Algumas consequências psicossociais da indistinção entre o que é ciência e o que não é (*)

alquimia2-752x400Thiago Bruno Santos da Silva (**)

 

Este trabalho vem no curso de algumas coisas que venho pensando e trabalhando sobre o campo da atenção psicossocial, que é sua relação com a ciência. Se nem sempre nos parece obvio que a eficácia da Reforma psiquiátrica brasileira se expressa na melhora nítida e demonstrável na qualidade de vida da população local a qual tem responsabilidade territorial por atender, uma vez mais é o caso de dizer e ir um pouco além: Em que e aonde ela está autorizada desde seu lugar a dizer o certo do errado no campo ampliado dos cuidados e dos debates em saúde? Penso que seja possível partilhar com vocês que é em seu caráter cientifico que ela extrai sua consequente participação nessa matéria. Se é verdade que Reforma psiquiátrica e o campo da atenção psicossocial são uma subversão e reordenamento político no laço social para o tratamento historicamente reservado às loucuras via isolamento e segregação, igualmente verdade são os princípios metodológicos e científicos construídos que dão sustentação real a possibilidade de tal subversão.

 

Gostaria para esse trabalho de trazer uma relação entre atenção psicossocial e uma tendência por vezes interna das próprias equipes a se distanciar do campo clínico, científico e do debate ampliado, estes que justamente sustentam sua práxis. Fui membro de uma equipe que se via lançada no caos em função de não ter supervisão clínico-institucional diante do atendimento a casos complexos. Nesse estado de coisas em um CAPS encontram-se as condições concretas para sua demolição a partir de dentro por sua distância da clínica, da ciência e seu debate. Isso caminha para o caos e um desmonte interno, por uma oposição que vai de encontro ao desmonte externo que o SUS e a Reforma Psiquiátrica sofrem desde o governo Temer. Sem supervisão um CAPS pode ser um caos ou se burocratizar em protocolos de atendimento infinitos.

 

(*) trabalho apresentado na VIII semana da Psicologia e I Encontro da Pós-graduação em Psicologia na Universidade Federal do Mato Grosso  – UFMT na mesa Psicanálise e saúde mental no dia 26 de Julho de 2019

(**) psicanalista – membro do Laço analítico/ Escola de psicanálise sub-sede Cuiabá. Professor da Universidade de Cuiabá – UNIC, membro da equipe Psicanálise na rua em Cuiabá

Para tal empreitada trago uma breve história recente da ciência contemporânea e suas consequências políticas e subjetivas em alguns países do mundo. Se trata de uma curiosa hipótese em um estudo envolvendo a causalidade do autismo e algumas repercussões no mundo.

 

Foi em 1998, que um médico britânico Andrew Wakefiled popularizou o que ficou conhecido como o mito da ligação entre autismo e vacinas. O então médico e sua equipe na pesquisa trabalharam com uma curiosa hipótese de um vínculo causal entre a vacina que atua como proteção contra sarampo, rubéola e caxumba (a MMR) à graves problemas intestinais, estes por sua vez levariam a uma inflamação no cérebro, causando com isso inclusive o autismo.

Essa vacina está no grupo de aplicação do vírus vivo atenuado, conhecida como tríplice viral é aquela de aplicação cotidiana aqui no Brasil e no mundo, em duas doses a crianças de até os 12 meses, seguida da segunda dose aos 15 meses e revacinada a vida escolar dos 4 a 6 anos.

 

O ano como disse era 1998, a pesquisa discorria sobre o caso de 12 crianças, descritos como apresentando graves problemas intestinais e comportamentos autistas, todas com vestígios de sarampo publicado na renomada revista Lancet. 11 delas haviam sido vacinadas com a MMR, e eles chegam a uma peculiar vinculação prenhe de consequências tão amplas no campo social na mesma proporção de sua aproximação do falso. Encontrei registros de que o médico afirmava se tratar apenas de uma hipótese, mas a consequência psicossocial imediata foi uma queda dos índices de vacinação na Inglaterra e em outros países na Europa.

 

No primeiro trimestre de 2017 foi registrado uma epidemia de sarampo em função da queda da imunização via MMR, a população recuava da aplicação de vacinas. Se em 2016 os registros localizaram mais de 5000 pessoas infectadas com sarampo, o número em 2017 foi para mais de 21000, portanto um aumento de mais 400% divulgados pela OMS em 20 de fevereiro de 2018.

 

Poucos anos depois da popularização do estudo, nos Estados Unidos uma hipótese análoga vinculava a causação do autismo a vacinas não com o MMR, mas com o timerosal, este consiste de uma dose mínimo de 25 gramas de mercúrio por 0,5 ml, este atua como elemento protetor contra fungos e bactérias que compõe algumas vacinas, principalmente aquelas que exigem mais de uma dose. A Fiocruz aponta que a OMS defende o uso do componente nas vacinas apoiada em pesquisas que mostram claramente que não há coisa alguma até então que vincule a aplicação da pequena dose mercúrio no corpo pós vacinação a algum dano à saúde. O mercúrio, portanto, não se acumula em repetidas injeções e é expelido rapidamente pelo organismo.

 

Na Dinamarca o timerosal já havia sido retirado das vacinas desde 1992 e o autismo não parava de aumentar em sua população, reforçada por outra análise dessa vez na Califórnia aonde o timerosal foi retirado das vacinas nos anos 2000 e o autismo também aumentou, contrastando frontalmente com a curiosa hipótese, mas sendo ineficaz quanto a suas consequências sanitárias danosas para inúmeras populações que passaram a adoecer de uma doença facilmente combatida.

 

Esses estudos, dados e múltiplas pesquisas em torno do autismo e suas supostas causalidades tem sido objeto de tratamento de pesquisa de inúmeros campos do saber que circunscrevem o contexto contemporâneo que decidiu tomar o autismo como um grande mal a ser combatido, para além do enigma de sua causa. Acompanhemos e tentemos ler com aquele que lê o mal a ser pesquisado aí.

Um signo é aquilo que representa algo para alguém, como Lacan nos ensina. Se atentarmos a distância fumaça saindo de algum ponto, nada nos informa precisamente se se trata de um incêndio, um churrasco ou um evento natural ainda não descoberto por nós. Nada senão o signo do que entendemos acontecer ali antes mesmo de saber do que se trata é dado a nossa apreensão imediata, e reagir bem ou mal diante desse entendimento sobre a realidade que é o signo é uma de suas consequências esperadas.

Qual os signos que estes estudiosos enxergam quando olham para tais dados que encontram? Faço a suposição de que é o próprio autismo enquanto o signo da catástrofe anunciada para a vida do sujeito e sua comunidade. O porque convém interrogar agora.

