Curso de Extensão – Estudando C. G. Jung

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OS CONTOS DE FADA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL. UM CASO CLÍNICO

OS CONTOS DE FADA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL.  UM CASO CLÍNICO

Por: Rodrigo Pieri

Introdução

Durante o primeiro semestre do ano de 2007, tive a oportunidade de compor o quadro técnico da equipe multidisciplinar, coordenada pelo Dr. Jairo Werner. A equipe atuava, e ainda atua, no ambulatório infantil da Universidade Federal Fluminense. Na época, além da minha presença como psicólogo, havia uma psicanalista, duas psicopedagogas, dois psiquiatras, uma terapeuta corporal, dois estagiários de medicina, dois técnicos de informática e uma voluntária, que acabara de ingressar no curso de Psicologia.

Nosso público era toda e qualquer criança atendida pela equipe de psiquiatria e encaminhada para o projeto “Tendas da Inclusão”. Temos aqui duas características do projeto: não havia criança acolhida pela equipe sem acompanhamento psiquiátrico inicial e não havia um diagnóstico específico para que a criança pudesse participar.

Desta forma, as “Tendas da Inclusão” recebiam crianças com as mais diversas queixas: abandono familiar, dificuldade de aprendizado, déficit cognitivo, esquizofrenia, autismo etc. Nossa preocupação não era com a cura, mas sim uma aceitação das características de cada indivíduo. “A condição dessa ajuda é uma aceitação da depressão, e não a ânsia de curá-la”.[1] O que determinava ou não sua participação no projeto, ou qual Tenda seria recomendável sua participação, era a prescrição psiquiatra.

As crianças contemporâneas estão em contato – de forma direta ou não – com várias realidades e delas apreendem valores e estratégias de compreensão de mundo e de formação de suas próprias identidades pessoal e social. Vivem e interagem intensamente com outras crianças, partilhando experiências, quase sempre em situações mediadas por adultos, mas fazem-no de forma singular, ressignificando a cultura que lhes é apresentada, apropriando-se, reproduzindo e reinventando o mundo.[2]

As manhãs de sexta tinham a seguinte sequência: as crianças ao chegarem, dirigiam-se para a sala dos computadores e recebiam aula de inclusão digital; depois, eram convidadas a participar da tenda dos contos de fada, enquanto era oferecida para os responsáveis presentes a atividade de terapia corporal; em seguida, as crianças dirigiam-se para a “Tenda do Corpo”, enquanto seus responsáveis eram recebidos na “Tenda da Cidadania”, onde uma psicanalista e um estagiário de medicina os atendiam e organizavam debates pautados no dia-a-dia de cada famílias presente.

O psiquismo não pode ser pensado como apartado do corpo, nem do ambiente físico ou do mundo cultural que ele habita. Ao contrário, a emergência do sujeito e o processamento da experiência subjetiva se dão na interação permanente do indivíduo com o ambiente humano e simbólico que o circunda[3].

Desta forma acreditamos na eficiência de um ambulatório infantil, a partir da presença de uma equipe multidisciplinar e em um local onde os pais (responsáveis) dessas crianças também possam ser acolhidos.

A proposta desta exposição é apresentar o histórico clinico de um dos participantes daquele Projeto e, através da análise do caso, relatar a evolução dele no grupo e como essa evolução refletiu no seu desenvolvimento pessoal.

Para tal, teremos como principal foco a sua participação na tenda do conto de fada Conta que te Conto, destacando sua relação com o mundo imaginário dos contos – seus personagens, as sagas e as fantasias oferecidas –, com as outras crianças e com os técnicos da atividade.

Apresentaremos, então, o histórico clínico de um menino de sete anos de idade, morador de Niterói, filho de dois portadores do vírus do HIV+. Seu pai faleceu antes mesmo de seu nascimento e a mãe apresentava uma característica de ser “terrivelmente” protetora, devido aos traumas de sua própria história de vida. Ela proíbe que o filho tenha contato com qualquer pessoa, mantendo-se sempre presente, seja na escola, na vizinhança ou em qualquer lugar que ele estivesse.

Por essa razão, excessivos desvios individuais da norma, no bom ou no mau sentido, são danosos. Os efeitos de atenção demais ou de atenção de menos dada à criança são igualmente negativos. Distúrbios na vida da mãe, doenças, choques e traumatismos psicológicos são desvios de constelação arquetípica da relação primal e podem lesar ou bloquear o desenvolvimento da criança[4].

O menino, a quem chamaremos de Charles, fora encaminhado para o ambulatório por apresentar comportamento agressivo e inquietação psicomotora.

A escolha dos contos de fada como ferramenta terapêutica surge, principalmente, pelas características próprias desse recurso literário. Edgar Morin, em uma palestra na Candido Mendes, no Centro Rio de Janeiro, em Julho de 2009 destaca: “A psicologia nos apresenta apenas a radiografia do sujeito. A literatura é a única forma de conhecermos o homem como um todo”.

Os contos de fada são histórias contadas há muitos anos, por varias civilizações, culturas e tribos. Não é necessária nenhuma capacidade intelectual específica para compreendê-los, Eles possuem linguagens simples, diretas e de fácil acesso.

(…) sem que percebamos, essas estórias falam da realidade do ser humano, de sua busca, de seus traumas e dificuldades ao lidar com papai e mamãe, de seu desejo de ser herói, dos monstros que ele às vezes sente que tem de combater durante a vida. [5]

Na narrativa de um conto, não há um pedido para que se acredite de forma objetiva no que esta sendo dito, mas sim uma possibilidade que essa narração possa, de maneira simbólica, atingir áreas para o além do consciente do ouvinte, já que os contos carregam acontecimentos que se espelham com a intimidade de cada psique. Isto é, aquilo que Carl Gustav Jung considerou como os conteúdos do inconsciente coletivo, chamando-o de Arquétipos.

Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é encontrada no mito e nos contos de fada. Aqui também, no entanto, se trata de formas cunhadas de um modo específico e transmitidas através de longos períodos de tempo.[6]

Além dos ensinamentos que os contos têm para nos oferecer, analisaremos, também, a importância da relação de um sujeito com o outro e as possibilidades de uma criança poder elaborar e contar sua própria história.

E isto depende não de alguma competência psicológica para explorar fontes abissais de inspiração do interior de cada um, mas da possibilidade de brincar, de não se prender excessivamente aos hábitos (impregnados em imagens, atos, significados, expectativas) e de poder explorar, com confiança, as possibilidades de ampliação de seu horizonte de ação.[7]

O trabalho pretende nos mostrar também a dificuldade que há para uma criança “perceber” que o mundo que sua mãe apresenta é repleto de falhas, perigos e insatisfações. Além de ilustrar que assumir os próprios desejos e as responsabilidades de ser dono de seu próprio mundo, para assim poder escrever e contar sua própria história, também não é uma tarefa das mais fáceis. Para tal é necessário um esforço quase heróico, esforço esse encontrado em diversos contos de fada.

Para a realização de tal processo, entendemos que a construção de um espaço acolhedor é necessária onde a criança possa vivenciar e se defrontar com os medos e frustrações.

Por fim o presente trabalho pretende apresentar como os contos de fada, o desenho, o contato com outras crianças, a transferência e a contratransferência, o contato com o mundo imaginário e a arte de (re) contar sua própria história pode auxiliar uma criança no seu processo de desenvolvimento.

Importante destacar que, ao fim de cada narração de um novo conto era distribuído para as crianças material de desenho, para que pudessem expressar e ilustrar as fantasias identificadas através da história apresentada.

Na pintura, através do manuseio dos pincéis, lápis de cor, caneta e de outras ferramentas para desenho, o sujeito pode dar forma às suas emoções produzindo aquilo que não consegue verbalizar, através da linguagem simbólica.[8]

Por fim, perguntávamos sobre os desenhos e sobre o que acharam do conto.

Quando o contador dá tempo às crianças de refletir sobre as estórias, para que mergulhem na atmosfera que a audição cria, e quando encorajadas a falar sobre o assunto, então a conversação posterior revela que a estória tem muito a oferecer emocionalmente e intelectualmente.[9]

Os Encontros

No primeiro encontro, que ocorreu no dia 02/03/2007, optamos por nos apresentar, apresentar a atividade e pedi para que se apresentassem. Nesse dia tínhamos presentes Charles e mais uma menina. Finalmente, pedimos para que em conjunto contassem uma história.

Durante o encontro Charles transitou pelo espaço, querendo brincar com todos os brinquedos presentes, apresentando dificuldade de compartilhá-los com a colega. Quanto à história contada, Charles foi um dos principais narradores. Enquanto brincava contava a história. Neste primeiro encontro a equipe apenas observou, sem interferir na história.

“Uma moça loira, com um vestido longo azul, que tinha uma cintura enorme. Essa moça, que morava num castelo, queria ir a uma festa que estaria acontecendo ali pela redondeza, mas sua madrasta não permitia, dizia que ela tinha que faxinar o chão, lavar as roupas e as louças. Essa moça se chamava Cinderela.

Para essa mesma festa havia uma outra moça que morava no topo do morro e que tinha um cabelo enorme, ela queria muito ir, mas tinha um problema, estava presa nesse morro e não havia maneira de se libertar, a não ser pelos cabelos.

E lá, no fundo do mar, havia uma sereia, uma pequena sereia, que sonhava ter pernas e poder caminhar até a festa, conhecer um príncipe casar e ser feliz para sempre.

A única que acabou conseguindo ir à festa foi Cinderela, pois sua madrinha a ajudou a arrumar tudo que tinha como tarefa. Na festa ela conheceu um príncipe, que se apaixonou por ela, eles casaram e viveram felizes para sempre. Ela nunca mais teve que fazer coisas que sua madrasta mandava.

Quanto às outras duas, elas também encontraram seus príncipes, uma em cima do morro e outra debaixo do mar.”

Vemos aqui uma união de três contos e a presença constante da figura feminina.

Para o segundo encontro selecionamos A Rã Encantada, conto esse que, entre outras coisas, fala sobre limites e acordos entre uma menina e uma rã, desta vez o grupo já era maior, novas crianças foram encaminhadas pela equipe psiquiátrica. Charles, de início, teve muita dificuldade de aceitar as regras da atividade (horário, local, compartilhamento de material etc.), além de tentar chamar atenção da equipe técnica só para si. Mas isso foi logo contornado quando convocamo-no para ajudar na narração do conto, ilustrando os detalhes. Por exemplo, qual refeição a menina teve no jantar, ou como era a batida na porta que a Rã fazia. No fim, ao perguntar qual parte cada um havia gostado mais, Charles, assim como as outras crianças, preferiu a parte da mutação, quando a rã se transformou em príncipe, sendo que a transformação só ocorre no momento em que a menina consegue expor toda raiva e agressividade que está sentindo e joga a rã na parede.

Charles não veio na semana seguinte e, no dia do seu retorno, a história escolhida era Os Três Porquinhos. Charles, por já conhecer a história, se sentiu mais à vontade em ajudar a contá-la, o que acabou influenciando as outras crianças presentes (sempre encaminhadas pela equipe de psiquiatria. O grupo se construiu ao longo dos encontros) a fazer o mesmo.

Para semana seguinte o conto selecionado foi O Gato de Botas. Antes de começar a atividade, Charles me perguntou se poderia ser meu ajudante para contar as historias, respondi que não só ele, mas que todos poderiam, pois eu precisava da imaginação de cada um para conseguir contar.

Duas semanas se passaram, pois tivemos feriado e, no encontro seguinte, o único presente era Charles. Optamos então por deixar que o próprio nos contasse uma historia. Demos algumas folhas de papel e canetinhas e o deixamos à vontade.

Charles começou desenhando um mar e de imediato narrou:

Era uma vez um mar, e nesse mar havia um barco, um barco com muita comida, um barco de uma família muito alegre. Neste barco tinham 25 quartos. (nesse momento Charles desenha um barco com muitos quartos).

Num certo dia ensolarado, com muitas nuvens bem bonitas que chegavam perto do sol (enquanto contava ia desenhando o sol e as nuvens). Doze pessoas dessa família foram tomar banho de mar. Essa família era de 25 pessoas, e só um, o Rafael não estava no mar, mas sim lá em cima, no último andar do barco, fazendo ginástica e tomando sol. (Charles desenha a família no mar e o Rafael fazendo ginástica. Para em seguida começar a desenhar na parte de trás da folha).

Quando já estava de noite e todos estavam nos seus quartos dormindo em um outro barco, no barco de Moises, um barco tão lindo. – Cada quarto desse barco tinha uma cor, mas a cor que o barco mais tinha era o vermelho (Charles desenha o barco colorido de Moises) – de repente apareceu uma fada madrinha, a fada dos desejos para realizar todos os desejos de Junior. Junior era o mais novo da família, tinha 08 anos e estava muito triste, porque ele dormia no chão, não sabia nadar, não tinha televisão, não tinha Play Station, enfim, não tinha nada para brincar ou fazer. As outras crianças, que tinham todos os brinquedos, não gostavam dele, porque ele era uma criança bem quietinha, e as outras crianças, O Rafael de 16 anos e o Bruno de 39, eram bagunceiras.

O Junior pediu para que tudo que imaginasse se tornasse verdade, e ele imaginou uma sereia e o Super Homem (Charles que também tem 08 anos desenhou o Junior, a fada dos desejos, a sereia e o Super Homem).

No dia seguinte, (nesse momento Charles pede mais uma folha e desenha um outro barco todo preto e listrado) quando o sol estava bonito a família de Junior encontrou outras quatro famílias, num outro barco e todos falaram assustados:

– Caramba!!! Como chegamos nesse outro barco?!?!

– Junior como você conseguiu esses brinquedos?!?!?! Esse play station?!?!?!

E Junior respondeu:

– Basta eu imaginar e tudo acontece, mas isso é só comigo.

Todos ficaram amigos dele e no dia vinte e dois de dezembro todos foram na sua festa de aniversário e ele se tornou muito feliz (Charles também faz aniversário no dia 22 de dezembro).

Quando acabou de contar, me pediu para que escrevesse a palavra Fim bem grande.

A cada semana um novo conto era narrado. Contos com diferentes temas e propostas, mas foi no dia 18 de maio que encontramos a primeira rejeição de Charles. Antes mesmo da atividade, quando fomos chamá-los na sala de informática, batera o pé dizendo que não queria participar. Como a atividade é democrática dissemos que ele não precisava participar, mas não poderia ficar na sala de informática, pois iríamos fechar a porta.

