OS CONTOS DE FADA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL. UM CASO CLÍNICO

OS CONTOS DE FADA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL.  UM CASO CLÍNICO

Por: Rodrigo Pieri

Introdução

Durante o primeiro semestre do ano de 2007, tive a oportunidade de compor o quadro técnico da equipe multidisciplinar, coordenada pelo Dr. Jairo Werner. A equipe atuava, e ainda atua, no ambulatório infantil da Universidade Federal Fluminense. Na época, além da minha presença como psicólogo, havia uma psicanalista, duas psicopedagogas, dois psiquiatras, uma terapeuta corporal, dois estagiários de medicina, dois técnicos de informática e uma voluntária, que acabara de ingressar no curso de Psicologia.

Nosso público era toda e qualquer criança atendida pela equipe de psiquiatria e encaminhada para o projeto “Tendas da Inclusão”. Temos aqui duas características do projeto: não havia criança acolhida pela equipe sem acompanhamento psiquiátrico inicial e não havia um diagnóstico específico para que a criança pudesse participar.

Desta forma, as “Tendas da Inclusão” recebiam crianças com as mais diversas queixas: abandono familiar, dificuldade de aprendizado, déficit cognitivo, esquizofrenia, autismo etc. Nossa preocupação não era com a cura, mas sim uma aceitação das características de cada indivíduo. “A condição dessa ajuda é uma aceitação da depressão, e não a ânsia de curá-la”.[1] O que determinava ou não sua participação no projeto, ou qual Tenda seria recomendável sua participação, era a prescrição psiquiatra.

As crianças contemporâneas estão em contato – de forma direta ou não – com várias realidades e delas apreendem valores e estratégias de compreensão de mundo e de formação de suas próprias identidades pessoal e social. Vivem e interagem intensamente com outras crianças, partilhando experiências, quase sempre em situações mediadas por adultos, mas fazem-no de forma singular, ressignificando a cultura que lhes é apresentada, apropriando-se, reproduzindo e reinventando o mundo.[2]

As manhãs de sexta tinham a seguinte sequência: as crianças ao chegarem, dirigiam-se para a sala dos computadores e recebiam aula de inclusão digital; depois, eram convidadas a participar da tenda dos contos de fada, enquanto era oferecida para os responsáveis presentes a atividade de terapia corporal; em seguida, as crianças dirigiam-se para a “Tenda do Corpo”, enquanto seus responsáveis eram recebidos na “Tenda da Cidadania”, onde uma psicanalista e um estagiário de medicina os atendiam e organizavam debates pautados no dia-a-dia de cada famílias presente.

O psiquismo não pode ser pensado como apartado do corpo, nem do ambiente físico ou do mundo cultural que ele habita. Ao contrário, a emergência do sujeito e o processamento da experiência subjetiva se dão na interação permanente do indivíduo com o ambiente humano e simbólico que o circunda[3].

Desta forma acreditamos na eficiência de um ambulatório infantil, a partir da presença de uma equipe multidisciplinar e em um local onde os pais (responsáveis) dessas crianças também possam ser acolhidos.

A proposta desta exposição é apresentar o histórico clinico de um dos participantes daquele Projeto e, através da análise do caso, relatar a evolução dele no grupo e como essa evolução refletiu no seu desenvolvimento pessoal.

Para tal, teremos como principal foco a sua participação na tenda do conto de fada Conta que te Conto, destacando sua relação com o mundo imaginário dos contos – seus personagens, as sagas e as fantasias oferecidas –, com as outras crianças e com os técnicos da atividade.

Apresentaremos, então, o histórico clínico de um menino de sete anos de idade, morador de Niterói, filho de dois portadores do vírus do HIV+. Seu pai faleceu antes mesmo de seu nascimento e a mãe apresentava uma característica de ser “terrivelmente” protetora, devido aos traumas de sua própria história de vida. Ela proíbe que o filho tenha contato com qualquer pessoa, mantendo-se sempre presente, seja na escola, na vizinhança ou em qualquer lugar que ele estivesse.

