“A UTILIZAÇÃO DO ESPORTE COMO INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO NO RIO DE JANEIRO (RJ): A PSICOLOGIA NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO”

 

 

“A UTILIZAÇÃO DO ESPORTE COMO INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO NO RIO DE JANEIRO (RJ): A PSICOLOGIA NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO”

Por: Rodrigo Pieri

 

Resumo

Este artigo se propõe a trazer informações e discussões sobre a Estação Conhecimento – Programa Brasil Vale Ouro, uma instituição do Terceiro Setor, constituída como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que agrega a participação direta da comunidade e possibilita o estabelecimento de parcerias com as três esferas governamentais e entidades da sociedade civil organizada. Com público prioritário de crianças e adolescentes entre dez a dezoito anos, seu objetivo principal é desenvolver os alunos de forma integral, considerando as perspectivas físicas, intelectuais e cognitivas de cada indivíduoatravés do esporte de alto rendimento, assim como do processo de iniciação no esporte. Além disso, será realizada uma reflexão acerca da adolescência, enquanto um momento do desenvolvimento humano e suas etapas de construção social em um ambiente estimulante e construtivo. Enquanto ciência humana do comportamento, a psicologia na Estação Conhecimento atravessa a questão social e esportiva. Neste trabalho, ela é uma facilitadora da compreensão da problemática na qual o indivíduo está inserido. Ela atua conciliando a preparação para o esporte de alto rendimento e a construção de um cidadão ciente de si.

PALAVRAS-CHAVE: Adolescente, Educação, Esporte, Psicologia, Vulnerabilidade Social.

 

Você me abre os braços e a gente faz um país…”

(Lulu Santos)

Estação Conhecimento

A concepção da Estação Conhecimento se pauta no principio de garantir um legado de conhecimento sistematizado e institucionalizado para as gerações futuras, que permitam sustentabilidade do projeto sendo fundamental a articulação e integração com todos os setores da sociedade (Setor Público, Privado e Terceiro Setor). É constituída juridicamente como uma organização social do chamado Terceiro Setor – OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). A instituição caracteriza-se como um centro de referência local ou regional focado nas questões-chave: o desenvolvimento humano e o desenvolvimento econômico. Estações Conhecimento estão programadas para serem implantadas com subsídios da Fundação Vale nos território de atuação da empresa Vale, uma mineradora. O presente trabalho está pautado nas experiências vividas pelo Psicólogo da unidade da cidade do Rio de Janeiro/RJ.

Desse modo, no tocante ao desenvolvimento humano, o foco está no desenvolvimento integral e integrado da potencialidade humana, atendendo às necessidades e potencialidades nas dimensões físicas, emocionais e intelectuais com ênfase nas crianças, adolescentes e suas famílias. Já quanto ao desenvolvimento econômico, o foco está no fomento para a geração de renda nas áreas rurais e urbanas, e para tanto atua no apoio à organização produtiva, ao desenvolvimento tecnológico, ao processamento e comercialização da produção.

Esses desenvolvimentos, de um modo geral, são orientados pelas concepções e princípios respaldados nos quatro pilares da educação conforme afirma a UNESCO, os quais foram publicados no Relatório de Jacques Delors, fruto dos trabalhos da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. Para esta comissão composta por especialistas em educação de vários pontos do mundo, é preciso criar condições para que a criança, adolescente e o jovem possam: conhecer o mundo que os rodeia (aprender a conhecer) para intervir nele (aprender a fazer) em conjunto com outras pessoas (aprender a conviver) e dessa forma se desenvolver (aprender a ser).

Tais pilares têm como premissa de que aprender na prática exige um processo de sistematização, que organize os aprendizados produzidos nestas combinações e se configuram como material pedagógico da Estação Conhecimento. A partir disso, são afirmados os princípios da Estação Conhecimento, os quais projetam que toda e qualquer formação precisa ter uma perspectiva de formação integral que amplie capacidades intelectuais, técnicas, culturais e cidadãs do público a quem se destina.