 

Afinal, como esse que é o propositor da pesquisa encontra como ponto axial de sua leitura um signo dessa ordem? Lembrando que é este (o signo) que o informa de sua hipótese a ser verificada, e não o contrário. Logo, não há nada a se verificar no campo real aonde o tratamento de um sujeito autista acontece, como num CAPS, CAPSi, consultórios de inúmeros pediatras, fonoaudiologistas, terapeutas ocupacionais, psicanalistas e outros. Este (aonde acontece o tratamento real) é o campo que é esvaziado de importância na investigação clínica e científica de pesquisas como essa. Sobre o sujeito se aplica um signo que paire a cabeça do pesquisador, pois se entende que do sujeito ou com ele coisa alguma pode ser extraída que o valha para a ciência. Eis uma das razões que fazem com que a Reforma justamente por ser rigorosamente cientifica alvo de um desmonte que atinge o SUS, o SUAS, a educação pública e por princípio, a própria ciência. Desmonte que lhe antecede e continuará ao que tudo indica enquanto a ordem do capital for vigente.

 

Afinal, o que orienta tenazmente uma hipótese como essa que vincula autismo as múltiplas coisas que caiem na cabeça de qualquer um senão somente o lugar preciso em que está a cabeça desse um qualquer? Qual o fio lógico que tem permitido um ordenamento tão peculiar as pesquisas quando se trata de autismo?

 

Admito aqui a justa e necessária intervenção de algumas condições epistemológicas para balizar o campo cientifico ao qual tal pesquisa se refuta a apresentar, nos termos de Karl Popper (1974):

 

Uma ousadia de prever, associado à disposição de buscar testes e refutações, é o que distingue a ciência “empírica” da não ciência e, em especial, dos mitos pré-científicos e da metafísica.

(pg. 121)

 

Por referência ao campo epistemológico e não sem ele, temos condições de dizer que não é ruim ou impróprio partir de uma hipótese como a desse grupo de pesquisadores desse médico britânico mesmo com toda arbitrariedade e abstração que lhe é peculiar, por oposição a um tratamento real de sujeitos autistas em CAPS, CAPSis e consultórios de psicanálise. Toda pesquisa parte de uma suposição, uma conjectura e até aí estamos no solo comum a toda ciência, a questão nova que Popper traz é que uma conjectura só é arrojada se ela “assume grande risco em ser falsa” (pg. 118), recusando essa dimensão sequer poderíamos dizer que é de ciência que se trata.

 

Popper nos conduz a Copérnico para dizer que mesmo não propondo experimentação alguma que demonstrasse suas previsões, a teoria heliocêntrica do astrônomo era cientifica pois ousava realizar previsões que se expõem a refutação, e, portanto, permitem inaugurar um campo que não se encerra com a falsa postulação de um dogma incontestável. Ciência é um campo ampliado de longas e diversas conjecturas que se dialogam e não se poupam de refutação via um confronto crítico por sua relação com a verdade.

 

A ousadia do tipo especial que é a do cientista é nas palavras de Popper:

 

Trata-se da ousadia de uma conjectura que corre um risco real – o risco de ser testada e refutada, o risco de entrar em conflito com a realidade (pg. 121)

 

Pois bem, com Popper chegamos a um melhor discernimento mais ou menos partilhado de que vincular como hipótese vacina, doença gastrointestinal e autismo é das menos arrojadas possíveis, não só distantes como avessas ao campo científico por seu apego a uma abstração generalizante distante do concreto que é o tratamento real de um autista em CAPS por exemplo. Temos que essa hipótese se refugia de refutação pois se abstrai da realidade com fins de evitar o conflito, eis, portanto em que uma pesquisa como essa nada mais é que um sintoma. Este é o primeiro ponto.

 

O segundo ponto exigirá conhecermos o fim da história desse estudo. Foi em 2004 que veio a público que antes da publicação em 1998 dos estudos vinculando autismo a vacinação, o médico pesquisador havia realizado um pedido para patentear uma vacina contra sarampo concorrente a MMR. E as coisas foram adiante até onde alcancei em minha pesquisa sobre o assunto, descobriu-se que o médico recebia pagamentos de advogados em processos por compensação de danos provocados por vacinas, e outro fato, um outro médico auxiliar na pesquisa de 98 veio por se manifestar que as 12 crianças testadas não tinham vestígios algum de sarampo, fato ignorado propositalmente pelo médico propositor da pesquisa.

 

A revista Lancet que publicou o estudo em 1998 se retratou publicamente alegando falsa aquela pesquisa. O Conselho Geral de Medicina do Reino Unido julgou o médico “inapto para o exercício da profissão”, entendendo-o como “irresponsável”, “antiético” e “enganoso”. Com Popper acrescentaríamos que isso se trata de uma falsa ciência ou não ciência.

 

Foi procurando o terreno que ampara a ousadia de uma hipótese tão pouco arrojada e cientifica quanto essa que nos encontramos com uma de suas fontes mais ordinárias na disputa por intervenções na ciência que é a ordem do capital. Esse fato ainda nos surpreende? Se na dissonância entre o concreto e o abstrato nas pesquisas estamos suficientemente advertidos e há mecanismos que se empenhem em seu filtro público, ético e metodológico, extraímos o que faz do capitalismo o verdadeiro e único problema real para a ciência aqui. Pesquisas orientadas para o lucro.

 

O outro ponto dessa história é (o que na falta de um nome mais apropriado chamarei de) a construção de uma fobia social que vem responder prontamente para orientação da eleição como objeto fóbico o próprio autismo. Como analista de autistas há alguns anos, venho recolhendo o tortuoso e difícil percurso que familiares (principalmente mães de autistas) vem fazendo após a comunicação do diagnóstico na infância.

 

O percurso é quase típico, a criança inicia a fala e em determinado momento interrompe essa atividade. A escola, o pedagogo, o fono, o pediatra com ou sem tato algum diz do autismo aos pais. Estes entram em pânico e com muita propriedade adentram uma pesquisa interminável que dê um amparo a sua angústia. Esse geralmente é um momento dos mais dolorosos pois não há pai ou mãe que não pense ao menos uma vez que esse significante autismo é o signo de toda sorte de catástrofes possíveis inimagináveis que irão assolar suas vidas e de sua filha ou filho. É preciso tempo na análise de seus filhos e filhas, ou nas suas para que os mesmos verifiquem que a vida segue e não existe relação alguma entre ser autista e levar uma vida miserável. A vida sofre seus rumos trilhando um percurso novo que inclui as particularidades que forem aparecendo por essa condição subjetiva peculiar chamada autista e refinando assim o laço social que segregava a população autista dentro de casa ou nos manicômios.