Por essa razão, excessivos desvios individuais da norma, no bom ou no mau sentido, são danosos. Os efeitos de atenção demais ou de atenção de menos dada à criança são igualmente negativos. Distúrbios na vida da mãe, doenças, choques e traumatismos psicológicos são desvios de constelação arquetípica da relação primal e podem lesar ou bloquear o desenvolvimento da criança[4].

O menino, a quem chamaremos de Charles, fora encaminhado para o ambulatório por apresentar comportamento agressivo e inquietação psicomotora.

A escolha dos contos de fada como ferramenta terapêutica surge, principalmente, pelas características próprias desse recurso literário. Edgar Morin, em uma palestra na Candido Mendes, no Centro Rio de Janeiro, em Julho de 2009 destaca: “A psicologia nos apresenta apenas a radiografia do sujeito. A literatura é a única forma de conhecermos o homem como um todo”.

Os contos de fada são histórias contadas há muitos anos, por varias civilizações, culturas e tribos. Não é necessária nenhuma capacidade intelectual específica para compreendê-los, Eles possuem linguagens simples, diretas e de fácil acesso.

(…) sem que percebamos, essas estórias falam da realidade do ser humano, de sua busca, de seus traumas e dificuldades ao lidar com papai e mamãe, de seu desejo de ser herói, dos monstros que ele às vezes sente que tem de combater durante a vida. [5]

Na narrativa de um conto, não há um pedido para que se acredite de forma objetiva no que esta sendo dito, mas sim uma possibilidade que essa narração possa, de maneira simbólica, atingir áreas para o além do consciente do ouvinte, já que os contos carregam acontecimentos que se espelham com a intimidade de cada psique. Isto é, aquilo que Carl Gustav Jung considerou como os conteúdos do inconsciente coletivo, chamando-o de Arquétipos.

Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é encontrada no mito e nos contos de fada. Aqui também, no entanto, se trata de formas cunhadas de um modo específico e transmitidas através de longos períodos de tempo.[6]

Além dos ensinamentos que os contos têm para nos oferecer, analisaremos, também, a importância da relação de um sujeito com o outro e as possibilidades de uma criança poder elaborar e contar sua própria história.

E isto depende não de alguma competência psicológica para explorar fontes abissais de inspiração do interior de cada um, mas da possibilidade de brincar, de não se prender excessivamente aos hábitos (impregnados em imagens, atos, significados, expectativas) e de poder explorar, com confiança, as possibilidades de ampliação de seu horizonte de ação.[7]

O trabalho pretende nos mostrar também a dificuldade que há para uma criança “perceber” que o mundo que sua mãe apresenta é repleto de falhas, perigos e insatisfações. Além de ilustrar que assumir os próprios desejos e as responsabilidades de ser dono de seu próprio mundo, para assim poder escrever e contar sua própria história, também não é uma tarefa das mais fáceis. Para tal é necessário um esforço quase heróico, esforço esse encontrado em diversos contos de fada.

Para a realização de tal processo, entendemos que a construção de um espaço acolhedor é necessária onde a criança possa vivenciar e se defrontar com os medos e frustrações.

Por fim o presente trabalho pretende apresentar como os contos de fada, o desenho, o contato com outras crianças, a transferência e a contratransferência, o contato com o mundo imaginário e a arte de (re) contar sua própria história pode auxiliar uma criança no seu processo de desenvolvimento.

Importante destacar que, ao fim de cada narração de um novo conto era distribuído para as crianças material de desenho, para que pudessem expressar e ilustrar as fantasias identificadas através da história apresentada.

Na pintura, através do manuseio dos pincéis, lápis de cor, caneta e de outras ferramentas para desenho, o sujeito pode dar forma às suas emoções produzindo aquilo que não consegue verbalizar, através da linguagem simbólica.[8]

Por fim, perguntávamos sobre os desenhos e sobre o que acharam do conto.

