser um espelho.

Em uma rápida navegada pela internet, encontro no Wikipédia, a seguinte definição para a psicoterapia analítica “(…) um processo de descoberta de si mesmo” e diz ainda que “durante este processo, a pessoa passará a se conhecer”.

A tendência junguiana aqui seria perguntar: para quem o espelho – terapeuta reflete? Para alma…? Para o ego…? Mas a pergunta desse trabalho é outra. Se continuarmos na mesma página do Wikipédia, encontraremos a seguinte frase “O papel do psicólogo é o de facilitador deste processo de autoconhecimento·.

Partindo do princípio que, ao tomar a decisão de se fazer terapia, é, normalmente, no Wikipédia que nossos futuros pacientes vão buscar a definição do termo (ou você acha que ele vai querer ler o “Mito da Análise” de Hillman (1984) ou “A Prática da Psicoterapia” de Jung (1971) ou qualquer outro livro técnico da área? Pode até ler, mas não é o comum) defino aqui a psicoterapia de forma popular, uma ferramenta para o autoconhecimento e o terapeuta seria o objeto facilitador desse processo.

Desta forma, assim como quando quero ver se meu cabelo está arrumado quando vou sair ou quando quero ver se estou arrumado adequadamente, corro para o espelho. Os pacientes quando querem se conhecer e se descobrir procuram um terapeuta, um “objeto” que possa espelhar o seu mundo interno.

Daí  vem à pergunta que gostaria de pesquisar com vocês: A que tipo de espelho o terapeuta deve se emprestar?

A física nos apresenta três tipos: o côncavo, o convexo e o plano (reto). Qual desses cabe ao terapeuta? Qual o mais ético e o mais produtivo em um encontro analítico?

Confesso que não acredito que haja uma resposta definitiva para essa pergunta. Acredito que cada paciente, cada encontro, cada momento terapêutico pede um tipo de espelho, talvez, até mesmo um “Oráculo”, como supracitado. Mas posso dizer que senti na pele, eu e um de meus pacientes, que quando nos emprestamos para o tipo de espelho errado, a imagem que costuma refletir produz uma dor e um sofrimento muito grande.

Já  que estamos aqui, como quase num confessionário, falando de nossos erros e nossos “pecados” na clínica, gostaria de dividir com vocês um caso no qual fui convocado ao papel de espelho, porém escorreguei na arrogância e como que em um ataque de Hybres, usei o espelho errado e quase insuportável para meu paciente e para mim, é claro.

O mais curioso é que para perceber o mal que estava fazendo utilizei dos meus espelhos pessoais, supervisão e terapia, e através deles pude perceber e alterar a minha “atuação” clínica.

Mas antes de mergulharmos nessa história, me deixa só fazer uma provocação àqueles que organizaram esse evento e a todos nós aqui presentes.

Será  que há erro na clínica? Será que há um método correto a ser seguido na atuação clínica? Será que existe encontro terapêutico sem erros? Será que há erros e acertos para alma? Será que os estou provocando ou estou provocando aquelas que preferem nem olhar para os ditos erros terapêuticos por medo da imagem a que será refletida?

Atire a primeira pedra quem nunca “errou” em sua atuação clínica.

Tipos de espelhos

Como dito antes, há no mínimo três tipos de espelhos que aprendemos nas aulas de física, lá no tempo de escola. O côncavo, o convexo e o plano. Não quero e nem me atrevo aqui a dar aulas de física, mas acho que seria interessante explanar a definição de cada tipo. Acredito que ajudará a orientar nossos pensamentos.

Antes, vamos (re)definir que para este trabalho o terapeuta tem o papel de espelho, o sujeito/objeto é o paciente, pois é o reflexo da imagem de seu auto conhecimento que esta se procurando e a imagem é a produção gerada através do encontro do sujeito/objeto com o espelho.

Vou me orientar então pelos espelhos chamados esféricos, estes são compostas por superfícies refletoras com a forma de uma calota esférica e podem ser definidos ou como côncavos, ou como convexos.