Começamos a atividade sem ele, no meio da narrativa Charles resolveu entrar, mas ficou inquieto, tentando chamar a minha atenção. Ao perceber que eu continuei com a narrativa, ele começou um movimento de entrar e sair da sala até que no final optou por ficar. Ao fim da atividade Charles já estava sentado no circulo com todo mundo e pediu para que eu contasse a historia para ele. Perguntei se alguém poderia contar e um outro colega do grupo tomou a iniciativa. Charles ouviu atentamente. Após a atividade Charles e uma outra criança do projeto se estranharam. Ao perceber que o menino estava muito agressivo, Charles começou a provocá-lo. Mas rapidamente a equipe apaziguou os ânimos.

A dinâmica da atividade se manteve nas semanas seguintes e, no meados do mês de junho, Charles ao perceber que o conto selecionado era curto e que ainda havia tempo para atividade, pediu para contar uma história. Desta vez ele não era a única criança presente, mas isso não o intimidou.

Era uma vez o “Efalante”, ele era um elefante que falava. Tinha apenas oito anos e tinha muito medo de tudo, pois todo mundo falava para ele que os “outros” faziam muito mal, mas no fim ele acaba percebendo que ele pode fazer amizade, com os “outros” que são da turma do Ursinho Puff.

É inevitável fazer uma comparação entre o Efalante e o próprio Charles, principalmente no contexto em que ele, Charles, não se relacionava com outras pessoas, pois, segundo sua mãe, os outros faziam muito mal. Charles só podia se relacionar com a própria mãe e com Deus.

Enquanto narrava à história, Charles desenhava os personagens de seu conto.

Após esse episódio ele ficou um mês sem retornar ao ambulatório. No dia de seu retorno repetiu seu movimento de querer toda atenção da equipe só para ele e mais uma vez pediu para contar uma história. Era um livro do Homem-Aranha, mas desta vez não conseguiu dar fim a ela. Combinamos então que ele terminaria em casa e traria quando estivesse pronto.

Uma semana depois voltou a querer atenção só para ele. Durante a atividade ficou tacando pedra no castelo e chamando meu nome. Depois me disse ter ficado chateado, pois sua mãe havia o deixado ali e tinha ido embora (ela havia ido ao hospital pegar remédios).

Outro episódio de briga, com o mesmo menino da vez anterior, ocorreu na semana seguinte. Desta vez Charles machucou o nariz. Curioso que o conto do dia era O Tapete Mágico, onde há três objetos mágicos (um tapete que leva a pessoa para qualquer lugar, uma maça que cura tudo e um binóculo que enxerga a qualquer distância). Pedimos para que cada um escolhesse um objeto. Charles escolheu a maça, disse que ia dar para mãe cheirar e assim ela não tomaria mais remédios.

Três encontros depois Charles trouxe o livro do Homem-Aranha finalizado e fez questão de mostrá-lo só para mim. Parecia estar muito orgulhoso de sua história e aliviado também.

O desenvolvimento clínico

Charles chegou ao ambulatório trazido por sua mãe. Esta estava assustada com o comportamento agressivo do filho. Importante lembrar que por ter contraído o soro HIV+ em uma relação onde se julgou enganada, pois não sabia que seu par era portador, ela se afasta de seu meio social e apresenta o mundo, para o menino, como um lugar de pessoas maléficas e desonestas.

Segundo minha experiência, parece-me que a mãe sempre está ativamente presente na origem da perturbação, particularmente em neuroses infantis ou naquela cuja etiologia recua até a primeira infância. Em todo caso, é a esfera instintiva da criança que se encontra perturbada, constelando assim arquétipos que se interpõem entre a criança e a mãe como elemento estranho, muitas vezes causando angústias[10].

No caso de Charles, sua mãe utilizava sempre da bíblia e seus personagens, como únicos objetos dignos de relação. O mundo então construído era composto apenas por ela, Charles e pelos elementos bíblicos.

A criança é o deus companheiro da Grande Mãe. Como criança e como Cabir, ela se situa ao lado e debaixo dela como criatura dependente. Mesmo para o deus jovem, a Grande Mãe é o destino. Quanto mais para a criança, cuja natureza é pertencer à mãe e ser parte dependente da vida dela![11]

Nos quatro primeiros encontros narrados acima é visível o desejo em Charles de poder criar a sua própria história, a sua própria forma de se relacionar com o mundo e “cortar o cordão umbilical” com sua mãe. Mas para isso a equipe deveria estar atenta, não só em suas atitudes, mas também nas escolhas dos contos.

Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações, reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam.[12]

Foi no quinto encontro, quando Charles era única criança presente, que vimos à oportunidade para que ele enfim pudesse contar um pouco da sua história.

A ação, na verdade, se desdobra em duas dimensões fundamentais na relação do sujeito consigo próprio e com o mundo: a estabilidade e a precariedade, ou seja, preservação e a mudança. Ela se expressa dinamicamente, portanto, na tensão entre o hábito e a criação, entre ações que garantem a estabilidade das imagens de si e do mundo, preservando certas referências identitárias, e atos criativos ou inovadores, que criam novas maneiras de o sujeito se ver e se descrever no mundo – instituindo, assim, novas formas de agir como sujeito frente às expectativas sociais que o cercam, e frente ao seu próprio desejo[13].

São inúmeras as correlações que podemos fazer entre a história vivida por Charles e a história por ele contada: Data de aniversário, a criança que não tem amigo, o nome do barco onde ele se encontra e tantas outras. Há também algumas correlações que podemos fazer entre a história contada e a atividade dos contos. De imediato destaco duas: o nome de um dos integrantes é o mesmo nome da criança de 39 da história e a frase “basta eu imaginar que tudo acontece” era a forma que respondíamos à frequente pergunta que as crianças faziam durante os contos: mas isso existe mesmo?

A sua rejeição em participar da atividade em algumas semanas, as repentinas brigas que teve com o colega e o medo que sentiu no dia que sua mãe se ausentou são facilmente entendida quando comparamos com as analises encontradas no livro de Erich Neumann: A História da Origem da Consciência (1968), por exemplo, na página 48 ele diz:

A criança também experimenta essa mesma indefinibilidade do mundo; ela ainda não é capaz de se orientar com consciência e de reconhecer o mundo e enfrenta cada evento como se fosse uma devastadora inovação, estando exposta a todos os caprichos do mundo e dos homens (…) Esse terror é expressão da situação presente na alvorada do mundo, onde uma pequena e frágil consciência do ego se vê diante do gigantesco mundo (…) Por isso, o medo é um fenômeno normal na psicologia da criança.

Essa indefinibilidade e a, ainda, frágil consciência do ego citada por Neumann também encontramos na terceira história contada por Charles. Esta já na presença de outras crianças. Onde o personagem principal, novamente com traços similares ao próprio narrador é um elefante falante. Ou seja, meio homem, meio animal.

A figura do animal indica que os conteúdos e funções em questão ainda se encontram na esfera extra-humana, isto é, num plano da consciência humana participando consequentemente, por um lado, do sobre-humano demoníaco e, por outro, do infra-humano animal.[14]

Seguindo Winnicott, acreditamos que nossa investida quanto à possibilidade de Charles poder fantasiar e construir sua própria história estava correta.

A solução para os problemas da ambivalência inerente surge através da elaboração imaginativa de todas as funções; sem a fantasia as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra. A fantasia prova, deste modo, ser a característica do humano a matéria-prima da socialização e da própria civilização.[15]

Para acolher Charles nessa nova construção de mundo nos apoiamos principalmente nas novas relações que eram criadas através dos encontros semanais, não só com os membros da equipe, mas também com as outras crianças. Isto nos pareceu surtir efeito quando ele contou a história do Efalante e seu encontro com a turma do Ursinho Puff.

Quando ações realizadas pelo sujeito são bem sucedidas no sentido de serem acolhidas pelo ambiente e legitimadas por ele, elas tendem a se tornar hábitos subjetivos, ou seja, são incorporados aos padrões e esquemas de ações que se tornam “naturais”, que não mais suscitam interrogações.[16]

Mas Winnicott nos alerta que não se trata de um basta querer

Para funcionar como terapia (…) a criança precisa ganhar confiança no novo ambiente, em suas estabilidades e em sua capacidade de objetividade antes de se desfazer de suas defesas – defesas contra uma ansiedade intolerável, que poderia ser novamente desencadeada por uma nova privação.[17]

Desta forma, com um ambiente acolhedor e “encorajador”, através de seu contato com o mundo arquetípico dos contos de fada e uma possibilidade de novos relacionamentos, Charles conseguiu elaborar e contar a sua história. Uma história que ganhou até livro, personificado no papel de Homem-Aranha, uma história que ecoa aqui neste trabalho.

Por meio do ato heróico da criação do mundo e de divisão entre os opostos, (…) Com o surgimento do ego, a situação paradisíaca é abolida; a situação infantil, na qual algo maior e mais amplo ordenava a vida e a dependência com relação a ele era natural, terminou.[18]

Por fim, quero dizer que nesse trabalho não há um movimento de culpar a mãe quanto os comportamentos agressivos e inquietação psicomotora apresentada por Charles. Na verdade se não fosse pela própria mãe, Charles não seria atendido no ambulatório. O que tento descrever é como o trauma dessa mãe se codificou na forma de amar o seu filho, sem esquecer que esse filho é um dos dois frutos do encontro com o pai de Charles. O filho e a Aids.

O amor não é só uma questão de contato afetivo. O amor reúne em si os impulsos instintivos de raiz biológica, e o relacionamento que se desenvolve entre um bebê e uma mãe carrega consigo idéias de destruição. É impossível amar de modo livre e pleno sem ter idéia destrutiva[19].

O investimento de sua mãe e a importância desse investimento pode ser percebido no fato que ela sempre participou da Tenda da Cidadania, citada no início desse trabalho, além de seu esforço descomunal de levar Charles ao ambulatório. Por causa dela e de seus esforços o trabalho com Charles pode ser realizado.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

BETTELHEIM, B. (2003) A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra

Bezerra Jr., B. & Milman, L. (2008) A Casa da Árvore – uma experiência inovadora na atenção à infância. Rio de Janeiro: Garamond Ltda.

Bonaventure, J. (2008) O que Conta o Conto? São Paulo: PAULUS.

Fordham, M. (1994) A Criança Como Indivíduo. São Paulo: CULTRIX

Jung, C.G (2000) Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Editora Vozes

Neumann, E. (1968) História da Origem da Consciência. São Paulo: Cultrix.

PIERI, R de V. (2005) O Conto de Fada da Casa das Palmeiras. Trabalho de conclusão de curso de graduação em psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Sarmento, M. J. & Vasconcellos, V. M. R. de (2007) Infância (In)Visível. Araraquara: Junqueira & Marin Editores

Winnicott, D. W. (1990) Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Winnicott, D. W. (2005) A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo: Martins Fontes.


[1] Winnicott. D. W (2005) pág. 88

[2] Vasconcellos. Vera Maria de & Sarmento. Manuel Jacinto (2007) pág. 8.

[3] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 21.

[4] Neumann. Erich (1968) pág. 19.

[5] Bonaventure. Jette (2008) pág. 12

[6] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 17

[7] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 22.

[8] Pieri, de Vasconcellos Rodrigo (2005) pág. 13

[9] Bettelheim Bruno (2003) pág 75

[10] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 94

[11] Neumann, Erich (1968) pág. 50

[12] Bettelheim, Bruno (2003) pág. 13

[13] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 22

[14] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 226

[15] Winnicott, D, W (1990) pág. 78

[16] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 23

[17] Winnicott, D, W (2005) pág. 199

[18] Neumann, Erich (1968) pág. 94

[19] Winnicott, D, W (2005) pág. 87

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Empoderamento: Transferência e o resgate da auto-estima

Empoderamento: Transferência e o resgate da auto-estima

Por: Wagner de Menezes Vaz

Resumo. Nosso objetivo é o estudo do fenômeno da transferência como meio para o resgate da auto-estima e do poder pessoal. Quando nos referimos a um sujeito destituído de poder estamos dizendo que ele é possuidor de uma ferida narcísica que o faz lançar mão de estratégias que minimizem seu sofrimento. O conceito de self-regulating other, utilizado por Mario Jacoby, traz como hipótese o fato de que é na relação com o outro que é possível à criança a emergência da organização do senso de Self. As experiências com as figuras parentais, em particular a figura materna, se cristalizam em representações psíquicas sob as formas de sentimentos, expectativas, idéias e fantasias que, ao serem internalizadas, assumem um caráter geral, tornam-se vivas e passam a fazer parte da história do indivíduo. É neste sentido que podemos conceber a transferência como uma estratégia para a construção de um estado de empoderamento do paciente, como demonstra Jung, através da noção da função prospectiva dos símbolos que apontam uma saída criativa para a neurose. Esta construção do empoderamento, na atmosfera “erótica” do encontro analítico é uma etapa preliminar e imprescindível do processo de individuação. Neste encontro, o vínculo entre analista e paciente, entendidos como dois sistemas psíquicos em interação, atualiza estas vivências familiares, permitindo sua re-elaboração e reconstrução. A família, núcleo básico humano, representa o cenário no qual a auto-estima é construída. Temos a necessidade de nos ver refletidos no outro para podermos nos reconhecer, sentirmo-nos aceitos e importantes para outras pessoas e para nós mesmos. O analista, enquanto figura de poder, representa o sábio na imagética do analisando e, portanto, de grande apelo emocional, o que favorece a manifestação dos conteúdos anímicos em um ambiente de troca afetiva e acolhimento.

O ser humano se encontra em estado de equilíbrio quando suas necessidades físicas, mentais e espirituais são minimamente atendidas de forma que a adaptação ao meio se torne a melhor possível.  No entanto, não basta comer bem e estar abrigado das intempéries. Nosso ser demanda por algo que passa pelo olhar do outro.

Quando chegamos ao mundo, como numa casa que visitamos pela primeira vez, esperamos ser bem recebidos. Antes de vir, outros estavam antes de nós. Sermos brindados com a hospitalidade nos faz sentir bem e acolhidos. Quando isto ocorre, somos objeto de apreço e merecedores de atenção e respeito aos olhos de outras pessoas.

Um cliente quando vai ao consultório traz suas experiências mais íntimas e seus medos mais profundos. Portanto, é natural que, na primeira vez, suas reações sejam de desconforto. Fazer com que o paciente fique o mais a vontade possível é uma estratégia importante. O ambiente deve ser acolhedor e o terapeuta deve abster-se de quaisquer intervenções que caracterizem críticas ou julgamentos. É importante fazê-lo perceber que suas emoções iniciais de desconforto e ansiedade são perfeitamente compreensíveis; afinal, o paciente está diante de uma pessoa com quem nunca travou contato antes e, agora, está ali, na condição de falar sobre seus segredos.