Quando o contador dá tempo às crianças de refletir sobre as estórias, para que mergulhem na atmosfera que a audição cria, e quando encorajadas a falar sobre o assunto, então a conversação posterior revela que a estória tem muito a oferecer emocionalmente e intelectualmente.[9]

Os Encontros

No primeiro encontro, que ocorreu no dia 02/03/2007, optamos por nos apresentar, apresentar a atividade e pedi para que se apresentassem. Nesse dia tínhamos presentes Charles e mais uma menina. Finalmente, pedimos para que em conjunto contassem uma história.

Durante o encontro Charles transitou pelo espaço, querendo brincar com todos os brinquedos presentes, apresentando dificuldade de compartilhá-los com a colega. Quanto à história contada, Charles foi um dos principais narradores. Enquanto brincava contava a história. Neste primeiro encontro a equipe apenas observou, sem interferir na história.

“Uma moça loira, com um vestido longo azul, que tinha uma cintura enorme. Essa moça, que morava num castelo, queria ir a uma festa que estaria acontecendo ali pela redondeza, mas sua madrasta não permitia, dizia que ela tinha que faxinar o chão, lavar as roupas e as louças. Essa moça se chamava Cinderela.

Para essa mesma festa havia uma outra moça que morava no topo do morro e que tinha um cabelo enorme, ela queria muito ir, mas tinha um problema, estava presa nesse morro e não havia maneira de se libertar, a não ser pelos cabelos.

E lá, no fundo do mar, havia uma sereia, uma pequena sereia, que sonhava ter pernas e poder caminhar até a festa, conhecer um príncipe casar e ser feliz para sempre.

A única que acabou conseguindo ir à festa foi Cinderela, pois sua madrinha a ajudou a arrumar tudo que tinha como tarefa. Na festa ela conheceu um príncipe, que se apaixonou por ela, eles casaram e viveram felizes para sempre. Ela nunca mais teve que fazer coisas que sua madrasta mandava.

Quanto às outras duas, elas também encontraram seus príncipes, uma em cima do morro e outra debaixo do mar.”

Vemos aqui uma união de três contos e a presença constante da figura feminina.

Para o segundo encontro selecionamos A Rã Encantada, conto esse que, entre outras coisas, fala sobre limites e acordos entre uma menina e uma rã, desta vez o grupo já era maior, novas crianças foram encaminhadas pela equipe psiquiátrica. Charles, de início, teve muita dificuldade de aceitar as regras da atividade (horário, local, compartilhamento de material etc.), além de tentar chamar atenção da equipe técnica só para si. Mas isso foi logo contornado quando convocamo-no para ajudar na narração do conto, ilustrando os detalhes. Por exemplo, qual refeição a menina teve no jantar, ou como era a batida na porta que a Rã fazia. No fim, ao perguntar qual parte cada um havia gostado mais, Charles, assim como as outras crianças, preferiu a parte da mutação, quando a rã se transformou em príncipe, sendo que a transformação só ocorre no momento em que a menina consegue expor toda raiva e agressividade que está sentindo e joga a rã na parede.

Charles não veio na semana seguinte e, no dia do seu retorno, a história escolhida era Os Três Porquinhos. Charles, por já conhecer a história, se sentiu mais à vontade em ajudar a contá-la, o que acabou influenciando as outras crianças presentes (sempre encaminhadas pela equipe de psiquiatria. O grupo se construiu ao longo dos encontros) a fazer o mesmo.

Para semana seguinte o conto selecionado foi O Gato de Botas. Antes de começar a atividade, Charles me perguntou se poderia ser meu ajudante para contar as historias, respondi que não só ele, mas que todos poderiam, pois eu precisava da imaginação de cada um para conseguir contar.

Duas semanas se passaram, pois tivemos feriado e, no encontro seguinte, o único presente era Charles. Optamos então por deixar que o próprio nos contasse uma historia. Demos algumas folhas de papel e canetinhas e o deixamos à vontade.