O primeiro se caracteriza por sua área de reflexão ser a parte interna. Possui uma curva para dentro, uma concavidade, na qual parece nos convocar a uma opção mais acolhedora e aconchegante. Aqui a imagem (reflexo do encontro) varia a partir da posição que se encontra o objeto (paciente) em relação ao espelho (terapeuta) e seu foco.

Já  nos espelhos convexos a reflexão ocorre no lado exterior da esfera, tem como característica sempre alterar a imagem do objeto.

Bom, dado então essa pífia explicação sobre a teoria dos espelhos vamos para o caso clínico que gostaria de dividir com vocês.

Caso Clínico

O que vou relatar agora se inaugurou no terceiro mês de analise de Lima. Filho de um funcionário de uma das maiores empresas nacionais e de uma dona de casa, procurou analise por ter recebido um ultimato de sua namorada, que o deixou sem saber o que fazer. Disse que ou ele se casava com ela ou ela romperia o relacionamento. Sendo que ele tinha até 31 de Dezembro de 2008 para tomar a decisão. Namorada esta, que mora em um município próximo a cidade do Rio de janeiro, com uma filha de um relacionamento anterior ao de Lima. Quando me procurou essa “enteada” tinha 07 anos e dez meses. Na época o namoro completará sete anos.

Ao longo das sessões iniciais de sua terceira terapia, já que havia feito uma quando criança e outra quando adolescente. Lima repete os seguintes temas:

– Se considera um vagabundo, um nada, que nem a faculdade concluiu. (Vale dizer que seu pai também não possui o terceiro grau completo).

– O fato de que muitas vezes ninguém nota ou ninguém quer a sua presença.

– Fala de seu pai como um homem muito cruel, que o trata e trata seus três irmãos e, principalmente, sua mãe como bichos. Já manifestou desejo de agredi-lo algumas vezes. O que nunca concretizou.

– Reclama de dores nas costas, no rim, no coração… Mas faz exames atrás de exames e nada é diagnosticado. Diz acreditar serem ardores  psicológicas (sic).

No nosso primeiro encontro se apresentou como se fosse a pior pessoa do mundo. Vagabundo, preguiçoso, relaxado e covarde. O que em algumas sessões posteriores perguntou “Foi a melhor forma que alguém se apresentou para você, não foi?”.

Já  na segunda sessão relatou um sonho que costuma ter, onde seu irmão mais velho bate nele e, mesmo ele querendo, não consegue reagir.

Na terceira sessão conta ter sonhado que estava no meio de uma calçada muito movimentada da cidade onde a namorada mora. Passavam muitas pessoas desconhecidas e muitos carros pela avenida. Ele estava à procura de algo, mas não sabia direito o que. Acredita ser a moça, mas não encontrava o objeto procurado e aquilo lhe gerava angustia. Acordou todo suado. Após relatar o sonho comentou que na noite anterior, sua namorada havia cogitado a hipótese de se mudar com a filha para o Rio, mas que ele teria que morar com elas. Durante a mesma sessão, confessa ter pavor de viajar de avião e quando viaja para a cidade do sonho, ou volta da mesma de ônibus, costuma ficar muito ansioso. Achando que nunca mais irá voltar.

Nesta mesma semana, Lima havia pedido férias no trabalho e iria passar uma semana naquela cidade.

Na sessão após as férias chegou ao consultório muito angustiado, disse ter passado por uma experiência horrível, que não tinha nem coragem de contar, pois estava horrorizado com a possibilidade de ter imaginado aquilo. Conta que no ônibus de ida e na primeira noite lá, se visualizou com uma faca na mão indo em encontro da namorada e da “filha” (primeira vez que a chamou assim). Essa imagem o deixou horrorizado. Diz que na viagem, ficou mudo por praticamente três dias.

Nada mais foi comentado sobre esse episódio e nos encontros seguintes Lima repetiu os temas já supracitados. Principalmente sobre a decisão de sair de casa e ir morar com sua namorada. Apreciador de histórias em quadrinhos, Lima também falou bastante sobre sua admiração, pelo herói Wolverine e seu incrível poder de se auto-curar.