A primeira vista pode parecer um contra-senso falar de empoderamento do paciente. O médico, o terapeuta ou psicólogo, pela particularidade da posição que ocupam, de serem conhecedores do corpo e da alma do homem, se encontram numa relação do poder no mínimo desigual. Os profissionais da área médica ou psicológica conhecem aquilo que é mais caro ao ser humano: a saúde física e a saúde mental. De posse deste saber, estes profissionais detêm o poder nesta relação.

Mas em que momento esta equação se inverte?

Empoderar significa não somente assumir o poder em virtude de uma determinada circunstância, mas, também a partir da idéia de que alguém ou um estatuto delegou este poder. Não há empoderamento sem o avanço de uma parte e a aquiescência de outra parte. Existe a idéia de que esta assimetria entre paciente e terapeuta poderia ser reduzida em função da disponibilidade de informação, ou seja, a partir do momento que consideramos que a tecnologia de acesso a informação permite às pessoas obterem conhecimento sobre qualquer tema, é possível que se diminua o gap existente entre estes dois atores. No entanto, tal argumento, verdadeiro por um lado, deixa de considerar a imagética que permeia todas as relações, sejam elas profissionais ou afetivas. O empoderamento não se estabelece unicamente pelo conhecimento técnico que o paciente pode adquirir, mas pelo conhecimento e pela autoridade que ele acha que o médico possui. Implicitamente ele outorga este poder ao terapeuta.

O paciente ao buscar o terapeuta espera uma atitude de acolhimento. A busca pelo atendimento clínico aponta para um desempoderamento do paciente, pois é este o motivo de sua busca. Chamamos a atenção para o preparo do terapeuta quanto à disponibilidade para a escuta, a abertura para novos significados que a clinica traz. Na verdade, é este desafio que a clínica propõe: o da escuta dos sentidos e significados do paciente. Mesmo que o trabalho do psicólogo não esteja associado ao do médico enquanto prática, é por ele atravessado enquanto paradigma. Com o avanço da tecnologia e da eficiência dos fármacos, a prática médica olha o seu paciente como um quadro nosológico e não como um sujeito que provem de uma dinâmica que possui múltiplos atravessamentos.

Na atuação profissional do psicólogo estes atravessamentos são assimilados de forma diferenciada. Podemos ter muito pontos de contato, mas, isto não significa uniformidade. A padronização das intervenções e a não abertura para outros significados a partir de significantes comuns acaba por excluir do sujeito aquilo que o diferencia dos demais: a sua singularidade.

O setting terapêutico é um microcosmo das relações humanas mais amplas. Se o terapeuta é, ao mesmo tempo, quem o analisando deposita confiança para a escuta de sua queixa e que tem a convicção de que ele pode oferecer as respostas, fica em suspenso de que modo se dá o amálgama entre um e outro já que eles não se conhecem. Cabe, então, questionar neste momento, a partir de que evento é possível identificar a instalação de uma relação analítica. O fenômeno da transferência merece neste ponto uma atenção especial para o estudo de como ela está relacionada ao empoderamento e ao resgate da auto-estima.

Antes de tudo, a transferência é um fenômeno que ocorre entre duas pessoas e de forma inconsciente, automática e espontânea. Como um fenômeno projetivo, atribuímos características objetivas a alguém, mas que, na verdade, pertencem aos conteúdos subjetivos do projetor. Este fenômeno captura emocionalmente o eu de tal forma que este não é capaz de, pela força de vontade, opor-lhe resistência. Na técnica analítica de Jung, o terapeuta acata as emoções do paciente e, por este motivo, está frente a frente com ele, servindo-lhe de espelho. Para Jung (2004) é um engano supor que o terapeuta não sofre as influências das emoções emanadas de seus analisandos. E estas emoções serão tanto mais fortes quando os conteúdos projetados do paciente forem coincidentes com os conteúdos inconscientes do terapeuta. Este fenômeno é chamado de contratransferência. Portanto, a intensidade da transferência se dará proporcionalmente a importância de seus conteúdos para o sujeito. Tão logo se conscientize dos seus elementos, haverá uma disponibilidade energética em igual grau. O que é importante é perceber que a energia investida na relação transferencial poderá ser utilizada para o que representa um valor para o sujeito, mas, que não estava consciente até então. Jung (2004) vai se referenciar à importância de um bom rapport, ou seja, uma empatia positiva entre analista e analisando para que haja de fato um encontro analítico e seu efeito terapêutico seja possível.

Quando a transferência se instala é exigido do terapeuta que não se apresse em dizer coisas ao paciente de forma que ele se conscientize intelectualmente do que ocorre, pois, além de aumentar a suas estratégias defensivas é inócuo terapeuticamente falando. Portanto, o analista deve ser hábil no manejo da transferência.

Um dado importante é o preparo do analisando para fazer frente a estas fortes vivências emocionais que também afetam o analista e será tanto mais danosa quanto for sua inconsciência a respeito do que ocorre. Havendo uma brecha há sérios riscos de que o analista se contamine com as imagens do analisando e interfira no trabalho analítico.

A transferência ocorre a partir de um conteúdo ativado no inconsciente e que busca de alguma forma se expressar. Sua importância é equivalente ao conteúdo projetado. Os conteúdos projetados na transferência, levando-se em conta a intensidade, representam algo de grande valor para o paciente. Jung irá propor que

[…] deve-se devolver o valor ao paciente e a análise não termina até que o paciente tenha integrado completamente o valor à sua personalidade. Assim se for projetado o complexo de salvador […] devolva essa qualidade ao paciente sem modificá-la em nada. Que salvador signifique lá o que for, isto não quer dizer que tal qualidade seja a do analista. (JUNG, 2003, p.142)

É, portanto, uma tentação para o analista sucumbir a estes apelos, a identificação com o arquétipo, mas com certeza pode estar comprometendo o valor terapêutico do encontro analítico.

O valor terapêutico da transferência não reside no fenômeno em si, mas, nas imagens que ela porta. O empoderamento através da via transferencial se dá pelas imagens subjacentes ao fenômeno. Segundo Jung

[…] o paciente deverá ver o valor subjetivo dessas imagens que parecem criar empecilhos à sua vida. Deve assimilá-las à sua própria psicologia e descobrir de que forma elas fazem parte dele próprio; de que forma, por exemplo, ele dá valor positivo a um objeto quando, na verdade, o valor deveria ser incorporado e desenvolvido pelo paciente. E da mesma forma quando projeta um valor negativo, odiando e execrando o objeto, sem descobrir que vê nele o seu próprio lado negativo, sua sombra por preferir ter uma opinião otimista e unilateral de si mesmo. (JUNG, 2003, p.149)

Este empoderamento de que estamos falando diz respeito na verdade ao chamar o paciente à responsabilidade e ao reconhecimento de seus aspectos bons e maus, pois somente através da recolha das projeções e sua assimilação pode o indivíduo estar no poder, estar entronizado no lugar que lhe é de direito ao abolir as unilateralidades neuróticas às quais de se afeiçoou. Jung (2004) descreve a psique como auto-reguladora e que faz uso da compensação como um mecanismo de ajuste. Olhar para o sintoma é observar a resposta que este sistema está produzindo em função de desequilíbrios no mesmo.

O analisando no setting aparece como portador de uma ferida e que fantasia que o terapeuta possa retirar esta dor. Ele poderá aderir ao terapeuta através da empatia, estratégia esta que visa obter o apoio a sua causa partindo do pressuposto de que ao estabelecer um bom relacionamento com o terapeuta este trará a solução de seus problemas. No entanto, Steinberg explica que

Jung, indubitavelmente, queria dizer que a tentativa do paciente de curar-se através da empatia é válida, desde que o paciente se identifique com a atitude analítica, isto é, com a intenção do analista de tornar consciente o inconsciente. (STEINBERG, 1990, p.14)

A tentativa do analisando de se curar através de uma fantasia que faz a respeito do analista se mostra uma falácia. Isto demonstra como no setting são reproduzidas as estratégias que o analisando usa para entrar em relação com as pessoas, ou seja, é neste vaso alquímico que analista e analisando tomam conhecimento de como se dão os relacionamentos que o último estabelece fora da clínica. Mesmo que o analisando procure estabelecer conscientemente uma relação cordial e harmônica com o terapeuta, inconscientemente constelará os conteúdos associados e, transferencialmente, capturará a figura do terapeuta e o transformará numa figura significativa de seus relacionamentos infantis. Como o terapeuta não é nenhuma destas figuras projetadas ele pode fazer uma intervenção e pontuar sobre a possibilidade de uma nova dinâmica.

O analisando tende a repetir os padrões de comportamento. Ele tem ciência de que existe um mal estar nesta conduta, mas, não consegue fazer nenhuma oposição a isto. Mesmo que o sofrimento lhe seja evidente, existe um ganho subjacente que lhe é desconhecido. Não basta que o paciente conheça intelectualmente as razões pelas quais ele conduz sua vida desta ou daquela maneira. Este rol de justificativas apenas o aprisionará cada vez mais como numa areia movediça. Paradoxalmente, para que o analisando se empodere é importante que ele se desempodere, que deixe de reificar as condições que lhe dão sustentação no momento atual e que o afastam de si mesmo. A análise redutiva, o movimento em direção às causas que permeiam suas atitudes atuais pode ser um começo importante, mas, não é o suficiente. Mostra-se mandatório que, antes, deve haver uma mudança nas atitudes.

Para que o encontro analítico tenha valor terapêutico é necessário uma atitude de acolhimento por parte do analista, mas, é importante, também,  observar que este acolhimento é muito mais do que uma empatia ou afetividade. O olhar clínico deve ser arguto o suficiente para captar as necessidades da alma do analisando.

Jung (2004), esquematicamente, define as quatro fases que compõem o processo analítico: confissão, elucidação, educação e transformação.

Toda psicologia é uma confissão e não uma descrição de fatos. A confissão é uma apresentação do sujeito, um esvaziamento das informações que se encontram na consciência; pelo menos no começo, o paciente irá falar muito, já que nada conhecemos a respeito dele; quando ele fala algo para este alguém, que é o terapeuta o qual transferencialmente é visto como superior, sabemos que é algo importante que está sendo falado.

A elucidação diz respeito à percepção de que, por detrás da fala do paciente, existe um outro discurso, passível de interpretação. A informação inconsciente nunca é totalmente inconsciente; o inconsciente irá procurar uma maneira de deixar uma pista; ele está sempre querendo aparecer; ele rompe as barreiras que o ego estabelece; as falhas que se apresentam apontam para o sintoma neurótico, ou seja, a recusa do ego em conhecer-se; ele cria uma cisão na personalidade, pois, não encontra uma forma de se expressar diretamente; ele o fará de forma indireta.

A educação é o entendimento de que vivemos em sociedade, que o homem é um ser social; e que as transformações necessárias só irão ocorrer na realidade. A sociedade possui leis que estão acima do sujeito; a educação é o reconhecimento dessas regras; para mudar algo, eu tenho que participar da sociedade.

A transformação é dirigida para quem já está adaptado; nesta etapa surge um olhar crítico sobre a adaptação enquanto movimento prospectivo do psiquismo. A categoria “normalidade” é uma categoria mediana; diz respeito à norma, uma definição coletiva e social; mas deseja-se mais; existe uma necessidade de uma resposta individual que corresponde à individuação; leva-se em consideração a norma, mas, não se submete a ela; muitas vezes existem soluções que vão de encontro à norma e são assumidos as escolhas e os riscos; é aqui que o método dialético deve ser levado mais sério ainda quando o analista abre mão de seus pressupostos. A proposta de restituição de poder via transferência passa pela atitude do analista em estar aberto à diferença. A este respeito, Jung diz que

as exigências e necessidades do homem não são iguais para todo mundo. O que para uns é a salvação, para outros é prisão. O mesmo acontece com a normalidade e o ajustamento. Há um preceito biológico que diz que o homem é um ser gregário e, portanto, só atinge a saúde plena enquanto ser social. No entanto, é possível que o primeiro caso que encontramos pela frente desminta frontalmente essa assertiva, provando-nos que ele só gozará de saúde plenamente, se levar uma vida anormal e anti-social. (JUNG, 2004, p. 67-68)

Esta fase do processo analítico lança um olhar sobre as necessidades da alma, sobre a necessidade de uma resposta individual ao que se apresenta, para além do ajuste e da adaptação. É uma etapa em que o analista é co-participante. Transformar é ir além da forma, do que já está estruturado e conhecido. Sobre este aspecto, Jung constata que

é de desesperar que na psicologia verdadeira não existam normas ou preceitos universais. O que existe são apenas casos individuais e suas necessidades e suas exigências são as mais variadas possíveis – tão divergentes, que no fundo nunca se pode saber de antemão o rumo que vai tomar este ou aquele caso. O melhor que o médico pode fazer é renunciar a qualquer opinião preconcebida. (JUNG, 2004, p.68)

O empoderamento é entendido como a resultante de uma relação que se dá através da transferência-contra-transferência. A conscientização dos mecanismos neuróticos num primeiro momento e a possibilidade de construção de uma oportunidade de ser quem se é através de uma escolha consciente, num segundo momento. O encontro analítico, segundo Jung, “[…] é como uma mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2004, p. 68). Neste ponto, Jung assegura que

nenhum artifício evitará que o tratamento seja o produto de uma interação entre o paciente e o médico, como seres inteiros. O tratamento propicia o encontro de duas realidades irracionais, isto é, duas pessoas que não são grandezas limitadas e definíveis, mas que trazem consigo, não só uma consciência, que talvez possa ser definida, mas, além dela, uma extensa e imprecisa esfera de inconsciência. Esta é a razão por que muitas vezes a personalidade do médico (como também a do paciente), é infinitamente mais importante para um tratamento psíquico do que aquilo que o médico diz ou pensa, ainda que isso não possa ser menosprezado como fator de perturbação ou de cura. (JUNG, 2004, p.68)

A construção da auto-estima acontece desde cedo na vida das pessoas e está ligada ao auto-conceito, ao julgamento que cada um faz a respeito de si próprio. Ela afeta diretamente os sentimentos e a maneira como a pessoa se comporta diante das situações da vida, principalmente aquelas relacionadas ao meio social e, por conseguinte, as que têm a ver com o olhar do outro. A baixa auto-estima está ligada principalmente a uma percepção equivocada de si o que leva a um sentimento de inadequação.