Diariamente, essas crianças e adolescentes, que se submeteram a uma bateria de testes físicos, avaliando suas habilidades motoras, todos regulamentados pelo Ministério do Esporte, participam de aulas e treinamentos esportivos. As modalidades são: atletismo, judô e futebol,sempre sob a orientação de profissionais da educação física, alguns inclusive ex-atletas olímpicos, e sob o “olhar” de uma equipe técnica multidisciplinar composta por um psicólogo, uma assistente social e uma pedagoga, que cuidam/monitoram/orientam e articulam as atividades extra desportivas, por exemplo, reuniões com os responsáveis, oficinas de convivência e cidadania, avaliação de satisfação (dos atletas e de seus responsáveis) e cursos oferecidos por eventuais parceiros. Todo o conhecimento gerado pela Estação é sistematizado e ficará de legado para as gerações futuras. Dessa forma, a Estação Conhecimento – Brasil Vale Ouro pretende contribuir para apromoção do desenvolvimento humano e econômico daregião onde está localizada, em todo território nacional.

Busca-se promover a melhoria da qualidade de vida dos moradores da região, oferecendo às crianças e adolescentes e, consequentemente, às suas famílias, uma maior consciência sobre suas possibilidades de escolha nos âmbitos social, cultural e econômico, através do esporte. Os reflexos podem ser percebidos na fala de um de nossos “atletas”:

Bom, primeiramente, eu quero dizer que a Estação foi uma das melhores coisas que aconteceu no bairro, porque deram (sic) uma esperança para as crianças que tem (sic) o sonho de ser um atleta… Agora me sinto melhor comigo mesmo…”

(Aluno do Futebol, Engenhão/Rio de Janeiro)

Esta fala se deu em um dos processos avaliativos que os adolescentes fizeram em seu primeiro trimestre de Estação Conhecimento Engenhão. Estação Conhecimento localizada no bairro do Engenho de Dentro, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A pergunta era simples e direta: O que você acha da Estação Conhecimento?

Eu quis ser eu mesmo

Eu quis ser alguém

Mas, sou como os outros

Que não são ninguém”

(Pato Fu)

ADOLESCÊNCIA:

Um dos públicos alvos da Estação Conhecimento, a qual foi criada para atender objetivos já aqui descritos, são os adolescentes e suas complexidades no que diz respeito a sua educação e seu processo de socialização. Por isso, se faz necessário o entendimento do que representa esta etapa do desenvolvimento humano, sobretudo psíquico, o qual leva em consideração não apenas os aspectos biológicos, estes já tão explorados pelo senso comum, mídia e estudos acadêmicos. Mas que, além disso, permita a compreensão dos comportamentos e sentimentos observados neste momento da vida.

Assim, situada em diferentes regiões do país, a Estação Conhecimento trabalha, em sua maioria, com adolescentes, um público que, Conttardo Calligaris (2009) definiu como “ideal coletivo que espreita qualquer cultura, que recusa a tradição e idealiza a liberdade, independência, insubordinação, etc.” (CALLIGARIS, 2009, p.73). Estas características definem muito bem as reações e relações presentes no dia a dia da Estação, mesmo tendo o esporte como um forte atrativo. Em seu livro “A Adolescência”, o autor explica que até o meio do século passado, a adolescência “não era um fato social reconhecido. Era uma faixa etária, mas não por isso um grupo social. Ainda menos um estado de espírito e um ideal de cultura” (CALLIGARIS, 2009, p.60). Isto, talvez, possa explicar a forma adolescente de se relacionar com o mundo externo.

Posto os aspectos mais intrínsecos ao sujeito, se pode, agora, contextualizar os adolescentes do Brasil, os quais movimentam suas vidas num horizonte de incertezas quanto às ações do presente e às do porvir em um cenário de afunilamento da sociabilidade juvenil, onde se têm, por exemplo, jovens envolvidos com o tráfico, sem perspectivas de formação de vínculos sociais. Estação Conhecimento – Brasil Vale Ouro, através do esporte, surge com a oferta de oportunidades de convívio social saudável, fomentando sonhos e planos para o futuro, por meio de certezas concretas de integração e pertencimentos sociais tangível nas práticas esportivas, vivências em grupo e conteúdos voltados à formação cidadã. Tenta-se dar continente a esse momento de vida que Rúbio (2001, p. 162) definiu como sendo A hora da grande batalha para partir do mundo parental e viver a morte simbólica dos pais e do filho, para assim poder surgir o indivíduo, o adulto”.

PSICOLOGIA DO ESPORTE NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO:

Neste ambiente em que o esporte se empresta como ferramenta principal para o desenvolvimento e a constituição de centenas de crianças e adolescentes, o trabalho é realizado numa perspectiva multi e interdisciplinar. Em um lugar atravessado por distintos saberes (educação física, administração, assistência social, pedagogia e psicologia), fica a pergunta: qual o trabalho a ser feito pelo psicólogo?