Dois meses passaram depois da imagem com a faca na mão e Lima trouxe mais um sonho. Nesse relata que ele, na companhia de alguém que depois diz achar que sou eu, encontra sua namorada com uma outra pessoa. Ele consegue vê-la, mas ela não o vê. Nesse dia, não aprofundou no sonho e passou a sessão criticando, com muita revolta, toda barbárie que há na cidade e dos bandidos bem de saúde.

Um mês depois, em agosto de 2008, Lima traz outra imagem. Se sentindo muito culpado, disse que se viu pulando de uma janela. Não tem ao certo se era do metrô ou de sua casa. Disse que a imagem tinha a ver com o duelo que vive. Sair de casa e morar com a namorada ou permanecer na casa de seus pais? Ele, apesar de seus trinta e cinco anos, é o único dos quatro irmãos que permanece em casa.

Abramos aspas para Jung “Para o Jovem que ainda não se ajustou e nem obteve sucesso na vida, é extremamente importante formar o seu eu consciente da maneira mais eficaz possível, isto é, educar a sua vontade”2.

Ao termino da sessão comentou “Não são pensamentos, são imagens que me invadem em formato de slides”. Esse comentário, naquele mesmo instante, me fez lembrar de Sonhos Memórias e Reflexões (1961), quando Jung, em sua infância olhou para uma igreja, em um belo dia de sol e pensou:

O mundo é belo, a igreja é bela, e deus, que criou tudo isso, está sentado lá no alto, no céu azul, num trono de ouro… Neste momento senti uma sensação de asfixia. Estava como que paralisado e me esforçava por não continuar a pensar! Está para acontecer algo terrível, não quero pensar nisso; não devo de maneira nenhuma me aproximar. (…) por deus, tenho a certeza de que não quero pensar nisso. Mas quem está me forçando? Quem está me obrigando contra a minha vontade a pensar naquilo que ignoro?3.

Como era a segunda vez que me trazia imagens brutas e angustiantes e seguindo o que o próprio pequeno Carl fez para conseguir elaborar aquela angustia, resolvi por fazer um trabalho de me debruçar nos motivos dessas imagens. Não só me debruçar, mas espelhar, tentar com que Lima me acompanhasse na busca da compreensão das mesmas. Fiz isso em uma tentativa junguiana de me manter “fiel à imagem”, porém como um espelho convexo, fui agressivo. Não levará em consideração que “abordagens empíricas que tentam analisar e guiar as imagens, procuram ganhar controle sobre elas”. Muito menos que:

“o melhor que o médico pode fazer nesses casos é dispensar todo seu equipamento de métodos e teorias e confiar, velando unicamente por sua personalidade para que ela tenha a firmeza suficiente para servir de ponto de referência ao paciente”.4

Lima, obviamente e sabiamente, não me acompanhava. Julgava-o (em minhas notas) como um sedutor que não conseguia entrar em contato com si mesmo. Tanto insisti que ao fim daquele mesmo mês, Lima voltou a reclamar dos slides, dizia ser uma imagem de suicídio e que o remetia a sua covardia. Tentou ainda, em um ato de compensação trazer imagens que chamava de positivas. Ele chegando a sua casa e sua “filha” o recebendo com beijo. Ou então saindo para trabalhar e sua namorada levando-o até a porta. Mesmo sem ter consciência Lima tentava me mostrar que o caminho certo para qualquer terapia é o caminho de Eros. Talvez sobre essa influência, ofereci duas sessões por semana, começará a perceber que o que ele precisava naquele momento era de acolhimento.

Meu convite na verdade, inconscientemente, tinha dupla função. A de acolher e ao mesmo tempo a de ainda trabalhar sob a imagem. Gustavo Barcellos, em sua introdução a edição brasileira do livro de James Hillman (1983) “Psicologia Arquetípica” comenta: “Desta forma ficar com a imagem transformou-se numa regra básica no método da psicologia arquetípica.” Eu, como aprendiz da psicologia arquetípica, não podia fazer diferente, se não ficar com a imagem. Mas se continuarmos esse mesmo parágrafo encontraremos que “as imagens necessitam de relacionamento, não de explicação.” e meu movimento naquele momento era tentar entender o porquê das imagens e assim poder trabalhá-las.