Um ego estruturado passa pela questão da auto-estima. Desde a infância quando o olhar materno encanta com seu brilho indicando aceitação e acolhimento. Ao que parece, a natureza nos brinda com exemplos interessantes acerca da necessidade de nos vermos um nos outros. O exemplo clássico é o nascimento dos patos que ao quebrarem a casca do ovo, instintivamente buscam sua mãe. Esta lhe servirá de reflexo e lhe garantirá a sobrevivência, pois, onde ela for o patinho a seguirá. Jacoby (1984) faz referência ao conceito de ressonância empática acerca do qual ele diz que

todos nós precisamos nos refletir para podermos nos reconhecer, e necessitamos de ressonância empática para nos sentirmos reais, aceitos e, conseqüentemente, importantes para outras pessoas e, por sua vez, para nós mesmos.(JACOBY, 1984, p.48)

Ao que parece, a confiança básica que nos sustentará pelos anos a frente parte do olhar acolhedor de quem cuida de nós na primeira infância, em especial a mãe e com o qual de identifica e percebe como parte de si mesma. Jacoby (2004) vai falar do “brilho no olho da mãe” que representa o primeiro reflexo que o bebê tem de si mesmo a partir da resposta da mãe à sua existência. A este respeito, o conceito de transferência especular se caracteriza pela necessidade de nos refletir em outro para que possamos nos sentir reais e nos reconhecer. Quando existe algum dano neste processo, é bem provável que o indivíduo manifeste uma falta de confiança básica que comprometa sua auto-estima. São pessoas que desenvolvem uma sensibilidade intensa à rejeição, podendo supercompensar com atitudes de autosuficiência e onipotência, sentimentos estes que Kohut irá associar ao “eu grandioso” e, portanto, a necessidade do encontro analítico pode estar associada ao abalo desta estratégia.

A atitude do terapeuta frente a transferência especular aponta para uma atitude de acolhimento, de compreensão e apreço, num primeiro momento. No transcurso do trabalho analítico o analista deve observar a ocasião em que seja importante sinalizar os equívocos da estratégia do paciente, em especial a partir dos sonhos que ele traz. Mas enquanto isto não ocorre, o papel do analista será o de refletir como num espelho as expectativas do paciente que enxerga o analista como parte do seu próprio eu, ou seja, a ressonância empática deverá ser constante. As intervenções do analista procurarão gradativamente reduzir a “[…] dependência no reflexo externo através de um sentimento ampliado de amor-próprio e, conseqüentemente, também de uma sensação aumentada de autonomia pessoal.” (JACOBY, 1984, p.54).

O analisando fantasia que o terapeuta pode aliviar seu sofrimento psíquico; no entanto, no decorrer dos diversos encontros o analisando percebe que os resultados obtidos derivam de seu esforço consciente assim como dos recursos do Self, que age no sentido colaborar com o desenvolvimento psíquico.

Quando tematizamos a questão da auto-estima, entendemos a transferência como um fenômeno importante na medida em que o analisando tende a reproduzir a sua relação com as imagos parentais na figura do analista, em particular a figura materna com a qual construiu seus primeiros vínculos. A percepção que o paciente tem do analista vai sendo modificada em função do complexo que está ativado na ocasião e, por conseguinte, a disponibilidade do analista é essencial. Esta abertura do analista para uma relação empática e sensível à psique do paciente encontra eco na afirmação de que

influir é sinônimo de ser afetado. De nada adianta ao médico esquivar-se à influência do paciente e envolver-se num halo de profissionalismo e autoridade paternais. Assim, ele apenas se priva de usar um dos órgãos cognitivos mais essenciais de que dispõe. (JUNG, 2004, p.68)

Isto é, os próprios sentimentos do analista podem oferecer possíveis interpretações sobre os processos inconscientes do paciente.

Quando existem danos a auto-estima do analisando, este demonstra sentimentos de vergonha e de desempoderamento. E para que o encontro analítico seja terapêutico é importante conquistar a confiança do analisando sendo sensível aos sentimentos da criança ferida. Mais uma vez, ressaltamos o papel do analista para esta finalidade ao considerarmos que

[…] o médico também “está em análise”, tanto quanto o paciente. Ele é parte integrante do processo psíquico do tratamento, tanto quanto este último, razão por que também está exposto às influências transformadoras. Na medida em que o médico se fecha a esta influência, ele também perde sua influência sobre o paciente. E, na medida em que essa influência é apenas inconsciente, abre-se uma lacuna em seu campo de consciência, que o impedirá de ver o paciente corretamente. Em ambos os casos, o resultado do tratamento está comprometido. (JUNG, 2004, p.69)

O acolhimento do terapeuta às feridas do paciente permite que os sentimentos de vergonha sejam gradativamente eliminados e que o paciente, então, entre em contato com estes conteúdos sombrios da infância e que novos padrões possam ser criativamente construídos a partir de uma nova compreensão. Tais transformações não ocorrem por um ato de vontade, mas são conduzidas pelo próprio Self. A tarefa do analista é ser um instrumento facilitador para que o processo psíquico possa ocorrer rumo à individuação.

Palavras-chaves. Poder. transferência, individuação, sombra, inconsciente.

REFERÊNCIAS

Jung, C.G. (2004) A Prática da Psicoterapia. Petropolis: Vozes.

Steinberg, W. (1990) Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana. São Paulo: Cultrix.

Jung, C.G. (2003) Fundamentos de Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes.

Jacoby, M. (1984) O Encontro Analítico. São Paulo: Cultrix.

Jacoby, M. (1994) Shame and the Origins of Self-esteem. London: Ed.Routledge.

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“Como trabalhar com sonhos na perspectiva junguiana?”

“Como trabalhar com sonhos na perspectiva junguiana?”

Por: Igor Fernandes

É uma dúvida recorrente. Afinal de contas, o que fazem os junguianos com os sonhos?

Tentaremos responder tendo em vista o modo como Jung trabalhava, suas diferenças em relação a Freud e apontaremos para o modelo de James Hillman como uma possibilidade viável.

Não há em toda obra de Jung um único volume dedicado exclusivamente aos sonhos e sua interpretação. Diferentemente de Freud e seus dois volumes de “A interpretação dos sonhos”, os artigos sobre sonhos de Jung estão espalhados por alguns livros das obras completas. Entretanto, isso não significa que este autor dava menos importância aos sonhos que o outro, pelo contrário, Jung apresentou nova abordagem para com os conteúdos oníricos. Essa nova maneira de lidar com os sonhos estava postulada em cima de uma perspectiva de finalidade em contraposição à maneira causal usada pela psicanálise. Mais adiante falaremos mais sobre estas perspectivas. Antes, gostaria de posicionar o interesse de Jung pelos sonhos sem muita demora.

Foi pela via do sonho que se deu o encontro e desencontro entre Jung e Freud. Não nos esqueçamos que foi através da leitura de “A interpretação dos sonhos” que Jung “conheceu” Freud. Ali estava escrita uma teoria que encontrava eco em suas pesquisas e o fascinava. E foi também através de um sonho seu em 1909 voltando da viagem que fizeram para os EUA para a comemoração dos vinte anos da Universidade Clark que Jung teve o sonho da casa de três pavimentos. Como se sabe, Jung apresenta o sonho a Freud e este interpreta redutivamente o mesmo deixando-o insatisfeito. Shamdasani citando Bennet escreve, “Jung achava a manipulação dos sonhos que Freud realizava um caso de sua tendência para fazer com que os fatos se encaixassem em sua teoria” (2005). Também foi nessa mesma viagem em que ele, Freud e Ferenczi analisavam os sonhos uns dos outros que Freud não quis arriscar sua autoridade negando detalhes de sua vida íntima para que Jung pudesse melhor analisar seu sonho. Jung sentenciaria em sua autobiografia, “Esta frase [Não posso arriscar a minha autoridade!] ficou gravada em minha memória. Prefigurava já, para mim, o fim iminente de nossas relações.” (1961, grifo meu).

A visão finalista do sonho que encontramos em Jung foi, na verdade, proposta por Theodor Flournoy. Este dizia que a teoria de Freud era “limitada demais” porque os sonhos não expressam somente desejos e sim tendências sem falar da não necessidade dos conteúdos dos mesmos estarem reprimidos. Após a morte de Flournoy, Jung diz que este o ajudou a ver “onde estavam as fraquezas de Freud”. Podemos ler de maneira bem mais completa esta história no livro de Sonu Shamdasani, “Jung e a construção da psicologia moderna” (2005).

Voltando às interpretações dos sonhos, nas obras completas podemos achar no volume VIII dois grandes artigos, que facilmente poderiam formar um pequeno volume sobre o tema, “Aspectos gerais da psicologia do sonho” e “Da essência dos sonhos”. É aqui que Jung começa a colocar sua perspectiva e mutuamente, vai distinguindo-a da perspectiva psicanalítica, além de nos apontar a importância de ficarmos atentos aos sonhos, pois esses possuem um “significado intrínseco próprio” que, em última análise, falam daquilo que está inconsciente para nós.

Jung propõe que, se o sonho é um produto psíquico como outro qualquer, então este não tem porque supormos que sua natureza e finalidade são diferentes dos outros conteúdos da psique. A partir disto, infere que devemos tratar os sonhos analiticamente “como qualquer outro produto psíquico” (1928). James Hillman mais tarde desenvolverá essa premissa propondo que todo material falado em análise possa ser ouvido como onírico, sem que haja distinção. Há aqui então, uma pequena inversão; se em Jung o sonho deve ser tratado como qualquer outro material psíquico, em Hillman, qualquer material psíquico deverá ser tratado como sonho. Mas é sem dúvida a partir da proposição de Jung que Hillman pode fazer o jogo de palavras que torna sua leitura da obra junguiana tão interessante.

A crítica de Jung à interpretação causal, é que ela somente levará em conta os conteúdos psíquicos que a precederam, ou seja, tudo aquilo que aparece em um sonho, por exemplo, em algum momento já passou pela consciência e está recalcado. A perspectiva causalista reduzirá os conteúdos psicológicos aos seus antecedentes e contenta-se com eles. Chega a nos dar um exemplo de um rapaz que vai por uma rua e, de repente vê uma criança que brinca à sua frente ser atropelada por um automóvel. A análise causal irá dizer que a rua é reconhecida como sendo uma rua em que passou na véspera do sonho, a criança é identificada como o filho do irmão que ele vira ao visitar no dia anterior e o acidente lembra-lhe um acidente descrito nos jornais em dias anteriores. Jung aqui lança mão da especificidade da imagem para criticar tal redutivismo:

O sonhador percorreu muitas ruas na véspera, e por que motivo seu sonho escolheu justamente esta rua? Leu notícias a respeito de numerosos acidente, e por que motivo escolheu este, de preferência a outros?

(JUNG, 1928, §453)

É interessante aqui fazer um parêntesis e notar que essa acabou sendo uma crítica feita pelos pós-junguianos a muitos junguianos da chamada escola clássica ou, contemporâneos de Jung e seus seguidores. Estes tomados por uma perspectiva excessivamente arquetipalista, acabaram cometendo o mesmo reducionismo criticado por Jung, só que ao invés de buscarem as causas no inconsciente pessoal, buscavam a imagem no inconsciente coletivo como se a qualidade de uma representação onírica em lugares distintos, pudesse ter o mesmo valor somente por se tratar de uma mesma representação dita arquetípica. Dessa maneira, ficaria sub-entendido que poderíamos separar o que é arquetípico e o que não é. Via de regra, o arquetípico, segundo esse grupo de junguianos, está sempre representado por motivos mitológicos, grandiosos, medievais, primitivos, figuras folclóricas, etc. Contudo, sob esse tipo de “análise” passa-se a dar muito mais valor aos objetos da imagem e não à imagem como um todo. É com se pegássemos a pintura da santa ceia e só pudéssemos enxergar Jesus nela. Esquecemos do restante do quadro que, como um todo, conta uma narrativa e só faz de Jesus a figura principal por estar ali com os outros elementos. Não fosse assim, poderia ser somente um homem barbado com roupas de época. Mais à frente falaremos sobre o trabalho com as imagens.

Voltando para a diferenciação das analises causalista e finalista, Jung nos explica que tal modelo de interpretação, o baseado nas causas, não pode ser cientificamente satisfatório tendo em vista que a não especificidade da imagem, ou seja, a atribuição unilateral e imediata de significado ao conteúdo é arbitrária, pois “só a influência de várias causas é capaz de dar uma determinação verossímil das imagens do sonho” (1928). Mas não é determinista nem irredutível e confirma:

Quando se trata de explicar um fato psicológico, é preciso não esquecer que todo fenômeno psicológico deve ser abordado sob um duplo ponto de vista, ou seja, do ponto de vista da causalidade e do ponto de vista da finalidade.

(JUNG, 1928, §456)

Por finalidade, Jung pretende “designar simplesmente a tensão psicológica imanente dirigida a um objetivo futuro” (idem). Seu ponto de vista para frente, não implica, como ele mesmo ressalta, uma negação das causas de um sonho, mas trata de abordá-lo de maneira diferente. Ao invés do por quê?, usamos o para quê? Lembrando que estas questões podem ser aplicadas a qualquer material psíquico.

Jung, diferentemente de Freud (ainda que em 1911 tenha dito o contrário na primeira versão de Metamorfoses e símbolos da libido por proximidade a este último), não acha que o sonho tenta esconder seu significado nas imagens que produz. Para ele, o sonho é a maneira mais clara que o inconsciente achou para passar a sua mensagem. Elie Humbert nos lembra que “o inconsciente permanece ‘inconsciente’ e é preciso abordar cada sonho de maneira a aprender algo com ele, e não para encontrar uma confirmação do que já se sabe” (1985).

Para mim, os sonhos são natureza, que não contém a menor intenção enganosa e diz o que tem a dizer da melhor maneira possível – como uma planta que cresce ou um animal que busca alimento. (Humbert apud JUNG, 1985, pág. 26)

Apesar de reconhecer os jogos de deslocamento, condensação e figuração dos sonhos, não os atribui como atos de censura. Jung atribui esses jogos à polissemia da imagem. A ação onírica, diz Humbert, seria a encenação dos dinamismos inconscientes e permitiriam conhecer a natureza e interação no tempo do sonho (idem).

Se não nos preocuparmos com o que o sonho tenta nos dizer, o máximo que conseguiremos é chegar a um complexo e para tanto, nem mesmo de um sonho precisamos. Jung conta que até com um aviso municipal e uma inscrição em russo já conseguiu esse mesmo efeito.

Para podermos tornar digeríveis alguns conteúdos oníricos, Jung sugere a amplificação. De modo geral, esta técnica foi proposta por ele para lidar com os conteúdos do inconsciente coletivo. A despeito da discussão já aqui explicitada do saber a priori que conteúdo é do inconsciente coletivo e que conteúdo não é, a amplificação deverá ser utilizada de maneira criteriosa e tomando muito cuidado para que ela não vire uma demonstração da erudição do analista ou mesmo uma fuga contratransferencial às questões surgidas entre analista e analisando.