 

Em termos simples, um sujeito autista não é sinônimo de uma criatura abominável, auto ou heterodestrutiva, ausente de laços presa num mundo interior com cérebro danificado que será hiperdependente nas chamadas atividades da vida diária. O autismo só é fóbico para quem faz dessa condição subjetiva razão de seus temores. E me parece importante dizer que não é orientado para a fomentação dessa fobia social que se pode conduzir as pesquisas sem que intervenham nelas interesses outros que não os da ciência. Em resumo, suspeita é toda pesquisa que se empenha na promoção de uma calamidade pública com hipóteses falsamente cientificas tanto mais se apoia nelas com fins outros. De modo que ousaria prever (no sentido de Popper) que se é nisso que algumas pesquisas se apoiam seus fins já são outros uma vez que não científicos, portanto poucas considerações deveriam merecer mais do que tem recebido senão para demonstrar sua impropriedade.

 

Os manuais de psiquiatria que se querem a-teóricos CID e DSM, tem sua responsabilidade pela pulverização de quadros clínicos agrupados sobre o nome de transtornos sem as distinções precisas da boa psiquiatria clássica, numa tendência rumo a uma psiquiatria exclusivamente medicalizante do comportamento avessa aos princípios metodológicos que se dispõem a pensar um tratamento para o sujeito do alienista Philippe Pinnel, fundador do campo psiquiátrico.

 

Final do século XIX e início do século XX causou em alguns (Freud foi o mais consequente deles) um mistério e curiosidade sem igual ao se descobrir que a hipnose podia tanto produzir quanto retirar os sintomas histéricos, tal como um fato que surpreendeu a muitos em minha equipe do CAPS, quando um paciente autista que nunca falava após considerável tempo de tratamento demonstra que era capazes sim de falar numa assembleia geral em que se decidia a sobremesa da oficina de culinária, mas senão falava todo esse tempo a razão era outra que não tão simplesmente demonstrável através de uma fraca e abstrata hipótese que vincula vacina a autismo, e outras mais atuais que reduzem o sujeito há um desarranjo cerebral, social, nutricional ou neuroquímico. Para isso e é a psicanálise que nos conduz aqui, o autismo tomado como uma posição subjetiva que assim como um sujeito histérico se defende de algo que lhe é extremamente desagradável, é algo que se revela como pertinente e de interesse a ciência, não? Tanto mais a interessa quando verificamos que efeitos como esse surgem de um tratamento dos mais cotidianos e concretos da clínica psicanalítica em consultório ou psicossocial num CAPS a esses sujeitos. Que tem encontrado como efeito em sua pesquisa nos tratamentos, possibilitar ao sujeito ceder um pouco de seu jeito de se defender em sua posição e a rearranjar-se, reposionar-se em seu modo peculiar de fazer laço, que aparecem e podem ser expostos aqui em momentos surpreendentes a uma equipe de CAPS como esse de enunciar uma fala no lugar do silêncio de sempre, manifestando seu voto por um bolo de coco. Demonstrando que o autismo pode ser sim mais que um diagnóstico e menos que um transtorno.

Se a Reforma psiquiátrica no Brasil sobreviver é o ponto capital atual de nossa preocupação frente aos retrocessos neoliberais, que não se esqueça no caminho que uma das condições para sua sobrevivência é ser rigorosamente cientifica quando tudo a incentiva a deixar de ser. Se opondo ao desmonte interno, assumindo a parte que lhe cabe na aliança que por vezes faz ao desmonte mais amplo e geral. Penso que este é verdadeiramente seu ponto nodal e estratégico.

Obrigado

 

Referência:

 

POPPER,Karl. O problema da demarcação (1974). (Org.) MILLER, David. In: Textos escolhidos. Ed. PUC-Rio Contraponto, 2010

Michel Maffesoli e os Junguianos para diálogo

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Michel Maffesoli (Graissessac, 14 de novembro de 1944) é um sociólogo francês conhecido sobretudo pela popularização do conceito de tribo urbana.

Antigo aluno de Gilbert Durand, é professor da Université de Paris-Descartes. Michel Maffesoli construiu uma obra em torno da questão da ligação social comunitária e a prevalência do imaginário nas sociedades pós-modernas. Ele é secretário geral do Centre de recherche sur l’imaginaire e membro do comitê científico de revistas internacionais, como Social Movement Studies[1] e Sociologia Internationalis.

Michel recebeu o Grand Prix des Sciences Humaines da Academia Francesa em 1992 por seu trabalho La transfiguration du politique. Ele é também vice-presidente do Institut International de Sociologie (I.I.S.), fundado em 1893 por René Worms, e membro do Institut universitaire de France – I.U.F.[2]

Origem: Wikipedia

Um lugar sem limites e as conseqüências de uma lei inconseqüente

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Por Thiago Santos

Este texto foi inicialmente formulado para amparar a palestra, apresentação e conversação com adolescentes inscritos no programa “Pelos Caminhos da Inclusão – PCI”, no município de Barra do Piraí. Aproveito para agradecer novamente, desta vez por aqui, não só ao convite, mas a oportunidade de falar e escutar os jovens que participaram do programa.

Um lugar sem limites e as conseqüências de uma lei inconsequente

A lei define o crime” – citação de memória da Constituição Federal

Escolhi o tema de hoje, para tratar uma fala comum aos adultos quando trazem seus filhos a um psicólogo, analista, ou instituição que tenha problemas com o “comportamento” dos jovens.

A queixa é uniforme, “Ele não respeita ninguém”, “Ninguém pode com ele”, “Ele não tem limites”. E de outro lado o que se escuta é “Seus pais não sabem dar limites a seus filhos”, “mas também com essa mãe como seria diferente?”

Pais e mães são responsabilizados por permitir seus filhos tiranizarem a todos desrespeitando as regras de convívio. Mas jovens são tão irresponsáveis assim como se diz? Haveria algo de caduco nas leis?! Pois, se diante de nossa lei podemos dizer que todos os jovens são irresponsáveis, poderíamos do mesmo modo, dizer que nossa lei é irresponsável pela juventude que chega?!

Toleramos a “falta de limites” das crianças quando não tem “noção das coisas”. Dizemos a nós mesmo que elas não têm noção para aliviarmo-nos dos limites que precisamos que sejam desrespeitados?! Quanto de “noção das coisas” precisa-se “deixar de ter” para que certa conduta desviante nos seja permitida?! Se nossos jovens são sem limites, o que fazer com tantos irresponsáveis, ou melhor, e nos termos da lei, quem e como punir adequadamente por essa juventude “desviada”?

Poderíamos dizer que crianças e jovens adolescentes são responsáveis pelos limites que transgridem!? Mas se eles não tem limites, qual limite transgridem!?

Faltam limites ou os limites que nunca faltam?

Transgressividade tolerada e permitida – Permissividade transgressiva

Poderíamos dizer que certa transgressividade nos é permitida?

Certamente andamos por aí, convictos que a lei pela quais somos responsáveis não nos é tão severa. Podemos jogar papel na rua sem problemas, assim como sentar em assentos em transportes públicos destinados a idosos e gestantes sem constrangimento se um deles fica em pé, assistimos cenas diárias de violação de leis e na cumplicidade mútua de nosso silêncio confiamo-nos na lei da boa vizinhança, que diz: Não perturbe nunca seu vizinho, mesmo que ele esteja errado!