Em uma outra sessão Lima comentou que os pensamentos só voltavam nos dias de terapia. Falou que todos a seu redor comentavam que ele estava entrando em contato com ele mesmo, através do espelho da analise, e por isso essas imagens. Como se fossem as imagens refletidas na terapia. Contou também de um sonho onde estava deitado no quarto de sua namorada e um casal de homossexual (que na época moravam na casa dela na vida real) o chamam da janela para jogar bola, mas ele não vai. Imagina que sua namorada esteja passando mal no banheiro e acorda muito assustado. Ainda no mesmo dia, Lima lembrou que há quinze anos um vizinho, que jogava bola com ele e com seu irmão, se jogou da janela do prédio. Esse vizinho tinha algum tipo de deficiência mental, a qual Lima não sabia ao certo qual. No dia do suicídio lembra que ouviu o barulho da queda e que sua mãe gritou “não chega perto da janela”, mas ele não seguiu o conselho e ao olhar de cima viu o rapaz morto no chão.

Na semana seguinte, agora já com dois encontros semanais, Lima conta mais um sonho. Diz que no sonho ele ia visitar o irmão e que este estava se separando, preparava suas coisas para ir embora de casa. Não fez associação.

Nos encontros seguintes eu comecei a sentir muito sono, não entendia o porquê, confesso que era quase insuportável. Enquanto isso Lima continuava a dizer que começou a piorar com o início da terapia. Naquele momento não conseguia ver aquilo de outra forma, a não ser provocação de sua parte. A idéia de interromper o atendimento passou por minha cabeça algumas vezes. Mas optei por investir no atendimento e investir na minha supervisão. “Todo terapeuta deve ter supervisão de um terceiro, para que haja sempre a possibilidade de um outro ponto de vista”,5 diz Jung.

Lima seguia me alertando e aos poucos fui percebendo o que estava fazendo. Frases dele que me abriram os olhos “a minha ex-namorada corria de mais”, “eu caminho, mas em passos de lesma.”. As angustias quanto às imagens continuavam. Disse que sonhou com ela e que os pensamentos começaram a conversar com ele e provocá-lo por ele não conseguir mais se aproximar de nenhuma janela. Ele criou pavor às janelas e começou a se auto medicar.

Curioso é observar que Lima é preenchido por imagens em seu próprio corpo. Possui mais de dez tatuagens e todas elas grandes e expressivas. Costumava dizer que fazer tatuagem sempre foi uma terapia.

Em minha supervisão discutimos sobre a hipótese de deixar as imagens-pensamentos um pouco de lado e falar das imagens do seu corpo. A suposição era que por ser alguém sempre invisível em sua família, ele possivelmente tatuava imagens daqueles que estavam ao seu redor. Como se ele mesmo fosse espelho das pessoas ao seu redor e que ele poderia estar me refletindo. Por isso o sono e o impasse. Foi quando meu supervisor disse “Seja mais côncavo e menos convexo” e aquilo ecoou em meus pensamentos.

Na sessão seguinte levei o que havia sido proposto. Cheguei a ser sugerido, na supervisão, a tocar em sua tatuagem, fazer um contato corporal, deixar o mental e as imagens abstratas um pouco de lado.

Lima disse ter muitas tatuagens japonesas, dois dragões, um rosto, um tigre, uma carpa, flor de lótus, caveira, tubarão espada, mago, Motoqueiro Selvagem e um escorpião com as letras iniciais de seu nome e do nome de sua namorada e logo comentou “mas caso eu me separe dela vira as iniciais do nome composto de minha mãe”. Quando perguntado sobre o significado das tatuagens o mesmo disse não se importar com o significado, mas sim com as imagens. E que a principal é a do Motoqueiro Selvagem.