E no que consiste a amplificação?

Segundo o Léxico dos conceitos junguianos fundamentais, de Helmut Hark, a

Amplificação é a extensão do conteúdo do sonho por meio do enriquecimento e da complementação das imagens oníricas com símbolos oriundos dos contos de fadas, dos mitos, da religião, da arte e de todas as tradições culturais da humanidade (Hark, 1988, pág. 13)

Hark reforça que enquanto as associações nos servem para a “trama” dos conteúdos pessoais, a amplificação estaria da mesma maneira para os conteúdos coletivos (idem). É bem verdade que o material escolhido para a amplificação deve ser algo que faça parte do mundo em que o paciente vive, ou seja, algo de sua cultura, que o mesmo reconheça, que faça sentido. Não adiantaria amplificar um sonho sobre um gato, por exemplo, de um paciente do Rio de Janeiro com o significado que o gato tem na cultura das Ilhas Fiji. A não ser que o paciente esteja “sintonizado” com essa cultura de alguma maneira. Voltamos à peculiaridade da imagem a qual anteriormente falamos. Se mesmo entre os cariocas o gato pode ter múltiplos significados (bichinho fofinho, ágil, esperto, simpático ou esnobe, sujo ou extremamente limpo, sagrado ou profano, etc.), imagine que disparidade de significados poderá haver com os cidadãos das Ilhas Fiji. E esse gato, é arquetípico ou não? Se não for, não amplifico? E se for, é um dever amplificar?

O trabalho com os sonhos, assim como com qualquer outro material proveniente da psique humana, exige mais sensibilidade do que regras. Isso não quer dizer que não hajam técnicas, mas enquadrá-las em um passo a passo ou numa cartilha infalível pode ser o início de uma análise mal sucedida. Se, como diz Roland Barthes, “o mito é uma linguagem” (1968), então não podemos “aceitar a mistificação que transforma [somente] a cultura pequeno-burguesa em natureza universal” (idem, grifo meu). Sendo assim, o mito pessoal de cada um pode passar pela novela das oito, pelo BBB e também pelos livros de mitologia clássica. Todas essas narrativas irão contar com as estruturas universais atuando em seus domínios, no entanto, as imagens que a elas servirão, dirão mais respeito a uma cultura ou à outra. Caso assim não possamos considerar, cairemos no (infelizmente) ordinário erro de transformar símbolos em signos dando a estes, significados estáticos e não mutáveis.

“Por esse motivo, sempre disse a meus alunos: ‘Aprendam tanto quanto vocês puderem sobre simbologia, mas esqueçam de tudo quando estiverem analisando um sonho’. Fiz desse conselho, de grande importância para a prática, uma regra para mim mesmo”. (Hark apud JUNG, 1988, pág. 77)

Podendo olhar qualquer imagem como arquetípica, como propões James Hillman, transformando o arquétipo de substantivo para adjetivo, podemos então amplificá-la sim. Não porque transformamos conteúdos pessoais em arquetípicos, mas porque essa delimitação do campo, como nos acostumamos a ver nos livros os modelos desenhados para a psique, passe a ser somente didática. Na prática, esses conteúdos estão misturados e discernir sua natureza talvez seja o que menos interesse para o tratamento do paciente. Portanto, a amplificação é um recurso que recorre às semelhanças entre narrativas. Elie Humbert nos revela que já os mais antigos onirocritas se utilizavam deste método (1985). Assim já dizia Jung, “Os símbolos do sonho são de natureza essencialmente individual”. A amplificação é uma técnica que “não busca fornecer significados mas tornar o sonhador sensível ao que se passa nele”, arremata Humbert (1985).

Mas ouvir um sonho não significa amplificar. Não é um dever sair amplificando todo e qualquer material psíquico. É uma técnica interessante, mas “interpretar” sonhos não depende exclusivamente dela. O excesso de amplificação pode fazer com que analista e paciente percam de vista o objetivo da mesma e isso fará com que a hipótese de resistência a esse material deva ser seriamente considerada.

Há uma outra técnica tão importante quanto a amplificação no trato com as imagens, a circo-ambulação. Curiosamente esse método está quase que em oposição à interpretação. Circo-ambular é girar ao redor da imagem; poder olhá-la sob os mais diversificados ângulos; ter as mais variadas perspectivas da mesma; desdobrá-la no maior número de possíveis significações. Esse método nos livra da matança do símbolo. Se de antemão já soubermos o que uma imagem significa (por exemplo, se uma mulher sensual no sonho já significar anima logo de cara, ou uma figura negra e suspeita for sombra sem questionamentos), matamos a possibilidade desse símbolo “falar” o que gostaria. Pior, matamos a possibilidade do paciente dizer o que pensa do mesmo; antes dele, nós já demos a resposta. É uma astúcia e tanto!

Uma outra questão para qual Jung chamará a atenção é para a função compensatória dos sonhos. Diz ele, “os sonhos, afirmo eu, comportam-se como compensações da situação da consciência em determinado momento” (1928). A importância de atentarmos a essa função do sonho fica explícita como mais uma maneira do sonho tentar chamar nossa atenção para o que acontece na vigília. O sonho de Jung da paciente que ele achava intelectualmente inferior a ele o alertou através da compensação que sua atitude poderia atrapalhar a análise dessa paciente. Jung sonha com essa paciente gigante e ele bem pequenino ao seu lado.  Obviamente, só podemos tomar todas essas funções do sonho e algumas outras não descritas nessa trabalho se tomarmos a perspectiva finalista do sonho.

Os sonhos e o trabalho com as imagens compõem na obra de Jung e de seus seguidores, papel principal. Não é por conta disso que devemos forçar nossos pacientes a trazerem sonhos toda sessão ou mesmo perguntar se trouxeram algum sonho para àquela sessão. Mesmo seguindo os passos de Jung, encontraremos em suas Memórias sua posição quanto ao material trazido pelos pacientes à análise na época em que estava mais confuso, no seu “confronto com o inconsciente” (1961). Jung admite que buscava uma nova atitude para com seus pacientes e então, deixava-os trazer espontaneamente seus sonhos e fantasias. E assim devemos manter essa atitude, confiando em nossos pacientes.

Referências bibliográficas:

Barthes, Roland (1968). Mitologias. Rio de Janeiro: Difel [2003].

Hark, Helmut (1988). Léxico dos conceitos junguianos fundamentais. São Paulo: Loyola [2000].

Hillman, James (1983). Entre Vistas. São Paulo: Summus [1989].

Humbert, Elie G. (1983). Jung. São Paulo: Summus [1985].

Jung, C. G. (1961). Memória, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira [22ª Ed. 2003].

_________ (1928). Aspectos gerais da psicologia do sonho. In: A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes [6ª Ed. 2003].

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Sobre o amor mais uma vez, nada de novo…e por isso novamente.

Sobre o amor

mais uma vez, nada de novo…e por isso novamente.

Por: Thiago Bruno Santos

Herodes,

…Que desejas, Salomé?

Salomé,

A cabeça de Iokanaan

(Pág 63 WILDE, Oscar. Salomé, Ed. Imago)

“O melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.” pág 86. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Ed Rocco

Ao perder seu medo da chuva Raul cantava: “Porque quando jurei meu amor eu trai a mim mesmo, hoje eu sei…que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez”. É justamente cantando naquilo que o amor oferece como promessa (“em suas juras”) que se escuta o lamento da traição de si. A melodia da perda que canta em Raul implica a redescoberta de um impossível de se encontrar no amor. Atentemos à proposta do amor, temos que o esforço do amor é de 2 fazer 1, tentativa que não com menos frequência que outras nos leva ao fracasso. Quase num projeto fusional entre eu-outro, de uma relação imaginária especular mais nem por isso menos real. O amor propõe o impossível. Que eu me torne tão transparante ao outro, ao ponto de deixarmos de saber de um e do outro (e dos outros). No amor implica um deixar de saber, um querer-se no engano, doar a verdade de si de modo que se esforce por poupar o outro da mesma verdade que se tenta lhe dar. É no amor que cada um arrisca-se no quanto de verdade pode suportar! Mas como toda promessa, promete um futuro que se adia infinitamente…por tentar se adiantar ao que é próprio a sua falha. Falha por atrasar-se. Pois é próprio da promessa não doar garantias. A promessa no amor funciona tanto como juras de adiar ou retardar o impossível de conjugar, como condição para manter o sonho sonhando naqueles que amam (lembrando que continuar sonhando o sonho acordado é tomado por Jung como mais importante que sua interpretação). Porém, não se promete o impossível a menos que esse seja o único possível na promessa. Não, não é proibido prometer, mas assegurados e agradecidos estamos de que a promessa não será mantida, mesmo que se a renove a cada dia. Por isso que não…prometer não o impossível, mas arriscá-lo!

O apagamento da distância entre um e outro, não se deixa de notar ao dizer-se que “separação” é algo que acontece após o término de uma relação amorosa. Separação aparece como efeito de um corte, e amor enquanto tentativa de apagar toda e qualquer divisão. Separar assim, é dividir em dois novamente o que era um. Momento em  que cada um se depara com sua falta. Já neste dizer se atualiza o impossível da relação sexual, posto que este não parece fazer parte do projeto no e do amor. Separados estamos todos desde já e para todo sempre, é por não haver fórmula, harmonia e nem complementaridade entre os sexos que podemos inventar, ou deixar tudo como encontramos. A questão que importa é: a que serve o impossível e como se servir dele?! Ninguém diz que se separa no sexo pois já se sabe separado, em seu gozo cada um é solitário. Porém, menos sorte tem quem confunde o gozo sexual com orgasmo. Se assim fosse, bastaria as mulheres comprarem vibradores, dizia Calligaris. Ele também coloca que, se metaforicamente o sexo despedaça o corpo, o amor o reconstitue. E que na fantasia sexual não pode colocar o respeito do outro como regra. No comum do dizer seria preciso substituir “Tamo junto misturado!” por “Tamo junto e separado!”. Atendi recentemente um adolescente com uma questão sobre as garotas que ele paquerava, ele dizia sentir dificuldades em conseguir “chegar” nelas. Dizia a elas que queria sexo, e elas sem mais lhe recusavam, não entendia o porquê e sequer estranhava sua abordagem. A crua franqueza de seu pedido as mulheres, lhe mostrava as modulações nos jogos eróticos entre os sexos. E uma vez convidado a ação exigida pela causa de seu desejo ele escolhe recuar, diz ser muito trabalhoso e difícil sair com as meninas e sentindo mais facilidade em sair com homens ele assim o faz. Sua procura pelo mais fácil (opção está pela lei do menor esforço), o menos trabalhoso não o deixa de incomodar, pois sente falta de sair com mulheres.

A exigência de infidelidade a seu desejo no projeto ideal do amor também não é sem consequências para os envolvidos. Atente-se aos ditos “crimes passionais”, onde na cena tem-se um que por se atrever a trair ao desejo de fidelidade do outro acaba sendo assassinado pelo parceiro. O crime se desloca do ato criminoso para a conduta “transgressiva” do falecido, já que seu crime é ser fiel a seu desejo e assim trair o desejo do parceiro. A lógica do ato de justiça é a reivindicação de vingança na justa medida por saber que há este outro que goza de algo do qual me privo por ele. Aquele que se priva de seu desejo indaga como o outro se atreve a ser fiel a seu desejo, e com isso ter a coragem de traí-lo. Pois assim se vê traído no amor pelo desejo! Parceiros de um ideal de amor, podem se tornar cúmplices do mesmo crime do assassinato do desejo do outro, no esforço de cumprir o dever de exigir do outro o que não se pode dar…É possível estar em parceria no amor, sem haver parceiros de um amor? Talvez não seja o caso de ser ou se render à vontade de um ou de outro, como um acordo entre ciúmes. Antes trata-se, de se for para se render, só se for a vontade. A importância do ciúme segundo Hillman é fazer com que se fique terrivelmente consciente do terceiro.

O que se escuta no jogo do amor nesses termos não passaria longe do que Cazuza já cantava: “O teu amor é uma mentira, que a minha vaidade quer”. Seria então, um pedido de engano que se trata no amor? Um faz um pedido ao outro: Se tu me amas de verdade, só te peço que saibas bem como bem me enganar! E o outro lhe responde: Sabes bem que serás enganado, aceitas este engano?! Na esteira do engano, nesta potência do falso com diz Deleuze, ele recolhe e dá testemunhos da positividade no amor. Comentando seu caso de amor com Guatarri na montagem de sua obra conjunta, ele afirma que um era o falsário do outro, seu amor consistia em um falsificar o outro. Era enquanto efeito e condição para esse amor acontecer, um falsificar o que o outro dizia. Deleuze quer dizer com isso, que cada um compreendia à sua maneira a noção proposta pelo outro.

O que se escuta é condicionado pelos ouvidos que se pode ter. Parece ser preciso forçar-se à escuta por um novo ouvido…Niezstche “comenta” em algum lugar de seus lugares, sobre a hipertrofia de uma orelha. Zaratustra se encontra com a tal orelha, ela tinha o tamanho de um homem e pendurado nela havia o corpinho de um homem todo esmilinguido. Temos aí uma orelha uniliteral e sua secreção pendurada como um resto que excede a seu conjunto!

É neste excesso de corpo que recolho uma escuta possível, pois é na busca que cada um faz em sua vida (individuação se prefirirem) que o que se encontra sempre parece estar em falta. Aquém do encontro só há o além do que se busca! Noção aparentemente negativa, mas que dá o tom de positividade ao desejo. Pois é no que excede ao que encontro que percebo minha falta, e não se ama alguém pelo que ele tem mas pelo que lhe falta. Se encontrássemos o objeto que nos totalizasse, morreríamos de tédio ou enlouqueceríamos. Bem,…como não se vê muitas reivindicações de quem já se completou por aí, fica difícil saber bem como é! Talvez não seja prudente reivindicar algo que ninguém realmente parece possuir.