A primeira vista o trabalho é múltiplo, assim como são múltiplas as possibilidades de atuação de um psicólogo no esporte e assim como são múltiplas as possibilidades de atuação de um psicólogo que trabalhe com crianças e adolescentes. Logo, na Estação Conhecimento, que une esporte e juventude, o profissional da psicologia atua como Psicólogo Social, de RH, Clínico, Institucional e Psicólogo Esportivo.

Para esse trabalho, nos ateremos na atuação como Psicólogo Esportivo e como ele pode auxiliar na formação dos atletas da Estação.Importante lembrar que, nas Estações Conhecimento, o esporte nas quatro modalidades –Judô, Atletismo e Futebol – pode ser praticado como alto rendimento e/ou iniciação, porém ambos com um mesmo objetivo final: formação integral do sujeito. Kátia Rúbio (2001) subdividiu o esporte em “esporte performance, esporte participação e esporte educativo”.Diz ela em seu livro O Atleta e o Mito do Herói – o imaginário esportivo contemporâneo:

As práticas esportivas contam com manifestações distintas, embora interatuantes, podendo ser dividas da seguinte forma: esporte performance, que se objetiva rendimento, numa estrutura formal e institucionalizada; esporte participação, visa o bem-estar para os movimentos de educação permanente e com a saúde; esporte educação, com objetivos claros de formação, baseado em princípios sócio-educativos, tendo como finalidade a preparação de seus praticantes para a cidadania e para o lazer. (RÚBIO, 2001, p.96)

De acordo com Benno Becker Júnior (2001), é muito difícil determinar o começo exato da Psicologia do Exercício e do Esporte no Brasil, visto que estes eventos têm pouca, ou nenhuma, divulgação. Algumas pesquisas oficiais mostram que a Psicologia do Exercício e Esporte tem seu registro inicial em 1954, no Departamento de Árbitros da Federação Paulista de Futebol.

A pergunta que se mantém é “qual é a atuação da psicologia no esporte?”, visto que a sociedade

(…) vem se organizando na atualidade de forma a valorizar a ascensão, a vitória, o melhor, impondo um padrão de comportamento que privilegia o mais forte, o mais habilidoso.”.(Rúbio, 2001, p. 11)

Principalmente por se tratar de uma psicologia esportiva com um público onde “as surpresas de um novo parâmetro de vida estão sendo conhecidas e a única certeza que se tem, diante do inesperado, é que o devir comporta muitos perigos” (Rúbio, 2001, p. 160/161). Para responder tal pergunta, traremos dois exemplos de experiências e resultados ocorridos nas Estações Conhecimento Rio de Janeiro e Tucumã, a partir da intervenção da psicologia esportiva.

RELATOS DE EXPERIÊNCIAS COM ADOLESCENTES NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO:

A partir dessas definições, segue o exemplo para ilustração e análise:

RELATO DA EXPERIÊNCIA:

O relato a seguir refere-se ao relatório construído pela equipe de psicologia da Estação Conhecimento Rio de Janeiro, no início do ano de 2011, após a primeira competição de atletismo fora do estado do Rio de Janeiro. No intuito de manter o sigilo de seu nome, o atleta receberá o codinome Torres.

Torres, nascido em 1996, disputaria a prova dos 400m. Na ocasião, saía do Rio de Janeiro pela primeira vez. Durante todo o processo preparatório para a competição São Silvestrinha 2010, demonstrou dificuldade de relacionamento com os demais atletas da delegação. Constantemente oscilava seu humor, ora agressivo e intempestivo, ora calmo e dedicado. Inevitavelmente sua oscilação refletiu-se durante a corrida. Se antes da largada, disse que iria usar a lembrança que trazia de nosso trabalho no Rio de Janeiro (uma frase retirada do livro do Bernardinho (2006) “Transformando Suor em Ouro” que recebeu durante uma atividade lúdica preparatória para a viagem.), ao correr, na última curva, inesperadamente, tentou dar um chute em um dos atletas que disputava posição com ele e desacelerou, praticamente desistindo da corrida. Quando foi questionado o porquê de ter feito aquilo, o mesmo deu duas respostas diferentes para dois membros da equipe técnica. Se para um dos técnicos alegou ter sido agredido e que queria revidar, para outro disse ter sentido uma fisgada na perna. Torres provou sua capacidade esportiva por ter conquistado um lugar na seletiva para competição. Entretanto, o mesmo, durante todo o processo, também demonstrou que precisaria ser observado e receber uma atenção especial pela equipe técnica no ano de 2011.