Passava em frente a um bar, enquanto torcedores buzinavam com um barulho ensurdecedor a todos que estavam nas outras mesas. Enquanto começou uma discussão, uma mulher pede que não façam tanto barulho e um deles gritava insistentemente: “Nós ganhamos!” e buzinava novamente. Ele estava dentro da lei do silêncio até 22:00 h, então, o que o proibiria de torcer escandalosamente?

Em uma rua à noite, um homem vem me pedir um “fino”, se eu fumava ou sabia aonde vendia. Respondia-lhe que na praça no fim da rua, algumas pessoas às vezes iam lá fumar, mas que não sabia aonde vendia. Porque não sentimos o constrangimento da autoridade que nos acusaria de um delito?

Apostaria responder que munido de um sentimento de convicção de que a lei não é “tão dura”, uma liberdade em desrespeitá-la não nos constrange ao ponto de podermos conversar onde vende drogas ilícitas no meio da rua.

A princípio vale tomar para nós que a lei que supõe nos proteger, por vezes está contra nós mesmo quando inocentes. Na mesma praça que indiquei ao homem, anos atrás por volta de uma da manhã paravam um patrulha da PM, tomando dinheiro dos jovens que ali passavam.

Somos tentados a interrogar se uma lei que não é conseqüente nos coloca na condição de irresponsáveis, já que nos sentimos desobrigados a lhe prestar contas. Seriamos responsáveis por fazer valer a lei, ou por descumpri-la quando injusta? Desamparados e órfãos de lei, nos sentimos autorizados a desrespeitá-la?

Quais as conseqüências de uma lei que não traz conseqüências?!

Darei um exemplo de como a fala de um pai a sua filha pode incidir nela e na cidade. Referia-se ao crime na escola de Realengo com o ex-aluno no ano de 2011, que entrara armado atirando nos estudantes.

Dizia o pai a sua filha que a mesma precisava tomar medidas para se proteger de “estranhos” na rua. Fala à menina que ela deveria rejeitar tudo que lhe fosse ofertado, qualquer convite ou insinuação a acompanhar alguém. Se preciso gritar que gritasse. Porém um grito sem apelo, apenas um som, um ruído que não tem a quem pedir ajuda, já que supõe todos tão suspeitos quanto. Fantasiava uma cena em que sua filha de nove anos precisaria se defender a custo de todos, ao preço, de manter-se a distância dos outros!

Dois movimentos: Um que autoriza a filha a tomar uma posição radical diante do outro em defesa de si, não só com fins a se proteger como de também a evitá-lo. E outro que sugere que qualquer um que se aproxime de sua filha, é um inconseqüente pelos próprios atos.

Com a responsabilidade exclusiva por sua própria proteção, a menina se responsabiliza pelo outro que supostamente deveria protegê-la. Neste sentido transmitimos as crianças a se defenderem no lugar daqueles que deveriam fazê-lo. É proibido o contato no corpo infantil, e do corpo infantil no corpo do outro. Conseqüência no dizer comum, o outro é sempre um inconseqüente neste país, e nossas crianças precisam se responsabilizar por si e por eles. Toda proximidade do outro é nociva, e toda proximidade ao corpo da criança é criminoso! Agora que todas as dicas lhe foram dadas, se mesmo assim ela for atacada a culpa continuará sendo dela.

Não só esperamos que o outro fosse um inconseqüente, como não reconhecemos seu próprio ato, pois contamos que a lei não traga conseqüências a quem comete um crime. Mais que isso, somos cúmplices de uma lei inconseqüente! Este “programa de defesa” quanto à violência contra a criança faz o cálculo de que ela será violentada justamente senão souber, ou conseguir se defender por si mesma, e que por princípio todo adulto é um inconseqüente.

Quem a agride? O Outro (geralmente um adulto). Os outros são todos inconseqüentes assim como a lei pelas quais são responsáveis, pois não só incapazes de se submeterem a toda regra que os limitam, constatam e se servem do fato que as próprias regras são incapazes de trazer qualquer conseqüência. Uma regra que não faça valer sua lei inocenta todos de seus atos, menos as “vitimas”. Isentamos qualquer um não só de protegerem os seus, como sugerimos que certa transgressividade será tolerada, e permitida.

Culpa-se o violentado antecipadamente a todo crime que o outro possa vir a atuar sobre ele. Justamente porque acordamos que certa transgressividade será tolerada, permitida e assim mesmo, se constitui como permissiva. Quem comete o crime é a vítima, por sozinha ser insuficiente em sua própria defesa!

Outro exemplo estava andando na rua escutando música em meu mp4. Dois homens me param, e me mandam lhe entregar o celular, a carteira. Não dou, e um deles pega meu mp4 que já estava exposto e permitiria a eles não chamarem tanta atenção a luz do dia. No dia seguinte, escuto que eu deveria saber que não posso andar na rua escutando música com mp4, que eu deveria me policiar, pois o culpado era eu por ter sido roubado.

Esta transgressividade permitida é permissiva a outras transgressões. Temos que avançar: “É proibido se queixar de ser violentado!” Não é para tanto que alguns sentem culpa em acusar alguém (ou a si mesma) de uma violência, pois é um crime se queixar. Nossa “política da boa vizinhança” indica que ao vermos o filho do vizinho quebrando o vidro da casa de alguém com uma pedra, que não tomemos providência alguma. Pois nos sentimos constrangidos em reclamar, seja com o menino ou “seus responsáveis”. Alguns sofrem justamente, de nunca poderem se queixar!

Duplo mecanismo que exige o reconhecimento adiantado do possível abusador, seqüestrador e assassino, e de montagem de estratégias defensivas do lado do “vitimado”, que sempre é o principal suspeito por permitir sofrer as conseqüências de uma lei que ele sabe não valer. Não me surpreenderia se surgisse um “Curso de capacitação para vítimas de futuras violências”!

Antecipação e destinação. O que se antecipa na imaginação como violência apaga o objeto que será triplamente violentado. Por não poder se defender da violência, por não ver conseqüências da violência que sofreu no agressor, e por não poder “vingar” sozinho. É reprimido em sua violência!

Nesta lógica temos que a escola não é responsável pelo ensino de nossos filhos, que a polícia não é responsável pela seguridade social. É como diz o filósofo, não aceitamos o risco, quando se come um alimento sem gordura, quando se come o doce sem açúcar, se entra em guerra sem violência, sexo virtual sem sexo. Outro exemplo são os videogames, onde podemos pescar sem nunca ter conhecido um lago. Não aceitamos correr o risco!