O amor coloca-nos diante daquilo que o outro não sabe sobre si, a causa do desejo é efeito do retorno do amor que ele me causa. Assim sendo, o amor diz respeito a mais de um, mesmo que não se saiba o que de si produz atração no outro, mantendo a fórmula de que 1+1 nunca solucionam-se em 1. Zizek nos dá um bom exemplo da relação com o objeto causa do desejo no caso da melancolia. Contrapondo-se a idéia que aproxima a melancolia de uma incapacidade do sujeito de realizar o trabalho de luto sobre o objeto perdido, encontrando-se fixado nele; Zizek parte dando nova luz a tese de Freud, sobre o sujeito que não tem consciência do que perdeu no objeto, passa a dizer que o melancólico é aquele possui o objeto mas perdeu a causa de seu desejo por ele. O objeto não possui mais aquilo que lhe causa desejo, a causa que o fazia desejar perdeu sua eficácia apesar da posse do objeto, ou exatamente por possuí-lo. Sem a condição necessária para que se deseje o que parte do desejo, com o que se haveria cada um? Enfim, não é na posse do objeto que nos asseguramos de nosso desejo!

Spinoza se coloca na questão quando pode estar altura de responde-lá, afirmando que não é afastando a tristeza que se alcança a alegria (beatitude), mas por encontrar-se em alegria (beatitude). Sua pesquisa consiste em tentar compreender pela causa (pelos modos de afetar e ser afetado), e permite montar esboços de questões como: Não é no esforço de afastar o ódio que se ama, nem no esforço de se obrigar a amar, mas sim amando que nos vemos impossibilitados de não amar! Segue dizendo que não desejamos uma coisa por ela ser boa, bela e verdadeira, mas pelo fato de desejarmos, por nos esforçarmos, por tendermos para qualquer coisa que seja a tornamos boa, bela e verdadeira. A verdade então funciona como norma de si mesma e do falso, a tonalidade desejante dá o tom de vida aos objetos, por encontrar nos objetos com a causa de desejo. Por estar em posse do desejo que aumentamos a nossa potência de agir, esforço este que se esforça por perseverar (conatus).

O estado do ser em alegria foi batizado como mania e conhecida como loucura, posto que o dito “sujeito maníaco” aparentava e dizia tudo poder. Acompanho Foucault ao afirmar que era e ainda é no discurso que a loucura era identificada, reconhecida e separada. Este estado alegre (ou potente) em Spinoza pode ser uma tristeza quando na própria intensidade do estado alegre-eufórico-maniáco estamos constrangidos a não mais agir, quando não podemos ser afetados e/ou afetar. É aí que alegria coincide com diminuição de nossa potência para agir e tristeza como aquilo que aumenta nossa potência para agir. Apaixonado é o corpo que pensa ter a causa de sua ação num objeto exterior a si, movimento que distingue-se propriamente da ação que parte do que pode corpo sobre o mundo. Enquanto é possível se aproximar ou se afastar do objeto de desejo, o sujeito desejante sempre se encontra a mesma distância de sua causa de desejo. Novamente, não importa a proximidade do objeto de desejo, sua causa se encontra no mesmo lugar.

Não é no dever de afastar a tristeza a todo custo, ou na tentativa de se conservar alegre ou amando quando não se está, mas por estarmos em posse de nossa potência-corpo-desejo que nos ocupamos com o que podemos. Amor é a idéia de um objeto que me cause alegria implicando em aumento de potência para agir, e a mente é uma idéia do corpo…..a busca de Spinoza tangencia indagar o que pode o corpo, e agora podemos fazer ele nos perguntar como afetar o corpo de modo a produzir outras ideias e consequentemente outros modos de amar. Medo e esperança são primos de todas as datas que ainda estão por chegar, contemporâneos de todos os espaços e corpos possíveis. É numa alegria serena, na intensidade de uma calma que percebo a Ética de Spinoza. É na inadequação em adaptá-lo ao que tento propõr (se é que proponho alguma coisa!), que tento falsificá-lo fazendo-o dizer o que nunca falou, que: Não são flores e um bom capuccino que fazem do bom amor o melhor. Que fazem algo de bom do amor, ou que fazem do amor do bom um Bem. Mas, não pode-se fazer bem e do bom, um capuccino…sem amor.

Parece que é no amor, no impossível de dizê-lo e de harmonizá-lo que podemos nos sentir livres para (re)inventá-lo, ou deixá-lo quieto no seu lugar. O amor propõe o impossível, mas é por sua impossibilidade que se ama o amor! “Por fim amamos o próprio desejo, e não o desejado.” (NIEZSTCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Pág 83).

Hillman se pergunta o que nos puxa para nossos problemas, o que os torna tão atraentes? E conclui dizendo que “Há um amor secreto escondido em cada problema…”

(HILLMAN, James. Entre-vistas. Pág 192.). Nessa perspectiva as patologias são formas de amar, modos de penetrar no amor e de que a própria patologia nos ama. Mais uma vez Hillman, coloca que a psicanálise tem limitado o amor ao que acontece entre duas pessoas e se percebe incapaz de ver através de outras formas de amar. O próprio Niezstche afirma que é no amor que as pessoas têm mais probabilidade de ver as coisas como elas não são. O que ama a psicanálise no amor? Sua impossibilidade a dois! Para a psicanálise, é na impossibilidade do encontro que mais podemos nos encontrar.

Niezstche tentava por fazer “justiça” sem vingar-se de seu objeto de amor, quando afirmava ser necessário criá-lo. Falava também que todo amor ama aquilo que um dia desprezou e tenta “ensinar” através deste amor. Entendo que fazer justiça ao amor é reinventá-lo de onde quer que se parta. Por ser um momento improdutivo tão inútil quanto um sonho bom, não por ser o verdadeiro, “O Verdadeiro Amor”. Mas é por errar em seu trânsito, endereçar-se no erro que se arrisca tanto no amor…pois só no endereço errado é que se ama! Como já havia dito no amor não se promete nada, mas através dele se arrisca o impossível.

Enfim, de tudo isso podemos dizer que sobra um resto, um ponto desde já em fuga no que se encontra, que excede por “subtração” naquilo que se procura. Ou seja, há algo de fugidio no encontro, que aparenta sempre adiar-se para uma próxima vez…Pois, o que sei saber de minha busca no que acabo de encontrar quando encontro justamente o que não deixo de buscar!?

Por fim, é neste algo que sobra do que resta que mais me diz respeito. Há no que excede do que se encontra a possibilidade de se encontrar naquilo que se busca…trata-se de saber servir-se do encontro. Afinal, o que sei de minha busca senão pelo que deixo de encontrar!

Bibliografia:

LISPECTOR, Clarice. 2008. A hora da estrela. Ed Rocco.

NIEZSTCHE, Friedrich. 1998. Para além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. 2º edição. Ed. Companhia das letras.

WILDE, Oscar. 1993. Salomé, Ed. Imago.

HILLMAN, James. 1989. Entre-vistas. Summus editorial.

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O ARQUÉTIPO FRATERNO: Por uma relação mais horizontal

O ARQUÉTIPO FRATERNO: Por uma relação mais horizontal.

Por: Rodrigo de Vasconcellos Pieri

“Uma história tão antiga quanto à bíblia, Caim e Abel. Ódio… vaidade misture isso com bebida e tem dois irmãos que não se falam há dez anos. O motivo da nossa desavença já não importa mais. Eu quero sentar com ele, olhar para as estrelas, exatamente como fazíamos muito tempo atrás.”

São com essas palavras que Alvin Straight, um ancião com problemas na vista e que necessita do apoio de dois andadores – pois seus quadris também já sofrem com os anos vividos – numa espécie de confessionário resume a sua historia. A sua real história ou melhor, dizendo a sua “História Real”, diante de um Padre que encontra em um cemitério tarde da noite, aquecido por uma fogueira, após atravessar dois estados Norte Americano, dirigindo um cortador de grama, com data de fabricação de 1966.

Visitar seu irmão que sofre de um grave derrame e o qual, como podemos constatar na frase supracitada, ele não fala há dez anos, é o seu objetivo final. Mas essa é apenas mais uma cena desta “Obra prima de David Lynch” SIC CBS baseada em fatos reais.

História Real, que em inglês recebe o nome de Straight Story e rendeu ao seu diretor a indicação do Oscar no ano de 2002, nos diz muito mais do que a história desses dois irmãos. Fala sobre compaixão, solidariedade, superação e vaidade, ou seja, sobre características presentes em qualquer relação fraterna.

Voltando a frase, podemos perceber que o tema central do filme na verdade é mais antigo do que a própria bíblia. Podemos dizer, porque não? Tratar-se de uma figura arquetípica. Um arquétipo, que por sua vez, não podemos demarcar um período de surgimento, pois a sua origem é tão obscura, quanto a sua natureza inescrutável.

Arquétipo, segundo Carl Gustav Jung, são os conteúdos do inconsciente coletivo, o mesmo como:

“(…) conteúdos e modos de comportamento, os quais são ‘cum grano salis’ os mesmo em toda parte e em todos os seres humanos, constituindo, portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica supra pessoal que existe em cada indivíduo.” (Jung, CW Vol. IX/I pág. 15.).

Ou ainda como

“(…) Os arquétipos são, de acordo com sua definição, fatores e motivos que coordenam elementos psíquicos no sentido de determinadas imagens (que devem ser denominadas arquetípicas) e isso sempre de maneira que só é reconhecível pelo efeito. Eles existem pré – conscientemente e formam provavelmente as dominantes estruturas da psique em si (…) Como condição a priori, os arquétipos representam o caso psíquico especial – tão familiar ao biológico – do padrão de comportamento que confere a todos os seres vivos e a sua índole específica. Assim como as manifestações desse plano biológico fundamental podem mudar, no curso do desenvolvimento, assim também as do arquétipo. Visto, no entanto, de maneira empírica, o arquétipo jamais nasce dentro da esfera da vida orgânica; ele surge com a vida (…)” (Jung, 1948, p. 374).

Jung sempre utilizou a mitologia – histórias que contam o surgimento da humanidade – para exemplificar as imagens arquetípicas. Aqui, nesse trabalho com pretensões junguianas, não poderia ser diferente. Histórias desta natureza, que remetem a irmãos e suas relações podem ser encontradas não só na bíblia, como sugere Alvin, mas também na mitologia romana com Remo e Rômulo, na mitologia grega com Apolo e Ártemis e mitologia africana com Exu e Ogum, entre tantos outros; como, por exemplo, no filme de produção nacional “Era uma Vez” (2008) e a relação de Dé e Carlão. Neste caso temos uma figura arquetípica emprestando-se como ilustração para uma realidade mais atual, uma outra espécie de história real.

O que todas essas histórias têm em comum? Simples, apesar de cada uma ter tido o seu desfecho, todas partem da mesma premissa, da mesma base, das profundezas do inconsciente coletivo. Termo o qual, Jung utilizou para definir as camadas mais profundas do inconsciente, uma camada comum a todos os homens, uma camada onde estariam as “formas” arquetípicas, esperando para serem preenchidas por afetos e imagens.

Aqui Jung rompeu definitivamente o laço teórico com Psicanálise de Sigmund Freud deixando surgir a Psicologia Analítica, enquanto Freud estudava o ser humano a partir de sua relação com o mundo e suas projeções recalcadas, Jung percebe que além das vivências individuais, há também algo que transita por todas as psiques humanas, que podem ser percebidas e encontradas em todas as civilizações em formas de lendas, contos, mitos, estruturas e até mesmo comportamentos.

Citando Gustavo Barcellos como no texto: Notas Sobre a Função Fraternal, onde ele analise as relações entre irmãos, como um exemplo de relação arquetípica, podemos entender um pouco mais sobre o arquétipo fraterno, e sua importância “(…) o relacionamento com o irmão constrói a fundação emocional para outros relacionamentos horizontais de intimidade que estabelecemos na vida adulta (…). É com eles que aprendemos a nos relacionar”.

Faço agora então um convite para que possamos retomar o motivo inicial desta discussão e acompanhar Alvin Straight em seu cortador de grama. Para aprendermos assim um pouco mais como as brincadeiras e fantasias de dois irmãos quando crianças podem prepará-los para os futuros encontros e relacionamentos horizontais.

Quem sabe se dessa forma não deixamos de lado, por hora, a estrutura familiar vertical, Pai – Mãe – Filho que aprendemos com Sigmund Freud, e seu Complexo de Édipo e não começamos a credibilizar uma estrutura horizontal, fundada na solidariedade, como indica o psicanalista Joel Birman “(…) a solidariedade é a conseqüência imediata da ética do laço fraterno. A solidariedade entre as pessoas é o que se manifesta no registro tangível das relações humanas como o desdobramento da fraternidade.” (Kehl, Função Fraterna, pág. 185/186).

Friso por hora, pois não seria inocente o suficiente de achar que a relação fraterna com sua horizontalidade pode substituir a função paterna e sua verticalidade. Mas proponho sim que a estrutura desejante do indivíduo possa ser construída tanto por uma quanto pela outra.

Segundo a psicanalista Maria Rita Kehl, em seu texto “Existe uma Função Fraterna?”, “A função fraterna não substitui a função paterna, que opera para fundar o sujeito – no sentido do sujeito do desejo inconsciente”.

Para narrar o filme, e exemplificar o que viemos falando até aqui – Arquétipo; Função fraterna; Relação horizontal – utilizarei dos encontros que o nosso protagonista vivenciou durante a sua jornada.

Após uma primeira tentativa frustrada, Alvin, a contra gosto de sua filha Rose, (com quem tem uma relação horizontal, de um cuidar do outro, de dois corpos e mentes frágeis que se estruturam com o amor mútuo), volta à estrada deixando para trás uma cidade pacata e que representa a distância, as mágoas e as feridas, entre ele e seu irmão, que já não fazem mais sentido.

Em seu primeiro encontro estava ele solitário, de frente a eterna companheira noturna, a fogueira, quando vem em sua direção uma menina, com aspectos joviais (e a qual ele já havia passado na estrada pedindo carona, mas infelizmente em seu cortador de grama só havia espaço para um tripulante). Alvin, percebendo a decepção da menina por não ter conseguido carona oferece a sua companhia, um cobertor e comida, divide o pouco de salsicha que possui para o resto da viagem. Temos aqui um exemplo de solidariedade, de doação que se confunde até com a imagem de cristo, quando esse divide o pão entre seus irmãos (mas desta figura simbólica falaremos mais tarde).

Alvin e a menina passam à noite conversando sobre família. Ele, viúvo desde 1981, diz ter engravidado sua esposa quatorze vezes, mas apenas sete sobreviveram.

Ela revela estar fugindo de casa, pois esta grávida de cinco meses. Fugiu antes mesmo de contar a sua família com medo de ser odiada, de ser rejeitada.

Agora no papel do velho sábio, figura que foi ressuscitada com os pós junguianos e representa a figura do conselheiro, daquele que tem a luz do conhecimento, daquele que já viu e viveu o suficiente para poder ensinar o próximo, (outro exemplo é o mago Merlin ou então Gandalf do filme O Senhor dos Anéis). Alvin no intuito de ajudar a menina a perceber que a fuga não era a melhor solução e de que o laço familiar é forte e seguro, quando bem amarrado, utiliza da metáfora que utilizou para educar seus filhos, de que quando a família esta unida por um “feixe” nada consegue destruí-la.