Após a competição, os atletas saíram de férias. Ao retornarem, um mês depois, Torres, nos primeiros dias de treinos, novamente apresentou oscilação de humor. Ele, que sofria de um estrabismo brando, o qual, por ser muito perceptível, o caracterizava, começou a receber apelidos de seus companheiros de treinos, o que por ele era respondido com agressão física. Torres, em certa ocasião, acertou uma maça na cabeça de um de seus companheiros de treino, ao ser questionado pela equipe de psicologia, o porquê fizera aquilo, sua resposta foi curta e direta: “ele me chamou de Zé do Olho”.

Em outra ocasião, Torres, que treinava uma nova modalidade (lançamento de dardo) por algum motivo, que ele mesmo não soube responder o porquê, lançou o dardo na direção de seu técnico, que só não foi atingido por poucos centímetros.

Na tentativa de se entender o motivo dessas súbitas reações, Torres teve seus responsáveis convocados para uma reunião com a assistente social e com o psicólogo da equipe. O intuito era conhecer mais sobre o menino e sua forma de se relacionar fora do espaço da Estação Conhecimento. Na entrevista, a mãe de Torres disse que nunca vira seu filho tão envolvido com algo, como ele estava com o atletismo, que seus hábitos alimentares haviam melhorado e que o mesmo sempre buscava na internet e na televisão informações sobre competições de atletismo. Essa informação foi recebida com certa surpresa pela equipe. Se gostava tanto de atletismo, se estava tão envolvido com as propostas da Estação, porque então Torres reagia em certas situações com tanta agressividade?

A possível resposta foi percebida na continuação da entrevista, quando foi revelado que Torres, apesar de em casa sempre ter sido um filho companheiro e prestativo, na escola e em todas as outras instituições que já frequentara, a mãe sempre era convocada, pois havia comportamentos agressivos. A mesma disse que o estrabismo de seu filho era sempre motivo para brincadeiras e provocações de outros meninos e que isso o incomodava tanto que fizera a mãe o acompanhar, por diversas vezes, durante algumas madrugadas, nas filas de hospitais na busca de realizar uma cirurgia em seu olho. Todas as tentativas foram frustradas.

Atualmente Torres é muito respeitado por seus colegas de treino e suas reações agressivas diminuíram drasticamente. Acredita-se que foram alguns os motivos para que essa mudança. A seguir, analisaremos alguns desses motivos.

IDENTIFICAÇÃO COM O ESPORTE:

Uma semana depois desta entrevista, o Engenhão, local onde Torres treina, recebeu o “Meeting Internacional de Atletismo”. Um mês depois, no mesmo local, aconteceram as modalidades de atletismo do “V Jogos Olimpicos Militares”.Deu-se incentivo para que os atletas aproveitassem essas possibilidades para que se aproximassem mais do esporte. Torres, que antes sonhava em ser um jogador de futebol, além de ter assistido algumas competições, teve contato com atletas condecorados internacionalmente e pode assistir aos treinos e o processo de concentração e aquecimento dos mesmos. Torres se identificara com o esporte, como sua mãe já havia indicado, e isso o fez aumentar a dedicação, atenção e concentração nos treinos, conseguindo assim dar uma maior importância aos treinos do que as provocações de seus companheiros. Torres, que anteriormente era percebido por suas reações agressivas, passou a sonhar e se imaginar como atleta profissional. Para isto, mudou seu foco durante os treinos. Esta capacidade imaginativa dos atletas era sempre incentivada pela equipe de psicologia. Winnicott (1990, p.78) fala que:

A solução para os problemas da ambivalência inerente surge através da elaboração imaginativa de todas as funções; sem a fantasia, as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra. A fantasia prova, deste modo, ser a característica do humano a matéria-prima da socialização e da própria civilização.