Desse encontro em diante o curso da terapia mudou. Por algumas vezes ainda falava sobre as imagens com a janela, mas era visível como elas iriam perdendo seu poder.

Atualmente Lima segue em terapia. O meu sono e as imagens angustiantes cessaram. É verdade que ele ainda não foi morar com a namorada. Mas sua relação, tanto com ela, quanto com a menina e com o seu pai estão bem mais saudáveis. Apesar de ainda haver alguns desencontros.

Em uma de suas últimas sessões no ano de 2008 comentou “A natureza pode causar danos terríveis, se o ser humano der bobeira a onde pode levá-lo”. Uma verdadeira aula de Psicologia Arquetípica.

O erro

Acredito que já expus o erro e como isso fez mal a alma de Lima e a minha também. Eu, na qualidade de terapeuta me coloquei como senhor do conhecimento e acreditei fielmente que a melhor coisa a ser feita seria trabalhar, investigar, me debruçar sob a imagem que meu paciente trazia. Sem perceber se ele teria estrutura para tal tarefa. Não me atentei ao que Jung escreveu logo nas primeiras páginas de volume XVI de sua obra completa: A Prática da Psicoterapia (1971).

Por isso, quer eu queira quer não, se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico de um indivíduo, tenho que renunciar à minha superioridade no saber, a toda e qualquer autoridade e vontade de influenciar (…) Mas isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo pelos meus pressupostos.6

Lima já convivia há muito tempo em um ambiente hierárquico e castrador, onde seu pai e seu irmão mais velho o tratavam como um nada. Como um ser sem imagem, sem força, imprestável, vagabundo, preguiçoso, relaxado e covarde. O verdadeiro Corcunda de Notre Dame.

Esse quadro já se repetia em seu relacionamento com sua namorada. Diversas foram as vezes que ele me confessou. “Ela é igualzinha a ele, igual ao meu pai. Na sua casa e com sua família nunca fui tratado como gente”. E eu havia caído na armadilha desse quadro. Promovendo uma terapia hierárquica.

Faltou-me colocar em prática aquilo que acredito e escrevi em meu trabalho “História Real e o Arquétipo Fraterno”, onde defendi uma terapia calçada na relação fraterna. “Uma terapia mais humanizada, a partir da aceitação das diferentes formas como o ser humano consolida e estrutura suas relações durante a vida”.7

Mesmo se, como Lima, o paciente está acostumado a relações hierárquicas e desde o inicio da terapia busque uma transferência que não fuja a essa imagem, pois é ela que ele conhece “a função do terapeuta é entender o porquê dessa transferência do paciente e, assim, trabalhá-la. Sempre com muito cuidado para não ocupar tal posição, que sem dúvida é uma armadilha muito sedutora e convidativa.”8.

Lima, desde o primeiro encontro, perguntou a seu analista: Espelho, espelho meu, existe alguém mais vagabundo, preguiçoso, relaxado e covarde do que eu?

Eu, como terapeuta convexo refleti aquilo que ele me dizia e tentei, na melhor das boas intenções, mostrar que ele não era essa figura tão terrível assim. Mas que direito eu tinha, se sempre foi desta maneira que ele se viu e se refletiu para os outros? Quem disse que naquele momento, aquela (minha) atitude era a coisa certa a ser feita? Quem disse que Lima estava pronto para aquela mudança que eu considerava a certa? Voltando ao conto da Branca de Neve e a análise dos psicanalistas Daiana Lichtenstein Corso e Mário Corso “ninguém faria uma pergunta dessas para ouvir que a mais bela é a outra, a resposta tem de ser previsível, é apenas uma busca de confirmação.”.

Não quero dizer aqui que Lima deve se conformar e viver esse personagem. Não, de jeito nenhum. Acredito até que sua busca por uma terapia deve-se à insatisfação de ocupar aquele papel.