Na manhã seguinte ele segue sua jornada e ela volta para sua família.

Após ter que se proteger da chuva em uma velha casa abandonada, ter passado a noite em um acampamento de ciclistas amadores nosso companheiro de viagem (que quase sofreu um acidente por um declive acentuado) vê-se obrigado a dar uma pausa em sua jornada, pois seu cortador de grama necessitava de reparos. Por sorte foi acolhido pela solidária família Riordan e desse encontro novas relações fraternas foram construídas.

A família Riordan permitiu que Alvin acampasse em seu quintal, deixou que usasse o telefone e chamou os mecânicos para que ele pudesse seguir seu destino.

Das relações estabelecidas nessa parada irei destacar somente duas.

A primeira a ser comentada é com um senhor da sua idade, chamado Verlyn, a quem podemos considerá-lo um irmão de guerra. Já que ambos lutaram na Segunda Guerra Mundial e voltaram perseguidos por fantasmas e lembranças difíceis de desfazer. Porém, encontrando um desconhecido que também vivenciou os horrores da guerra, puderam re-visitar esse passado sombrio e de igual para igual, confessar fatos que estavam submersos na memória. Mesmo se tratando de lembranças e confissões delicadas, talvez por terem certeza que falavam do mesmo lugar ou no mínimo de lugares semelhantes e que seriam ouvidos sem julgamentos, Alvin e Verlyn, puderam retornar aos campos de batalhas e, com olhos banhados de emoção, puderam elaborar, dialogar e assimilar os afetos que esses fatos e suas memórias carregavam. Sem dúvida um dos encontros mais emocionantes dessa incrível jornada.

Julgo que esse encontro possa servir de ilustração para a proposta de Gustavo Barcellos no texto já citado “(…) gostaria de imaginar a análise não mais como um esforço no sentido de completar o trabalho de pai e mãe, e sim como um trabalho que pretende constelar as transferências horizontais da fraternidade. Isso também significa sofisticar as noções da ‘semelhança na diferença’ nos laços sociais e político.” Ousaria complementar seu pensamento, não só concordando, mas também acrescentando que os analisados só se sentem seguros e confiantes quando encontram em sua análise um terapeuta que não se coloca como o senhor da palavra, o possuidor da sabedoria, construindo assim uma relação hierárquica, mas sim pelo contrário, a partir da humildade, possibilita um espaço de aprendizagem e construção mutua.

Acredito que a posição de saber só deva ser ocupada pelo analista pela visão do analisando, quando este o coloca assim. Acrescento que nestes casos a função do terapeuta é entender o porquê dessa transferência do paciente e assim trabalha-la. Sempre com muito cuidado para não ocupar tal posição, que sem dúvida é uma armadilha muito sedutora e convidativa.  um terapeuta que se coloca como o senhor da palavra, construindo assim uma relam por mostrar quem dominava mais o assunto, que

O exemplo de fraternidade que se segue, Alvin apenas assistiu de forma passiva. Para concertar seu cortador de grama os irmãos (gêmeos) Olsen foram chamados. Durante todo o trabalho ambos pareciam duelar em um campo de gladiadores, brigavam por mostrar quem dominava mais o assunto, quem liderava a manutenção, quem estava por cima de quem nessa família.

Alvin, ainda re-visitando o papel de velho sábio, mas se desfazendo cada vez mais dele, ao agradecer pelo trabalho e após ter demonstrado que os irmãos perdiam muito tempo durante a manutenção, conta o porquê de sua viagem e diz “Ninguém nos conhece melhor do que um irmão de nossa idade. Ele sabe quem e o que somos melhor do que ninguém. (…) Irmão é irmão.”.

É em seu penúltimo encontro que temos a frase citada no início desse trabalho. Talvez, não por acaso, a última pessoa que nosso personagem conhece antes de estar com seu irmão foi um padre. Digo isso, pois o padre é um símbolo de uma das culturas mais poderosa na história da humanidade e que é sustentada pelo paradoxo que estamos discutindo aqui.

A igreja, ao mesmo tempo em que, traz a imagem de um dos homens mais solidário de todos os tempos, que prega a igualdade e a horizontalidade entre as relações humanas, ela é fundamentada em uma doutrina rígida e hierárquica. Onde estamos todos sob o olhar e o julgamento de um mesmo Pai. E ai daquele que não cumprir as “ordens”, os mandamentos deste pai.

Por fim, após cumprir o que propôs a si mesmo “Estou engolindo meu orgulho com essa viagem, mas só espero que não seja tarde demais.” Só resta a Alvin ir ao encontro do seu irmão, que o aguardava, sentar ao seu lado na varanda da casa e silenciar-se.

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FAZENDO AS PAZES COM O TEMPO: O IMEDIATISMO COMO SOMBRA NO ENCONTRO ANALÍTICO

FAZENDO AS PAZES COM O TEMPO: O IMEDIATISMO COMO SOMBRA NO ENCONTRO ANALÍTICO[1]

Por: Wagner de Menezes Vaz[2]

Trabalho apresentado no III Encontro dos Junguianos Nômades em junho de 2009 – Belo Horizonte – MG


RESUMO: O mundo atual, em sua dinâmica por respostas rápidas, imprime sua marca no comportamento das pessoas. O sucesso é entendido como a capacidade de reagir prontamente a uma demanda e produzir resultados de forma rápida e eficiente. No trabalho analítico este atravessamento é demonstrado pelas atitudes tanto do terapeuta quanto do paciente. Este ensaio faz um breve estudo sobre como o imediatismo exigido nas relações com as pessoas pode interferir no trabalho analítico; e também, como o erro ou o fracasso se constelam a partir do momento em que as expectativas por resultados clínicos não se realizam. Assim, foram feitas algumas reflexões sobre o trabalho clínico e sua relação com o fracasso e propomos, ao final, um novo olhar a partir do reconhecimento da sombra.

PALAVRAS-CHAVE: Erro. Sombra. Tempo. Temporalidade. Fracasso. Encontro Analítico.

Um dos grandes instrumentos de que a ciência se utiliza para a confirmação ou não de hipóteses é a estatística. Segundo a Escola Nacional de Ciências Estatísticas (2009) do IBGE, “a estatística tem por objetivo fornecer métodos e técnicas para lidarmos, racionalmente, com situações sujeitas a incertezas”. Assim, por meio de amostras realizadas sobre uma população podemos fazer inferências sobre ela. E quanto maior a amostra, maior a fidedignidade de uma estimativa. Os diversos métodos que a estatística disponibiliza visam aumentar a certeza e reduzir a incerteza dos resultados que se deseja constatar.

Quando fazemos uso de uma metodologia, está delineado um percurso. Precisamos de instrumentos de controle que possam atuar como sinalizadores e guiar nossas ações e tomada de decisões. Por estes instrumentos temos um mapa que corresponde à situação atual, permitindo a correção de práticas e evitando a repetição de erros.

No mundo atual a maior parte dos seus segmentos possui uma orientação focalizada em resultados. A tecnologia, as modernas práticas de gestão empresarial e as metodologias de ensino têm como viés o produzir mais e melhor. Mesmo quando os discursos das empresas se apresentam sob a forma de valorização do ser das pessoas, levando em consideração suas motivações e bem-estar, temos a percepção de que por detrás disto existe o objetivo de garantir que nada interfira nos resultados empresariais. O capitalismo se apropria de certas falas motivacionais justamente por perceber a possibilidade de alavancar a eficiência dos seus colaboradores e, por conseguinte, aumentar os lucros.

Se por um lado, a cultura do sucesso pode exercer sobre os indivíduos a motivação necessária para a superação de limites, conquistas profissionais e obtenção de resultados, por outro quem não estiver adequado a este formato ou não comungar com as mesmas expectativas pode estar comprometendo seus próprios objetivos ou afetando sua auto-estima. Ante a esta dinâmica, o medo do fracasso tornou-se um verdadeiro fantasma.

Mas no que implica ter sucesso? Na verdade, o que é sucesso?

É lugar comum as pessoas associarem o sucesso com uma vida plena e feliz, e aos sentimentos de preenchimento e completude. É ter fama e reconhecimento profissional; é ter o relacionamento dos sonhos e muito dinheiro. Ter sucesso é ter cumprido as metas propostas pelo sistema econômico; é conquistar um espaço dentro de um quadro vorazmente competitivo; é poder destacar-se da multidão e ao mesmo tempo conquistar ou ampliar seu sentimento de pertença num mundo que tem a exclusão como dinâmica.

Os profissionais em suas diversas áreas de atuação desejam ser bem-sucedidos. Cada um, à sua maneira, concebe seu próprio conceito de sucesso. Para isto estabelecem metas e objetivos. E claro, os psicólogos e terapeutas não estão isentos deste atravessamento. Para que esta imagem de sucesso possa ser materializada, é necessário dispor de um recurso cada vez mais escasso: o tempo.

Algumas questões importantes aparecem neste momento. Como os psicólogos lidam com o tempo no setting terapêutico? Uma terapia demorada é sinônimo de fracasso do terapeuta? Ou então, uma terapia que dure pouco tempo é sinônimo de sucesso? E quando o psicólogo se arvora em fazer uma intervenção, num tempo em que o paciente não está preparado para ela, será que ele percebe sua implicação? Em que situações podemos dizer que o terapeuta utilizou o tempo de forma inábil?

Jung em suas pesquisas acerca do inconsciente se deparou com as ciências antigas onde delas pôde extrair muitas informações importantes para o seu trabalho. Em uma destas incursões, entrou em contato com o I Ching, magnífica obra de origem chinesa e constituída por uma série de símbolos denominados hexagramas. Também chamado de O Livro das Mutações, estes hexagramas “não são representações das coisas enquanto tais, mas de suas tendências de movimento.” (WILHELM, 1990, p.5). Um destes hexagramas, o de número cinqüenta e dois, representa a quietude. Este hexagrama, entre outras coisas, nos diz que

a verdadeira quietude consiste em manter-se imóvel quando chega o momento de se manter imóvel, e avançar quando chega o momento de avançar. Deste modo o repouso e o movimento permanecem em harmonia com as exigências do tempo, e a vida se ilumina. (WILHELM, 1990, p.162).

E ainda, mais adiante, este mesmo hexagrama nos propõe outra reflexão onde diz que

[…] descuidos de linguagem conduzem, muitas vezes, a situações que mais tarde poderão ser motivo para arrependimento. No entanto, quando se é discreto ao falar, as palavras vão adquirindo uma precisão cada vez maior e desaparecem, então, todos os motivos de arrependimento. (WILHELM, 1990, p.163).

A enunciação das características deste hexagrama se mostra oportuna, pois, menciona dois importantes ingredientes do encontro analítico: o discurso e o tempo.

O setting terapêutico é um Temenos – um lugar sagrado, um espaço reservado ao encontro com a alma. Ali, como nos antigos laboratórios alquímicos, um trabalho de experimentação ocorre. Terapeuta e paciente numa interação permanente emulam, atuam e fazem verter suas imagens numa troca constante. Na alquimia, as diversas operações estavam submetidas à tentativa e erro. Eram processos trabalhosos e longos que reproduziam de modo artificial os processos que na natureza levavam séculos para se materializarem. É no Temenos que o analisando irá apresentar as suas imagens – a linguagem da alma.

No Tarot, um sistema que utiliza imagens dispostas em lâminas, existe uma figura conhecida como Papisa ou Sacerdotisa. Seus estudiosos a associam com a deusa grega Perséfone, a guardiã dos segredos dos mortos, e, segundo eles, ela representa

[…] a imagem da lei natural operando dentro das profundezas da alma, que governa o desenrolar do destino a partir de um ponto invisível e que apenas é revelado por meio do sentimento, da intuição e dos sonhos. (SHAMAN-BURKE, 1988, p.35)

Ainda, segundo os estudiosos desta arte, a lâmina da Sacerdotisa tem seu poder ligado ao elemento água e “[…] ela governa pela lenta persistência, pelo amor e pela paciência feminina.” (NICHOLS, 1988, p.85). Na mitologia grega

Perséfone é uma figura sedutora e fascinante, porém jamais fala de seus segredos. Da mesma maneira, o mundo noturno do inconsciente penetra nos sonhos, nas fantasias e nas intuições, o que também é sedutor e fascinante. Contudo, sempre que tentamos dominá-lo e colocá-lo ao lado do intelecto em nosso próprio benefício, este mundo emudece e escapa de nosso alcance. O mundo sombrio de Perséfone oferece apenas lampejos dos padrões e da movimentação em ação dentro do indivíduo e que requerem paciência e tempo antes de serem trazidos à luz. (SHAMAN-BURKE, 1988, p.34)

Quando o analisando se encontra diante do analista, este se vê diante de uma pedra bruta. No entanto, o analista também o é, porém, com mais instrumentos para a compreensão dos processos em jogo. Aqui está uma relação de poder. Onde há uma relação de poder há uma desigualdade. O trabalho alquímico do encontro analítico é o de favorecer o lapidar da pedra bruta através da conscientização dos processos neuróticos que aprisionam o paciente em suas compulsões. No entanto, quando estamos investidos de uma autoridade, de um poder, temos muitas dificuldades em lidar com o erro. Se o analista tem em mente que é possuidor de um genuíno saber, o sucesso terapêutico está representado pela melhora substancial na saúde psíquica do paciente.

Nada sabemos a respeito do outro. Todo encontro é um primeiro encontro. A cultura do sucesso, no entanto, nos permite, muitas vezes, vermos estes encontros apenas como uma sucessão de repetições, de circum-ambulações em torno de um complexo que não conseguimos sustentar. Então, à nossa mente chegam algumas considerações: – “que paciente repetitivo!”; – “traz sempre o mesmo discurso” – “acho que não estão adiantando as minhas intervenções”.

Onde existe o discurso da cura não existe lugar para o erro, entendido como não atendimento às nossas expectativas. Logo não somos um sucesso; nosso olhar é o da incompetência e o do fracasso. Isto representa uma grande ferida narcísica para nós. Sustentamos a crença que o próprio paciente comunga, ou seja, a de um sujeito do saber que está ali para oferecer algo que sabe que não pode de fato cumprir. Se formos nesta direção poderíamos questionar se a análise não estaria sujeita ao fracasso. A imagem que nos olha é a do fracasso; acerto e sucesso significam premiação e reconhecimento; erro significa responsabilização, penalização e culpabilização.