Charles começou desenhando um mar e de imediato narrou:

Era uma vez um mar, e nesse mar havia um barco, um barco com muita comida, um barco de uma família muito alegre. Neste barco tinham 25 quartos. (nesse momento Charles desenha um barco com muitos quartos).

Num certo dia ensolarado, com muitas nuvens bem bonitas que chegavam perto do sol (enquanto contava ia desenhando o sol e as nuvens). Doze pessoas dessa família foram tomar banho de mar. Essa família era de 25 pessoas, e só um, o Rafael não estava no mar, mas sim lá em cima, no último andar do barco, fazendo ginástica e tomando sol. (Charles desenha a família no mar e o Rafael fazendo ginástica. Para em seguida começar a desenhar na parte de trás da folha).

Quando já estava de noite e todos estavam nos seus quartos dormindo em um outro barco, no barco de Moises, um barco tão lindo. – Cada quarto desse barco tinha uma cor, mas a cor que o barco mais tinha era o vermelho (Charles desenha o barco colorido de Moises) – de repente apareceu uma fada madrinha, a fada dos desejos para realizar todos os desejos de Junior. Junior era o mais novo da família, tinha 08 anos e estava muito triste, porque ele dormia no chão, não sabia nadar, não tinha televisão, não tinha Play Station, enfim, não tinha nada para brincar ou fazer. As outras crianças, que tinham todos os brinquedos, não gostavam dele, porque ele era uma criança bem quietinha, e as outras crianças, O Rafael de 16 anos e o Bruno de 39, eram bagunceiras.

O Junior pediu para que tudo que imaginasse se tornasse verdade, e ele imaginou uma sereia e o Super Homem (Charles que também tem 08 anos desenhou o Junior, a fada dos desejos, a sereia e o Super Homem).

No dia seguinte, (nesse momento Charles pede mais uma folha e desenha um outro barco todo preto e listrado) quando o sol estava bonito a família de Junior encontrou outras quatro famílias, num outro barco e todos falaram assustados:

– Caramba!!! Como chegamos nesse outro barco?!?!

– Junior como você conseguiu esses brinquedos?!?!?! Esse play station?!?!?!

E Junior respondeu:

– Basta eu imaginar e tudo acontece, mas isso é só comigo.

Todos ficaram amigos dele e no dia vinte e dois de dezembro todos foram na sua festa de aniversário e ele se tornou muito feliz (Charles também faz aniversário no dia 22 de dezembro).

Quando acabou de contar, me pediu para que escrevesse a palavra Fim bem grande.

A cada semana um novo conto era narrado. Contos com diferentes temas e propostas, mas foi no dia 18 de maio que encontramos a primeira rejeição de Charles. Antes mesmo da atividade, quando fomos chamá-los na sala de informática, batera o pé dizendo que não queria participar. Como a atividade é democrática dissemos que ele não precisava participar, mas não poderia ficar na sala de informática, pois iríamos fechar a porta.

Começamos a atividade sem ele, no meio da narrativa Charles resolveu entrar, mas ficou inquieto, tentando chamar a minha atenção. Ao perceber que eu continuei com a narrativa, ele começou um movimento de entrar e sair da sala até que no final optou por ficar. Ao fim da atividade Charles já estava sentado no circulo com todo mundo e pediu para que eu contasse a historia para ele. Perguntei se alguém poderia contar e um outro colega do grupo tomou a iniciativa. Charles ouviu atentamente. Após a atividade Charles e uma outra criança do projeto se estranharam. Ao perceber que o menino estava muito agressivo, Charles começou a provocá-lo. Mas rapidamente a equipe apaziguou os ânimos.

A dinâmica da atividade se manteve nas semanas seguintes e, no meados do mês de junho, Charles ao perceber que o conto selecionado era curto e que ainda havia tempo para atividade, pediu para contar uma história. Desta vez ele não era a única criança presente, mas isso não o intimidou.