Podemos então dizer que certa transgressividade não só é permitida como esperada. E não só esperada, como permissiva! Vale ressoar a falar de um professor: “Nós não suportamos estar dentro da lei!”

Atentemos a cultura Wagner Montes que nos “objetaliza” com a desgraça cotidiana. Não é surpreendente que um programa que mostre como um espetáculo o horror humano, não mais nos cause espanto?! Que o crime apresentado diariamente não mais nos surpreenda? Não que o horror de nossa violência cotidiana não seja surpreendente, mas que estamos sempre na condição de espectadores do horror!? Com a exibição de uma violência velada passamos da experiência real da violência cotidiana para distância de expectadores da violência dos outros. Contamos que o horror criminoso vá acontecer, e que se repita.

Crimes exibidos diariamente com o mesmo roteiro, é a mesma sensação quando a distância entre um filme e seu público é quebrada! Pois não estamos tão distantes das cenas! Estamos protegidos enquanto espectadores dessa violência?! A que espécie de violência nos expõe quando nos acreditamos distantes? Assistir a violência não é participar dela, justamente quando esperamos que ela acontecesse novamente?! Sabemos o roteiro, e esperamos por seu fim.

O pai continua com seu argumento, e diz: “Falo isso a minha filha, pois ela precisa conhecer a realidade!” Conhecer a realidade é viver sua violência ou escutar e assistir os horrores que lhe são distantes?! Qual a diferença entre um horror vivido e um assistido?! Deixamos de viver a violência quando a assistimos na TV? É preciso ser roubado para que conheçamos a realidade de um roubo!?

Outro ponto é: Como se usa de uma lei que não seja tão séria? Concordamos que alguma transgressividade das leis nos é permitida? Ex: Entramos em um lugar que é proibido falar, e confiamos que a lei permissiva que nos autoriza a transgredi-la, e damo-nos a conversar. Entramos num lugar que é proibido fumar, e fumamos. Estamos no metro do Rio de Janeiro, e o mesmo cidadão que não joga lixo no Metrô, imediatamente o faz quando está na rua.

Acolher o outro sem munição ou Com-munição!

Cada lugar tem suas regras, poderíamos até dizer que um lugar é feito de seus limites e fronteiras. Temos um princípio comum que trata da questão de como receber o outro, a Hospitalidade que nos condiciona que para proteger nosso território, é preciso impor condições ao outro que vamos acolher. Ninguém recebe um estrangeiro em seu país sem no mínimo um passaporte, identidade, assim como ninguém sai de seu país antes de certas condições. A Hospitalidade nos diz que cada lugar tem seus princípios para receber quem chega. Ao encontro com o outro, impomos-lhe as regras do lugar ou não?! Sob que condições, aceitamos o estranho que está por vir?

Recebê-lo sem armas, desarmar-se para que possamos bem acolhê-lo, ou apostar que para acolher quem vem deve-se sempre estar com o mínimo de munição. Pois certamente o outro também vira armado.

Como chegar a um deserto despovoado, um lugar sem limites não nos diz o que nos é possível!

Temos exemplos de hospitalidade. Podemos receber o outro que chega impondo-nos e a ele algumas condições, como exigir que diga quem é, porque veio, aonde vai, quanto tempo ficará e o que quer! E uma hospitalidade absoluta e incondicional, quase louca… Que diz que receberemos o outro sem nada lhe questionar! Acolher sem condições é a única condição de acolhê-lo. A imposição de esconder-se das defesas sugere Clarice Lispector que é uma condição insustentável “Só quem guarda as armas a sete chaves, é quem receia atirar em todos”

Percebam que as relações com os outros é um problema político que diz respeito aos que se responsabilizam por elas. Como receber o outro não é problema do outro, mas nosso!

Uma Com(munidade) é formada aonde todos os membros se encontram dispostos com a mesma quantidade de munição. Lembrem-se das brigas regionais, de quem tem mais ou tem menos! Sem a mesma distribuição de armas em um mesmo território, a violência permitida é esperada. Exige-se que algo seja feito daquele que cometeu um crime, não só pelo mal que causa, mas porque o criminoso goza de um direito ao qual nos sentimos privados.

Nota – Dois atos de fala:

Quem acredita ainda em seu ato? Quem leva a sério uma palavra, quem considera uma palavra como um ato?

Abordemos dois atos de fala. Um é o constativo, onde se constata um fato. Ex: Está chovendo, o carro é amarelo. Outro é performativo, onde um ato de fala tem conseqüências no real, ou melhor, conseqüência como real. Um ato de fala performativo não constata um estado de coisas, mas modifica ou instaura um estado de coisas. Ex: Estamos em guerra contra, a partir de hoje somos marido e mulher.

Pensei em outra um dia enquanto comia um biscoito. Ele caiu no chão e pensei: Este biscoito caiu no chão! Sabemos que a distância entre sua boca e o chão, pode ser menor que um metro. Mas a distância entre um biscoito servido em um prato, vindo da embalagem e de um que cai no chão é enorme! Muda o status do biscoito. Ele agora é um biscoito imundo, proibido, e até perigoso pro meu organismo

Fala que modifica, instaura um real novo que não poderia advir de outro modo, e que não estava ali antes do ato de fala. Isso coloca a fala com um estatuto de ato.

Quais as conseqüências de passarmos a dizer que ao invés de sermos a imagem e semelhança de Deus, para sermos primos dos chimpanzés como nos traz Darwin com a teoria da evolução?

Outro exemplo é a mudança instaurada com os estatutos da criança e do adolescente, que trata por extinguir a antiga noção de “menor”, considerando-os como “sujeitos de direitos”.

A morte constata e instaura um novo real! Diz-nos Epicuro que o homem não faz a experiência de sua morte, pois quem morre é sempre o outro. De modo que onde estou é porque não morri, e onde está à morte não estou. Entramos em luto pela morte do outro, luto por nós mesmos e a falta que faremos ao outro. Mas não fazemos a experiência de nossa morte, ninguém morre em nosso lugar.

Proibir ou autorizar – Liberdade: Tudo é possível, pois nada vale à pena

Atentemos a noção de que vivemos hoje, dizemos é proibido proibir, e até gostamos dessa idéia por se assemelhar a liberdade que alguns dizem sonhar. Obcecados pelas possibilidades diz-nos que tudo é possível e nada é proibido! Você pode tudo, só não pode não poder. Temos direitos a tudo, menos a possibilidade de ceder deste direito.

Assemelha-se a ser coagido a experimentar, permitir ilimitadamente.

Estamos “destinados” sem saber a tudo fazer, usufruir, experimentar, ou seja, estamos proibidos de não aproveitar. Não há heresia (escolha)! É preciso seguir cegamente, inquestionavelmente. Em outros termos podemos dizer que estamos proibidos de não sermos felizes!