A pedra bruta enquanto estado primitivo rumo à obtenção da pedra filosofal é objeto de manipulação iniciática, isto é, através do material trazido pelo analisando ao encontro analítico mutuamente nos propomos à investigação das imagens que atuam inconscientemente através dele e juntos buscamos entender-lhes o significado. Como desde o começo alertamos, este é um processo alquímico, de transformação que leva tempo.

Qual é a tentação do terapeuta? Apressar o processo e, para isto, já alertavam os alquimistas sobre o risco de tentar precipitar uma operação sem que todas as suas fases estivessem conclusas. E por que ele o faz? Como apontamos desde o começo, somos atravessados pela questão de sermos bem sucedidos em nossas escolhas e atuações. O sucesso como poder. O poder do saber sobre o outro, ímpia pretensão, que gesta o dano ao solapar as estruturas sobre as quais se funda o edifício psíquico do sujeito.

Por que devemos respeitar o tempo?

Se lembrarmos do arquétipo do curador ferido diremos que para que possamos respeitar o limite do outro antes devemos conhecer o nosso próprio limite. Isto nos leva à mitologia grega através de Quíron, o rei dos centauros. Certa vez, seu amigo Heracles lhe fez uma visita logo após matar a monstruosa Hidra de Lerna com suas nove cabeças envenenadas. Acidentalmente, Heracles feriu Quíron na coxa com uma das setas que havia sido impregnada com o sangue do monstro. Por mais que tentasse, Quíron não conseguiu retirar o veneno de seu corpo. Por ser imortal, foi então condenado a viver em sofrimento, tendo que sacrificar sua felicidade terrena devotando-se inteiramente aos ensinamentos da sabedoria espiritual. (SHAMAN-BURKE, 1988, p.37)

Como podemos ser tolerantes com o limite do outro se não somos tolerantes com nossos próprios limites? Como podemos levar em conta as feridas do outro se não percebemos as feridas que carregamos? Assim, no afã de curar atropelamos quem devemos curar; a pressa e o imediatismo podem estar servindo como analisadores de nossa atuação como terapeutas que ao invés de nos aprofundarmos nas questões da alma preferimos calar os sintomas. Ser terapeuta é encarar os paradoxos da alma e esta assertiva pode ser localizada na própria estrutura física do Centauro, que

[…] sendo metade deus e metade cavalo, […] tem a capacidade de compartilhar tanto o instinto como o espírito, contendo a dualidade própria da condição humana. Nunca seremos totalmente animais e tampouco conseguiremos ser completamente divinos, mas sempre uma mistura dos dois, pois estamos aqui para aprender a conviver com ambas as partes. Desta mistura vem a sabedoria do Centauro, que compartilha do conhecimento de Deus, bem como do conhecimento das leis naturais. (SHAMAN-BURKE, 1988, p.38)

Portanto, se não percebemos estas feridas em nós, então acabaremos por projetá-las no analisando. A lição que Quíron tem a nos ensinar é a de que os terapeutas não são imunes às patologias e, portanto, devem estar sempre abertos às dores do mundo porque eles também sofrem. Muitas vezes a inabilidade do analista de sustentar a angústia do paciente, leva-o a conduzir a caminhos atenuantes da dor do outro para que sua dor não seja confrontada. É a angústia do terapeuta perante o adoecimento do outro.

O setting analítico é, portanto, um propiciador da dinâmica consciente e inconsciente. O estar apaixonado pela análise como uma simbologia do amor pelo inconsciente se reflete na motivação do encontro analítico através da pontualidade. O atraso do terapeuta ou do paciente, sendo freqüente, deve ser compreendido como um sintoma. Se o terapeuta chega com freqüência atrasado é hora de se perguntar o que contratransferencialmente ele está constelando. Isto é válido para as faltas também. O esquecimento de que naquele dia e horário existe um encontro também deve ser visto como sintoma. O mesmo é válido para o paciente. Para as duas situações o que deve ser investigado não é o porquê e sim qual é o sentido do atraso ou da falta para os atores envolvidos. Devem ser investigadas as possíveis resistências de ambas as partes. No caso do terapeuta, Jacoby sugere que

[…] uma reação de contratransferência pode também ser uma resposta a um conteúdo de transferência disfarçado do analisando; é, portanto, importante que se indague a respeito não só dos próprios motivos inconscientes, como também sobre a situação inconsciente do paciente. (JACOBY, 1984, p.110).

E, ainda segundo Jacoby, é importante lembrar que “[…] existem, em todas as pessoas, forças intensas contra a mudança, complexos que resistem a qualquer interferência nos velhos padrões familiares.” (JACOBI, 1984, p.110).

No encontro analítico, nossa percepção de tudo que ali acontece e as hipóteses de trabalho que formulamos estão diretamente relacionadas às linhas com as quais nos identificamos enquanto profissionais Quando adotamos uma determinada prática terapêutica não podemos esquecer que sua concepção deve-se a um conjunto de observações e casos clínicos que lhe deram sustentação. Jung reconhece nas abordagens o seu relativismo, inclusive em suas próprias concepções. Um ponto relevante é a expectativa do terapeuta quanto ao andamento da análise e a sua tentativa de controle sobre os eventos que acontecem no setting. As intervenções acontecem no sentido de corroborar suas expectativas e, então, o paciente entende que deve satisfazer as ansiedades do analista. Portanto, os objetivos do encontro ficam comprometidos – tanto o paciente quanto o analista não estão na análise. Para este ponto, Jung demonstra a sua inquietação ao afirmar que “o que me perturba não são as teorias, mas sim, um grande número de fatos.” (JUNG, 2003, p. 3).

Um fenômeno bastante estudado por Jung e que mantém uma relação com a temporalidade é a sincronicidade. Os analistas mais identificados com os paradigmas científicos tenderão a ignorar a experiência para não se permitirem uma abertura ao fenômeno. Com receio de ser não cientifico ou não “religioso” o analista ignorará ou desautorizará a fala do paciente ou o fenômeno. Como dissemos no começo, a autoridade no setting é o analista. Se os fenômenos que lá ocorrem não são de domínio do terapeuta ou se afrontam suas concepções prévias, o analista vê seu pretenso saber em xeque. Muitas vezes isto pode estar demonstrando o quão difícil é a prática da epoqué, a suspensão de todos os juízos para acolher o inusitado, pois que toda a manifestação seja de que ordem for é da ordem do encontro específico daqueles dois atores. Jung, inclusive, relata em sua obra a dificuldade que teve em publicar seus pontos de vista acerca desta temática. Conforme ele mesmo diz:

Como psiquiatra e psicoterapeuta, eu tenho entrado freqüentemente em contato com os fenômenos em questão e pude, sobretudo, me convencer de quanto eles significam para a experiência interior do homem. Na maioria das vezes eram coisas de que as pessoas não falam, com medo de se exporem a um ridículo insensato. Espantava-me de ver quantas pessoas tinham experiências desta natureza e como este segredo era cuidadosamente ocultado. Assim, meu interesse por este problema tem sua razão de ser não somente científica mas também humana. (JUNG, 1988, p. IX)

A formação do terapeuta também se constitui um ponto relevante. Suas expectativas desde a formação atuam como sombra sob a forma de informações parciais e equivocadas acerca da profissão. As representações sociais acerca do psicólogo acabam afetando sua formação dado o atravessamento da visão da psicologia como desvalorizada enquanto ciência e campo profissional. A psicologia assim como outros campos do saber qualificados como relevantes e significativos para o ser humano pagam o preço por serem considerados de menor interesse para mover a roda do capitalismo. O psicólogo dentro da sua área de atuação exerce um papel político e ético ao acolher o mal-estar como fazendo parte do existir das pessoas. Além disto, ao assim proceder, reconhece a singularidade dos sujeitos e como tal luta pela construção de um locus de escuta para as diversas demandas.

Os próprios analisandos trazem a questão do tempo como fator importante no prosseguimento do trabalho analítico. Um relato muito freqüente é que estes, quando pensam em trocar de terapeuta ou mesmo em suspender a análise, dizem que não conseguem perceber nenhuma melhora na sua condição psíquica e que já se encontram em terapia há muito tempo. A sombra do analista reage prontamente, pois, não quer perder o cliente. Eis um aspecto bastante inquietador. Como conjugar as premissas do trabalho terapêutico com a questão da sobrevivência enquanto profissional? Será ético manter o paciente mesmo que este não se encontre em análise? Ou, então, por outro lado, manter o paciente quando o terapeuta na verdade não o quer?

Talvez o que seja mais desafiador no exercício da profissão é encarar o fato de que não podemos dar conta de tudo. Existem muitas patologias cuja condução terapêutica é de fato um exercício de paciência e muito estudo e aperfeiçoamento. Mais do que isto,

o êxito de uma análise estaria na dependência dela ser bem sucedida na remoção daquelas formações que representam áreas de fracasso do caso […] passando o fracasso a significar a sua permanência a despeito do desenvolvimento da personalidade e do discernimento ganho com a análise. (HILLMAN, 1981, p.116).

Em termos claros, são casos cujo eficácia da análise é questionada. No entanto, Hillman irá propor um olhar alternativo à polarização sucesso-fracasso, onde considera que

[…] toda análise é fracasso e sucesso ao mesmo tempo, cada elemento da análise é certo e errado, é condução e desorientação, crescimento construtivo e eliminação destrutiva – o que significa implicitamente que para uma análise ter êxito ela precisa fracassar. (HILLMAN, 1981, p.116).

Alguns historiadores relatam que a análise como instrumental terapêutico é insuficiente pois tendo ela surgida como uma resposta ao fracasso específico da civilização, ela não é capaz de dar conta do homem dos dias atuais. Para isto, Hillman faz uma importante consideração:

Essas reflexões de ordem histórica sobre o fracasso da análise fazem-nos recordar a origem da análise no fracasso, isto é, seu aparecimento como método destinado a aplicar-se àqueles tipos particulares de casos que não puderam ser compreendidos, ou sequer ouvidos, pelo sistema oficial vigente, por exemplo os histéricos de Freud e Breuer e os esquizofrênicos de Jung e Bleuler. Estes eram os fracassados médica e socialmente; a psicoterapia foi inventada como forma específica para esses fracassos específicos. A origem da análise nos desajustados, nos descontentes neuróticos peculiares de nossa civilização, […], nos fracassados, por assim dizer, permite que se abra uma terceira perspectiva para o enfoque da relação entre a análise e o fracasso. (HILLMAN, 1981, p.118)

A perspectiva proposta por Hillman é de uma reflexão arquetípica, que leva em consideração o fracasso como análise. Na verdade, sua proposta centra-se na questão do fracasso não como pertencente a um eixo polar, mas como inerente ao próprio processo de análise. Ele vai propor que se observe a questão do fracasso não apenas como sendo constituinte da base histórica da análise mas também de sua base arquetípica. Tal enfoque remodela o olhar analítico em direção a um diálogo com Tanatos. Originalmente, o olhar em direção a Eros propõe uma atitude heróica de superação, integração e crescimento e que se constituem em forças opostas à morte. O inconsciente seria visto de uma perspectiva de “[…] vontade geradora da vida, latente na alma, que evolui com o tempo e que, se interpretado corretamente, pode nos livrar do fracasso.” (HILLMAN, 1981, p.119).

A proposta de Hillman é aprofundar-se cada vez mais nestes aspectos sombrios. Ele vai dizer que

esta abordagem investiga (analisa) o fracasso não tanto para refazer o crescimento interrompido e sim para conduzir os equívocos, erros e fraquezas ao âmbito do fracasso…, levando-o às últimas conseqüências, ou seja, à sua meta psíquica final, a morte. Com isso, todo engano da vida, toda fraqueza, todo erro na e da análise, em vez de serem corrigidos e deplorados, ou distorcidos com racionalizações, ou transformados e integrados, tornam-se vias de acesso ao fracasso, aberturas por onde se inicia a reversão de todos os valores. Mais do que um bloqueio a Eros e ao fluir da vida, podemos considerar os fracassos como sendo constelados, pretendidos e até mesmo finalmente causados pelo mundo subterrâneo, que deseja que a vida apresente falhas a fim de que outras atitudes, regidas por outros princípios arquetípicos, sejam reconhecidas. (HILLMAN, 1981, p.120)

Hilmman, então, chama a atenção para a falsa dicotomia sucesso-fracasso e propõe um novo olhar para o erro e reporta como fantasiosa a abordagem de que a integração poderá compensar a desintegração. Então ele pergunta:

Onde fica, então, a cura pela semelhança, o tratamento do semelhante pelo semelhante? O que me importa é o contexto correto do fracasso da vida; quero conhecer com precisão esses deuses cujo tributo e glória são a derrota,a decadência e a desintegração. (HILLMAN, 1981, p.121)

Esta instigante proposta nos aponta para o lado criativo da sombra. Guggenbüll-Craig afirma que

a sombra no analista constela sombra no paciente; nossa própria honestidade ajuda-o a confrontar seus fenômenos sombrios; cada um de nós deve trabalhar em ambas as áreas. (Guggenbüll-Craig, 1978, p.86).

A admissão da sombra em nós é um passo importante para sua integração ao Ego e significa a possibilidade de contato e aceitação. A sombra é inerente à natureza humana e somente através do diálogo é possível iluminá-la. As repercussões na clínica são evidentes, pois a partir do momento em que, como terapeutas, reconhecemos a alteridade que há em nós, somos também capazes de acolher a alteridade do outro.

REFERÊNCIAS

Escola Nacional de Ciências Estatísticas. O que é estatística. [Rio de Janeiro]: 2009. Disponível em: < http://www.ence.ibge.gov.br/estatistica/default.asp>. Acesso em: 30 abr. 2009.

GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O Abuso do Poder na Psicoterapia. Rio de Janeiro: Achiamé, 1978.

HILLMAN, James. Estudos de Psicologia Arquetípica. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.

JACOBY, Mario. O Encontro Analítico. São Paulo: Cultrix, 1984.

JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes, 2003.

JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Petrópolis: Vozes, 1988.

NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô: uma jornada arquetípica. São Paulo: Cultrix, 1988.

SHAMAN-BURKE, Juliet; GREENE, Liz. O Tarot Mitológico. São Paulo: Siciliano, 1988.

WILHELM, Richard. I CHING: o livro das mutações. São Paulo: Pensamento, 1990.

Wonnacott, Tomas H.; Wonnacott, Ronald J. Introdução à Estatística. Rio de Janeiro: LTC, 198


[1] Trabalho apresentado no III Encontro dos Junguianos Nômades em junho de 2009 – Belo Horizonte – MG

[2] Psicólogo com pós-graduação em Teoria e Terapia Junguiana pela UNESA/Rubedo.