Era uma vez o “Efalante”, ele era um elefante que falava. Tinha apenas oito anos e tinha muito medo de tudo, pois todo mundo falava para ele que os “outros” faziam muito mal, mas no fim ele acaba percebendo que ele pode fazer amizade, com os “outros” que são da turma do Ursinho Puff.

É inevitável fazer uma comparação entre o Efalante e o próprio Charles, principalmente no contexto em que ele, Charles, não se relacionava com outras pessoas, pois, segundo sua mãe, os outros faziam muito mal. Charles só podia se relacionar com a própria mãe e com Deus.

Enquanto narrava à história, Charles desenhava os personagens de seu conto.

Após esse episódio ele ficou um mês sem retornar ao ambulatório. No dia de seu retorno repetiu seu movimento de querer toda atenção da equipe só para ele e mais uma vez pediu para contar uma história. Era um livro do Homem-Aranha, mas desta vez não conseguiu dar fim a ela. Combinamos então que ele terminaria em casa e traria quando estivesse pronto.

Uma semana depois voltou a querer atenção só para ele. Durante a atividade ficou tacando pedra no castelo e chamando meu nome. Depois me disse ter ficado chateado, pois sua mãe havia o deixado ali e tinha ido embora (ela havia ido ao hospital pegar remédios).

Outro episódio de briga, com o mesmo menino da vez anterior, ocorreu na semana seguinte. Desta vez Charles machucou o nariz. Curioso que o conto do dia era O Tapete Mágico, onde há três objetos mágicos (um tapete que leva a pessoa para qualquer lugar, uma maça que cura tudo e um binóculo que enxerga a qualquer distância). Pedimos para que cada um escolhesse um objeto. Charles escolheu a maça, disse que ia dar para mãe cheirar e assim ela não tomaria mais remédios.

Três encontros depois Charles trouxe o livro do Homem-Aranha finalizado e fez questão de mostrá-lo só para mim. Parecia estar muito orgulhoso de sua história e aliviado também.

O desenvolvimento clínico

Charles chegou ao ambulatório trazido por sua mãe. Esta estava assustada com o comportamento agressivo do filho. Importante lembrar que por ter contraído o soro HIV+ em uma relação onde se julgou enganada, pois não sabia que seu par era portador, ela se afasta de seu meio social e apresenta o mundo, para o menino, como um lugar de pessoas maléficas e desonestas.

Segundo minha experiência, parece-me que a mãe sempre está ativamente presente na origem da perturbação, particularmente em neuroses infantis ou naquela cuja etiologia recua até a primeira infância. Em todo caso, é a esfera instintiva da criança que se encontra perturbada, constelando assim arquétipos que se interpõem entre a criança e a mãe como elemento estranho, muitas vezes causando angústias[10].

No caso de Charles, sua mãe utilizava sempre da bíblia e seus personagens, como únicos objetos dignos de relação. O mundo então construído era composto apenas por ela, Charles e pelos elementos bíblicos.

A criança é o deus companheiro da Grande Mãe. Como criança e como Cabir, ela se situa ao lado e debaixo dela como criatura dependente. Mesmo para o deus jovem, a Grande Mãe é o destino. Quanto mais para a criança, cuja natureza é pertencer à mãe e ser parte dependente da vida dela![11]

Nos quatro primeiros encontros narrados acima é visível o desejo em Charles de poder criar a sua própria história, a sua própria forma de se relacionar com o mundo e “cortar o cordão umbilical” com sua mãe. Mas para isso a equipe deveria estar atenta, não só em suas atitudes, mas também nas escolhas dos contos.

Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações, reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam.[12]

Foi no quinto encontro, quando Charles era única criança presente, que vimos à oportunidade para que ele enfim pudesse contar um pouco da sua história.