Ainda existem coisas cujo valor não se compra?! Felicidade é um bem, que pode ser comprado, ou merecido?! Felicidade é um bem sem valor quando estamos proibidos de ser infelizes! Acompanhamos o psicanalista quando diz que: “É quando tudo é possível, que mais afirmamos que nada vale à pena.“

Cena do filme O Albergue, na qual um homem rico diz que irá violentar uma pessoa, pois já fez de tudo na vida, já usou de tudo, e isso seria a única coisa excitante que tem por fazer. Nada lhe falta, e vive compulsivamente a instaurar algo que lhe limite o excesso de poder! Tudo lhe é permitido, de modo que absolutamente nada valha a pena de verdade. Tanto faz ligar a TV com o controle remoto quanto viajar a Paris. Já que tudo é possível, não há a menor necessidade de fazer algo imediatamente, posso adiar permanentemente qualquer coisa que possa fazer, pois não há prazer maior do recusar o desprazer que dá o mínimo de trabalho em fazer qualquer coisa. Não existem mais urgências, patologias, dores! Estética vem do grego aestesys que significa “sensação” “sensibilidade”, um homem tão livre quanto este que admiramos é um homem morto. Insensível, pois anestesiado, nada sente, nada lhe afeta!

Esta figura de homem livre e feliz é a figura de alguém que busca desesperadamente um limite. Tem-se exemplos próximos na clínica das toxicomanias, aonde o usuário visa desesperadamente um limite autêntico que limite sua compulsão.Não valem falsos limites, não se engana um “toxicômano”! Freud diz que diferente da Antiguidade, hoje o valor é dado ao objeto e não ao impulso que o visa. Alguns autores sustentam que: Somos adictos de objetos! A crença de que há algo (uma pessoa, um lugar, uma causa) que nos prometa a felicidade, talvez não seja pior que a dependência da felicidade para ser feliz. O mundo como é certamente nos desaponta a ponto de precisarmos de algo que nos tire dele?

A suposta liberdade de nada proibir, nos condena a tirania da própria liberdade, Tirania das escolhas. Você só não é feliz porque não quer, pois desde sempre você pode ser feliz! Novamente caímos na fala do pai a sua filha, de que se ela por ventura não for capaz de usufruir da liberdade que ela detém, é por culpa dela!

Existiria assim algo mais tirano do que a felicidade?! Uma felicidade a qual não se pode escolher.

Limite traz responsabilidade, através da punição?

Um psicanalista diz que hoje ninguém se sente culpado por pensar algo ou fazer ou falar algo proibido, mas por se proibir de fazer. Não se sente culpa por fazer algo contra lei, mas por não conseguir fazer tudo que se pode. Gostaríamos de não fazer tudo que podemos?!

Vivemos no país de uma trangressividade tolerada e esperada, ela não só é permitida como permissiva. Ela nos condena a ser feliz, e nos proíbe de não ser!

Temos a noção capenga de que é proibindo e punindo severamente as crianças e adolescentes que as tornamos responsáveis por aquilo que nós mesmos não somos. Se assim agimos, supomos que as mesmas não o são!

Seria possível ao invés de limitá-las (como a cama de Procusto), autorizá-las? Autorizar está longe de poder fazer tudo. Mas é responsabilizar pela própria liberdade. Responsável no sentido de reconhecer aquele que se coloca como conseqüente por seu desejo, mesmo que este transgrida as leis de convivência. Que não desconhece que seu desejo e seu ato trazem conseqüências no real. Neste sentido toda criança e adolescente não tem como ser irresponsável, pois se sabe conseqüente. Ele não transgride uma lei sem antes reconhecê-la, mesmo que seja para modificá-la, numa exigência de outra ordem.

Não tratamos ou reconhecemos o outro como responsável por seu desejo, quando não o fazemos nem com nós mesmos.

Se uma lei precisa punir para demonstrar sua autoridade não é isso que constata sua fragilidade? No filme Batman, Coringa seqüestra e prende com explosivos a mulher que Bruce diz amar. Coringa é intimado por Batman a dizer onde está Rachel, e este não responde imediatamente, Batman parte para a violência física tentando coagir o vilão a confessar o paradeiro da moça. E este gargalha dizendo ao herói que ele não tem com o que ameaçá-lo, nem a violência a seu corpo o ameaça. E só diz onde está a moça para dar seguimento a seu prazer.

A lei que violenta se confessa inconseqüente para com quem se mostra irresponsável. Não proibindo alguém a algo, mas por não trazer conseqüências a quem se destina por responder a ela.

Tenho um relato guardado, de uma mulher sobre seu filho. Dizia ela que havia sido denunciada no Conselho tutelar, pois “espancara” seu filho. Acredita que um vizinho tenha feito, e afirma que continuará batendo, pois não sabe o que fazer. É o recurso ao qual faz apelo, quando a palavra não mais “limita”!

A situação envolvia que o menino com 12 anos (filho mais velho do casal) foi
acusado de alguns furtos na vizinhança. A mãe diz que interrogando o menino, o mesmo nega tudo. E que ele agora tem lhe respondido, e desafiado as regras de “não
sair de casa”. E que uma conselheira tutelar foi a sua casa, e lhe proibiu de “bater” no menino. Ela se diz ciente do Estatuto da Criança e do Adolescente, mas que continuará “batendo” caso julgue necessário, pois teme que o menino vire bandido. E que não se importa que isso lhe custe à cadeia! Escutando o menino, ele fala que sua mãe lhe bateu sim, sequer toca no assunto dos furtos e acusações. Não está desconfortável tanto como a conselheira, quanto as agressões da mãe, o que lhe incomoda é ser proibido de sair de casa. Quando pergunto, diz que não sabe por que o acusam, já que não foi ele. Mas aparenta não tirar a razão da mãe! Como se os atos da mãe não só fossem justificados, como coerentes com o lugar ao qual são responsáveis. Inclusive, dá a entender que “apanhar” é o reconhecimento por seus atos, dá reconhecimento a seu ato na medida em que o mesmo tenta limitá-lo. Não se queixa, ou reivindica uma ação contra os excessos da mãe. A mãe diz que não sabe o que fazer e sob o alerta do conselheiro sobre a “agressão”, pensa em colocá-lo numa escola em tempo integral literalmente para conseguir combater o crime. O do filho e o dela!

Vejam que o recurso ao qual a mãe apela para combater as impunidades é a violência ao corpo do filho, e que o mesmo enfrenta a lei do lugar que o reconhece, e ao qual é responsável. Se o menino rouba ou não, é um assunto de investigação criminosa da lei, e de uma clínica judiciária. Mas que ele reconheça essa lei como valendo para si, é o que mostra sua assinatura de conseqüente por seus atos no lugar que habita. Uma lei conseqüente diz ao sujeito que ele é responsável por sua própria liberdade. Mas, seria ele livre para ser responsável?

Curso de Extensão – Estudando C. G. Jung >>2ª TURMA!!