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA IDENTIDADE A PARTIR DA MELHORA NO RENDIMENTO:

Por ter aprimorado seu envolvimento com os treinos e por ter começado a freqüentar os encontros com a equipe de psicologia, Torres, que já mostrara ter potencial para o atletismo, aperfeiçoou seus movimentos, aprimorou sua capacidade de foco e atenção, optou pelas modalidades de resistência e começou a conquistar um melhor rendimento tanto nos treinos, quanto nas competições. Aos poucos, Torres passou a ser reconhecido por seus companheiros de treinos como referência nas provas e nos treinos de resistência. Ele, que antes era reconhecido apenas por seu estrabismo, obteve uma nova identidade, passou a ser reconhecido por seus resultados e, sobretudo, sua dedicação nos treinos. Acerca do colocado até aqui sobre o jovem, Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008, p.23) acrescentam:

Quando ações realizadas pelo sujeito são bem sucedidas no sentido de serem acolhidas pelo ambiente e legitimadas por ele, elas tendem a se tornar hábitos subjetivos, ou seja, são incorporados aos padrões e esquemas de ações que se tornam “naturais”, que não mais suscitam interrogações.

A RELAÇÃO HORIZONTAL EXISTENTE ENTRE TODOS DA ESTAÇÃO CONHECIMENTO

Antes, Torres estava acostumado, em outras instituições de convívio, a ter suas reações respondidas de forma hierárquica e castradora, sem que ao menos buscassem conhecer sua história pessoal, seu mitologema (HILLMAN, 1997). No episódio ocorrido com seu técnico, a reação deste, apesar de ter ficado assustado e ter demonstrado sua reprovação quanto ao ato realizado, não foi de advertir de forma desmoralizante. Pediu apenas que parasse de treinar e esperasse para que conversassem depois. Durante a conversa, seu técnico perguntou o que acontecera e porque fizera aquilo, no intuito de dar continência aquela reação inadequada. Esse e outros episódios fizeram com que Torres percebesse que a Estação Conhecimento se tratava de uma instituição diferenciada. Um local onde o que importa é o sujeito Torres, sua história, seus anseios, seus sentimentos e seus desejos. Um local onde as relações entre todos se faz de forma dialética e horizontal. Sobre isso, diz Silveira (1981, p.75) “A volta à realidade depende em primeiro lugar de um relacionamento confiante com alguém, relacionamento que se estenderá aos poucos a contatos com outras pessoas e com o ambiente”.

Ainda há muito que ser feito no caso Torres. Porém, a relação com o esporte, com os professores, como os outros atletas e principalmente com ele mesmo já se transformou.

CONCLUSÃO

Posto tudo isso até aqui, percebe-se a constituição de sujeito como algo potencialmente inerente ao ser humano sob a ação das estimulações externas, das figuras externas, as quais possuem algum tipo de influência. A partir dos relatos de caso e os colocando a luz do levantamento teórico previamente realizado, fica bastante evidenciada ação que as figuras cuidadoras e, sendo mais específicas, as figuras maternas e paternas participam ativamente deste processo de construção de um sujeito.

Ainda, tem-se evidenciado em caráter coadjuvante a ação de um projeto sócio-educativo-esportivo como um mecanismo de opção para “complemento” ou, até mesmo, uma efetiva apresentação de valores e objetivos construtivos para um jovem carente material, afetivo e moralmente falando. Os profissionais ali envolvidos acabam por assumir inconscientemente parte dessa função.

Por fim, se apresenta o olhar e ação do Psicólogo e suas nuances de ação mediante às necessidades colocadas pelas situações institucionais e pelo público, o qual procura por ajuda na Estação Conhecimento. Este profissional portador de uma teoria de ser humano, ao qual abrange um olhar biopsicossocial, acaba por se tornar um elemento necessário para compor a equipe multidisciplinar da instituição, na medida em que ela mesma é algo novo e em processo de construção e bastante motivada a somar em seus públicos alvos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECKER JUNIOR, Benno. La Psicologia Del Ejercicio Y Del Deporte em Brasil Y América Del Sur,inRevista de Psicologia del Deporte, v. 10, n. 2, p. 249-253, 2001

BEZERRA, Junior. Benilton. & MILMAN, Lulli. A Casa da Árvore – uma experiência inovadora na atenção à infância. 1.ed. Rio de Janeiro: Garamond Ltda. 2008. 224p.

CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. 2. ed São Paulo: Publifolha, 2009. 81p.

HILLMAN, James. O Código do Ser – Uma busca do caráter e da vocação pessoal. 1.ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda., 1997. 353p.

RÚBIO, Kátia. O Atleta e o Mito do Herói – O imaginário esportivo contemporâneo. 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. 225p.

SILVEIRA, Nise. Da IMAGENS DO INCONSCIENE. 1.ed. Rio de Janeiro: ALHAMBRA. 1981 346p.

WINNICOTT, Donald Woods. Natureza Humana. 1. ed.Rio de Janeiro: Imago, 1990. 222p.

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