A ação, na verdade, se desdobra em duas dimensões fundamentais na relação do sujeito consigo próprio e com o mundo: a estabilidade e a precariedade, ou seja, preservação e a mudança. Ela se expressa dinamicamente, portanto, na tensão entre o hábito e a criação, entre ações que garantem a estabilidade das imagens de si e do mundo, preservando certas referências identitárias, e atos criativos ou inovadores, que criam novas maneiras de o sujeito se ver e se descrever no mundo – instituindo, assim, novas formas de agir como sujeito frente às expectativas sociais que o cercam, e frente ao seu próprio desejo[13].

São inúmeras as correlações que podemos fazer entre a história vivida por Charles e a história por ele contada: Data de aniversário, a criança que não tem amigo, o nome do barco onde ele se encontra e tantas outras. Há também algumas correlações que podemos fazer entre a história contada e a atividade dos contos. De imediato destaco duas: o nome de um dos integrantes é o mesmo nome da criança de 39 da história e a frase “basta eu imaginar que tudo acontece” era a forma que respondíamos à frequente pergunta que as crianças faziam durante os contos: mas isso existe mesmo?

A sua rejeição em participar da atividade em algumas semanas, as repentinas brigas que teve com o colega e o medo que sentiu no dia que sua mãe se ausentou são facilmente entendida quando comparamos com as analises encontradas no livro de Erich Neumann: A História da Origem da Consciência (1968), por exemplo, na página 48 ele diz:

A criança também experimenta essa mesma indefinibilidade do mundo; ela ainda não é capaz de se orientar com consciência e de reconhecer o mundo e enfrenta cada evento como se fosse uma devastadora inovação, estando exposta a todos os caprichos do mundo e dos homens (…) Esse terror é expressão da situação presente na alvorada do mundo, onde uma pequena e frágil consciência do ego se vê diante do gigantesco mundo (…) Por isso, o medo é um fenômeno normal na psicologia da criança.

Essa indefinibilidade e a, ainda, frágil consciência do ego citada por Neumann também encontramos na terceira história contada por Charles. Esta já na presença de outras crianças. Onde o personagem principal, novamente com traços similares ao próprio narrador é um elefante falante. Ou seja, meio homem, meio animal.

A figura do animal indica que os conteúdos e funções em questão ainda se encontram na esfera extra-humana, isto é, num plano da consciência humana participando consequentemente, por um lado, do sobre-humano demoníaco e, por outro, do infra-humano animal.[14]

Seguindo Winnicott, acreditamos que nossa investida quanto à possibilidade de Charles poder fantasiar e construir sua própria história estava correta.

A solução para os problemas da ambivalência inerente surge através da elaboração imaginativa de todas as funções; sem a fantasia as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra. A fantasia prova, deste modo, ser a característica do humano a matéria-prima da socialização e da própria civilização.[15]

Para acolher Charles nessa nova construção de mundo nos apoiamos principalmente nas novas relações que eram criadas através dos encontros semanais, não só com os membros da equipe, mas também com as outras crianças. Isto nos pareceu surtir efeito quando ele contou a história do Efalante e seu encontro com a turma do Ursinho Puff.

Quando ações realizadas pelo sujeito são bem sucedidas no sentido de serem acolhidas pelo ambiente e legitimadas por ele, elas tendem a se tornar hábitos subjetivos, ou seja, são incorporados aos padrões e esquemas de ações que se tornam “naturais”, que não mais suscitam interrogações.[16]

Mas Winnicott nos alerta que não se trata de um basta querer

Para funcionar como terapia (…) a criança precisa ganhar confiança no novo ambiente, em suas estabilidades e em sua capacidade de objetividade antes de se desfazer de suas defesas – defesas contra uma ansiedade intolerável, que poderia ser novamente desencadeada por uma nova privação.[17]

Desta forma, com um ambiente acolhedor e “encorajador”, através de seu contato com o mundo arquetípico dos contos de fada e uma possibilidade de novos relacionamentos, Charles conseguiu elaborar e contar a sua história. Uma história que ganhou até livro, personificado no papel de Homem-Aranha, uma história que ecoa aqui neste trabalho.