É com imenso prazer que anuncio a abertura das inscrições da 2ª turma do Curso de Extensão – Estudando C. G. Jung.

Horário: 19h às 21h

Início: 7 de fevereiro

Aulas semanais (terças)

“A UTILIZAÇÃO DO ESPORTE COMO INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO NO RIO DE JANEIRO (RJ): A PSICOLOGIA NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO”

 

 

“A UTILIZAÇÃO DO ESPORTE COMO INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO NO RIO DE JANEIRO (RJ): A PSICOLOGIA NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO”

Por: Rodrigo Pieri

 

Resumo

Este artigo se propõe a trazer informações e discussões sobre a Estação Conhecimento – Programa Brasil Vale Ouro, uma instituição do Terceiro Setor, constituída como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que agrega a participação direta da comunidade e possibilita o estabelecimento de parcerias com as três esferas governamentais e entidades da sociedade civil organizada. Com público prioritário de crianças e adolescentes entre dez a dezoito anos, seu objetivo principal é desenvolver os alunos de forma integral, considerando as perspectivas físicas, intelectuais e cognitivas de cada indivíduoatravés do esporte de alto rendimento, assim como do processo de iniciação no esporte. Além disso, será realizada uma reflexão acerca da adolescência, enquanto um momento do desenvolvimento humano e suas etapas de construção social em um ambiente estimulante e construtivo. Enquanto ciência humana do comportamento, a psicologia na Estação Conhecimento atravessa a questão social e esportiva. Neste trabalho, ela é uma facilitadora da compreensão da problemática na qual o indivíduo está inserido. Ela atua conciliando a preparação para o esporte de alto rendimento e a construção de um cidadão ciente de si.

PALAVRAS-CHAVE: Adolescente, Educação, Esporte, Psicologia, Vulnerabilidade Social.

 

Você me abre os braços e a gente faz um país…”

(Lulu Santos)

Estação Conhecimento

A concepção da Estação Conhecimento se pauta no principio de garantir um legado de conhecimento sistematizado e institucionalizado para as gerações futuras, que permitam sustentabilidade do projeto sendo fundamental a articulação e integração com todos os setores da sociedade (Setor Público, Privado e Terceiro Setor). É constituída juridicamente como uma organização social do chamado Terceiro Setor – OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). A instituição caracteriza-se como um centro de referência local ou regional focado nas questões-chave: o desenvolvimento humano e o desenvolvimento econômico. Estações Conhecimento estão programadas para serem implantadas com subsídios da Fundação Vale nos território de atuação da empresa Vale, uma mineradora. O presente trabalho está pautado nas experiências vividas pelo Psicólogo da unidade da cidade do Rio de Janeiro/RJ.

Desse modo, no tocante ao desenvolvimento humano, o foco está no desenvolvimento integral e integrado da potencialidade humana, atendendo às necessidades e potencialidades nas dimensões físicas, emocionais e intelectuais com ênfase nas crianças, adolescentes e suas famílias. Já quanto ao desenvolvimento econômico, o foco está no fomento para a geração de renda nas áreas rurais e urbanas, e para tanto atua no apoio à organização produtiva, ao desenvolvimento tecnológico, ao processamento e comercialização da produção.

Esses desenvolvimentos, de um modo geral, são orientados pelas concepções e princípios respaldados nos quatro pilares da educação conforme afirma a UNESCO, os quais foram publicados no Relatório de Jacques Delors, fruto dos trabalhos da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. Para esta comissão composta por especialistas em educação de vários pontos do mundo, é preciso criar condições para que a criança, adolescente e o jovem possam: conhecer o mundo que os rodeia (aprender a conhecer) para intervir nele (aprender a fazer) em conjunto com outras pessoas (aprender a conviver) e dessa forma se desenvolver (aprender a ser).

Tais pilares têm como premissa de que aprender na prática exige um processo de sistematização, que organize os aprendizados produzidos nestas combinações e se configuram como material pedagógico da Estação Conhecimento. A partir disso, são afirmados os princípios da Estação Conhecimento, os quais projetam que toda e qualquer formação precisa ter uma perspectiva de formação integral que amplie capacidades intelectuais, técnicas, culturais e cidadãs do público a quem se destina.

Diariamente, essas crianças e adolescentes, que se submeteram a uma bateria de testes físicos, avaliando suas habilidades motoras, todos regulamentados pelo Ministério do Esporte, participam de aulas e treinamentos esportivos. As modalidades são: atletismo, judô e futebol,sempre sob a orientação de profissionais da educação física, alguns inclusive ex-atletas olímpicos, e sob o “olhar” de uma equipe técnica multidisciplinar composta por um psicólogo, uma assistente social e uma pedagoga, que cuidam/monitoram/orientam e articulam as atividades extra desportivas, por exemplo, reuniões com os responsáveis, oficinas de convivência e cidadania, avaliação de satisfação (dos atletas e de seus responsáveis) e cursos oferecidos por eventuais parceiros. Todo o conhecimento gerado pela Estação é sistematizado e ficará de legado para as gerações futuras. Dessa forma, a Estação Conhecimento – Brasil Vale Ouro pretende contribuir para apromoção do desenvolvimento humano e econômico daregião onde está localizada, em todo território nacional.

Busca-se promover a melhoria da qualidade de vida dos moradores da região, oferecendo às crianças e adolescentes e, consequentemente, às suas famílias, uma maior consciência sobre suas possibilidades de escolha nos âmbitos social, cultural e econômico, através do esporte. Os reflexos podem ser percebidos na fala de um de nossos “atletas”:

Bom, primeiramente, eu quero dizer que a Estação foi uma das melhores coisas que aconteceu no bairro, porque deram (sic) uma esperança para as crianças que tem (sic) o sonho de ser um atleta… Agora me sinto melhor comigo mesmo…”

(Aluno do Futebol, Engenhão/Rio de Janeiro)

Esta fala se deu em um dos processos avaliativos que os adolescentes fizeram em seu primeiro trimestre de Estação Conhecimento Engenhão. Estação Conhecimento localizada no bairro do Engenho de Dentro, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A pergunta era simples e direta: O que você acha da Estação Conhecimento?

Eu quis ser eu mesmo

Eu quis ser alguém

Mas, sou como os outros

Que não são ninguém”

(Pato Fu)

ADOLESCÊNCIA:

Um dos públicos alvos da Estação Conhecimento, a qual foi criada para atender objetivos já aqui descritos, são os adolescentes e suas complexidades no que diz respeito a sua educação e seu processo de socialização. Por isso, se faz necessário o entendimento do que representa esta etapa do desenvolvimento humano, sobretudo psíquico, o qual leva em consideração não apenas os aspectos biológicos, estes já tão explorados pelo senso comum, mídia e estudos acadêmicos. Mas que, além disso, permita a compreensão dos comportamentos e sentimentos observados neste momento da vida.