Lembro agora de uma conversa que teve com seus pais e irmãos. A família estava discutindo o casamento de sua irmã mais nova e o assunto era qual fotografo deveriam contratar. Foi quando o pai de Lima falou que o fotografo seria o próprio Lima. Assim não se gastaria dinheiro. Lima na hora ficou revoltado, mas se calou. Foi então sua irmã (no papel de Esmeralda) que falou que Lima seria o padrinho principal do casamento e que não deveria ficar atrás de uma lente fotográfica. Isso o deixou muito feliz.

Hillman (1984) em “O Mito da Análise”, ao referir-se à transferência diz “A transferência é uma réplica intensificada, ou paradigma arquetípico, de toda relação humana. Ela se estabelece em nós aonde quer que possamos ir.”9. Desta forma seria de se esperar que Lima levasse para a terapia o tipo de relação que conhece e está acostumado. Meu erro foi ser o terapeuta que o senso comum convoca. Um terapeuta refletor. Um terapeuta que esta para curar aquilo que deve ser curado. De forma fria e direta.

Porém quanto a essa outra forma de atuação, Hillman (1984) também faz um aviso “Ao invés de estarmos em perigo de nos tornamos um frio espelho, corremos agora o novo perigo de nos tornarmos criadores de imagens, um escultor que molda figuras e as tornas pulsantes e vivas apenas para ser incapaz de se separar delas. Assim, uma nova análise terá a sua nova sombra: não mais o onisciente velho sábio da reflexão, mas o tolo amante, cujo conhecimento é apenas amor, com suas criações”.10

Confesso não ter ainda certeza se cai na sombra do velho espelho sábio da reflexão ou se fui um espelho amante e tolo das criações, das imagens. Tendo a acreditar mais na segunda hipótese. Pois como dito acima, minha questão foi querer ficar preso nas imagens que Lima me trazia, sem saber se ele estava pronto a encarar seus reflexos. Mas confesso também que fico feliz por ter percebido, acredito não tarde de mais que “Os fracassos(…) são experiências precisosíssimas, não só porque através deles se faz à abertura para uma verdade maior, mas também porque nos obrigam a repensar nossas concepções e métodos.”.11

Graças a essa percepção e sem dúvidas às novas imagens trazidas pelo próprio Lima e por meu parceiro, amigo e supervisor, a quem sou imensamente grato, pude rever minha atuação e segurar a minha ansiedade, deixando as imagens um pouco de lado e permitindo-as agir por conta própria.

Atire a primeira pedra quem nunca “errou” em sua atuação clínica.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

BARCELLOS, G. Notas Sobre a Função Fraterna. In: http://www.rubedo.psc.br

CORSO, D.L & CORSO, M (2006) Fadas no Divã Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: artmed.

GUGGENBUHL-CRAIG, A. (2004) O Abuso Do Poder Na Psicoterapia E Na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio E Magistério. São Paulo: PAULUS.

HILLMAN, J. (1983) Psicologia Arquetípica. São Paulo: CULTRIX

HILLMAN, J. (1984) O Mito Da Análise. São Paulo: PAZ E TERRA

JUNG, C.G. (1961) Memórias Sonhos Reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

JUNG, C.G. (1971) A Prática Da Psicoterapia. Petrópolis: Editora Vozes.

PIERI, R de V. (2008) “História Real” E O Arquétipo Fraterno. Trabalho de conclusão de curso de pós-graduaçao em psicologia junguiana do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação.

SILVEIRA, N. da (1981) Imagens Do Inconsciente. Rio de Janeiro: ALHAMBRA.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Espelho_convexo

http://pt.wikipedia.org/wiki/Espelho_c%C3%B4ncavo

1 Corso. Diana Lichtenstein & Corso Mário (2006) pág. 80.

2 JUNG CW XVI § 109

3 Jung 1961, pág. 43/44

4 Jung CW XVI § 11

5 Jung, 1961: 123

6 Jung CW VXI § 02

7 Pieri: 2008

8 . Pieri: 2008

9 Hillman: 1984 101

10 Hillman: 1984: 103

11 Jung CW VXI § 73

1- M. Corso & D.L. Corso 2006 pág. 80  Página