Por meio do ato heróico da criação do mundo e de divisão entre os opostos, (…) Com o surgimento do ego, a situação paradisíaca é abolida; a situação infantil, na qual algo maior e mais amplo ordenava a vida e a dependência com relação a ele era natural, terminou.[18]

Por fim, quero dizer que nesse trabalho não há um movimento de culpar a mãe quanto os comportamentos agressivos e inquietação psicomotora apresentada por Charles. Na verdade se não fosse pela própria mãe, Charles não seria atendido no ambulatório. O que tento descrever é como o trauma dessa mãe se codificou na forma de amar o seu filho, sem esquecer que esse filho é um dos dois frutos do encontro com o pai de Charles. O filho e a Aids.

O amor não é só uma questão de contato afetivo. O amor reúne em si os impulsos instintivos de raiz biológica, e o relacionamento que se desenvolve entre um bebê e uma mãe carrega consigo idéias de destruição. É impossível amar de modo livre e pleno sem ter idéia destrutiva[19].

O investimento de sua mãe e a importância desse investimento pode ser percebido no fato que ela sempre participou da Tenda da Cidadania, citada no início desse trabalho, além de seu esforço descomunal de levar Charles ao ambulatório. Por causa dela e de seus esforços o trabalho com Charles pode ser realizado.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

BETTELHEIM, B. (2003) A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra

Bezerra Jr., B. & Milman, L. (2008) A Casa da Árvore – uma experiência inovadora na atenção à infância. Rio de Janeiro: Garamond Ltda.

Bonaventure, J. (2008) O que Conta o Conto? São Paulo: PAULUS.

Fordham, M. (1994) A Criança Como Indivíduo. São Paulo: CULTRIX

Jung, C.G (2000) Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Editora Vozes

Neumann, E. (1968) História da Origem da Consciência. São Paulo: Cultrix.

PIERI, R de V. (2005) O Conto de Fada da Casa das Palmeiras. Trabalho de conclusão de curso de graduação em psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Sarmento, M. J. & Vasconcellos, V. M. R. de (2007) Infância (In)Visível. Araraquara: Junqueira & Marin Editores

Winnicott, D. W. (1990) Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago Editora.

Winnicott, D. W. (2005) A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo: Martins Fontes.


[1] Winnicott. D. W (2005) pág. 88

[2] Vasconcellos. Vera Maria de & Sarmento. Manuel Jacinto (2007) pág. 8.

[3] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 21.

[4] Neumann. Erich (1968) pág. 19.

[5] Bonaventure. Jette (2008) pág. 12

[6] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 17

[7] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 22.

[8] Pieri, de Vasconcellos Rodrigo (2005) pág. 13

[9] Bettelheim Bruno (2003) pág 75

[10] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 94

[11] Neumann, Erich (1968) pág. 50

[12] Bettelheim, Bruno (2003) pág. 13

[13] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 22

[14] Jung, Carl Gustav (2000) pág. 226

[15] Winnicott, D, W (1990) pág. 78

[16] Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008) pág. 23

[17] Winnicott, D, W (2005) pág. 199

[18] Neumann, Erich (1968) pág. 94

[19] Winnicott, D, W (2005) pág. 87

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2 responses to this post.

  1. Rodrigo
    Não vou dizer que fiquei surpresa, porque sempre vi vc com esse potencial.Só hoje vi seu blog, lindo, responsável, útil.
    Parabéns!!!
    bjs Eliane, mãe do Vitor e da Maíra

    Responder

  2. Posted by Ana Luiza on 13 de maio de 2014 at 13:39

    Rodrigo, Boa Tarde!
    Peguei este caso clínico para apresentar em sala e gostaria de saber o nome do psicólogo responsável por este caso. Se for possível me enviar, agradeço!
    Obrigada!

    Responder

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