Assim, situada em diferentes regiões do país, a Estação Conhecimento trabalha, em sua maioria, com adolescentes, um público que, Conttardo Calligaris (2009) definiu como “ideal coletivo que espreita qualquer cultura, que recusa a tradição e idealiza a liberdade, independência, insubordinação, etc.” (CALLIGARIS, 2009, p.73). Estas características definem muito bem as reações e relações presentes no dia a dia da Estação, mesmo tendo o esporte como um forte atrativo. Em seu livro “A Adolescência”, o autor explica que até o meio do século passado, a adolescência “não era um fato social reconhecido. Era uma faixa etária, mas não por isso um grupo social. Ainda menos um estado de espírito e um ideal de cultura” (CALLIGARIS, 2009, p.60). Isto, talvez, possa explicar a forma adolescente de se relacionar com o mundo externo.

Posto os aspectos mais intrínsecos ao sujeito, se pode, agora, contextualizar os adolescentes do Brasil, os quais movimentam suas vidas num horizonte de incertezas quanto às ações do presente e às do porvir em um cenário de afunilamento da sociabilidade juvenil, onde se têm, por exemplo, jovens envolvidos com o tráfico, sem perspectivas de formação de vínculos sociais. Estação Conhecimento – Brasil Vale Ouro, através do esporte, surge com a oferta de oportunidades de convívio social saudável, fomentando sonhos e planos para o futuro, por meio de certezas concretas de integração e pertencimentos sociais tangível nas práticas esportivas, vivências em grupo e conteúdos voltados à formação cidadã. Tenta-se dar continente a esse momento de vida que Rúbio (2001, p. 162) definiu como sendo A hora da grande batalha para partir do mundo parental e viver a morte simbólica dos pais e do filho, para assim poder surgir o indivíduo, o adulto”.

PSICOLOGIA DO ESPORTE NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO:

Neste ambiente em que o esporte se empresta como ferramenta principal para o desenvolvimento e a constituição de centenas de crianças e adolescentes, o trabalho é realizado numa perspectiva multi e interdisciplinar. Em um lugar atravessado por distintos saberes (educação física, administração, assistência social, pedagogia e psicologia), fica a pergunta: qual o trabalho a ser feito pelo psicólogo?

A primeira vista o trabalho é múltiplo, assim como são múltiplas as possibilidades de atuação de um psicólogo no esporte e assim como são múltiplas as possibilidades de atuação de um psicólogo que trabalhe com crianças e adolescentes. Logo, na Estação Conhecimento, que une esporte e juventude, o profissional da psicologia atua como Psicólogo Social, de RH, Clínico, Institucional e Psicólogo Esportivo.

Para esse trabalho, nos ateremos na atuação como Psicólogo Esportivo e como ele pode auxiliar na formação dos atletas da Estação.Importante lembrar que, nas Estações Conhecimento, o esporte nas quatro modalidades –Judô, Atletismo e Futebol – pode ser praticado como alto rendimento e/ou iniciação, porém ambos com um mesmo objetivo final: formação integral do sujeito. Kátia Rúbio (2001) subdividiu o esporte em “esporte performance, esporte participação e esporte educativo”.Diz ela em seu livro O Atleta e o Mito do Herói – o imaginário esportivo contemporâneo:

As práticas esportivas contam com manifestações distintas, embora interatuantes, podendo ser dividas da seguinte forma: esporte performance, que se objetiva rendimento, numa estrutura formal e institucionalizada; esporte participação, visa o bem-estar para os movimentos de educação permanente e com a saúde; esporte educação, com objetivos claros de formação, baseado em princípios sócio-educativos, tendo como finalidade a preparação de seus praticantes para a cidadania e para o lazer. (RÚBIO, 2001, p.96)

De acordo com Benno Becker Júnior (2001), é muito difícil determinar o começo exato da Psicologia do Exercício e do Esporte no Brasil, visto que estes eventos têm pouca, ou nenhuma, divulgação. Algumas pesquisas oficiais mostram que a Psicologia do Exercício e Esporte tem seu registro inicial em 1954, no Departamento de Árbitros da Federação Paulista de Futebol.

A pergunta que se mantém é “qual é a atuação da psicologia no esporte?”, visto que a sociedade

(…) vem se organizando na atualidade de forma a valorizar a ascensão, a vitória, o melhor, impondo um padrão de comportamento que privilegia o mais forte, o mais habilidoso.”.(Rúbio, 2001, p. 11)

Principalmente por se tratar de uma psicologia esportiva com um público onde “as surpresas de um novo parâmetro de vida estão sendo conhecidas e a única certeza que se tem, diante do inesperado, é que o devir comporta muitos perigos” (Rúbio, 2001, p. 160/161). Para responder tal pergunta, traremos dois exemplos de experiências e resultados ocorridos nas Estações Conhecimento Rio de Janeiro e Tucumã, a partir da intervenção da psicologia esportiva.

RELATOS DE EXPERIÊNCIAS COM ADOLESCENTES NA ESTAÇÃO CONHECIMENTO – BRASIL VALE OURO:

A partir dessas definições, segue o exemplo para ilustração e análise:

RELATO DA EXPERIÊNCIA:

O relato a seguir refere-se ao relatório construído pela equipe de psicologia da Estação Conhecimento Rio de Janeiro, no início do ano de 2011, após a primeira competição de atletismo fora do estado do Rio de Janeiro. No intuito de manter o sigilo de seu nome, o atleta receberá o codinome Torres.

Torres, nascido em 1996, disputaria a prova dos 400m. Na ocasião, saía do Rio de Janeiro pela primeira vez. Durante todo o processo preparatório para a competição São Silvestrinha 2010, demonstrou dificuldade de relacionamento com os demais atletas da delegação. Constantemente oscilava seu humor, ora agressivo e intempestivo, ora calmo e dedicado. Inevitavelmente sua oscilação refletiu-se durante a corrida. Se antes da largada, disse que iria usar a lembrança que trazia de nosso trabalho no Rio de Janeiro (uma frase retirada do livro do Bernardinho (2006) “Transformando Suor em Ouro” que recebeu durante uma atividade lúdica preparatória para a viagem.), ao correr, na última curva, inesperadamente, tentou dar um chute em um dos atletas que disputava posição com ele e desacelerou, praticamente desistindo da corrida. Quando foi questionado o porquê de ter feito aquilo, o mesmo deu duas respostas diferentes para dois membros da equipe técnica. Se para um dos técnicos alegou ter sido agredido e que queria revidar, para outro disse ter sentido uma fisgada na perna. Torres provou sua capacidade esportiva por ter conquistado um lugar na seletiva para competição. Entretanto, o mesmo, durante todo o processo, também demonstrou que precisaria ser observado e receber uma atenção especial pela equipe técnica no ano de 2011.

Após a competição, os atletas saíram de férias. Ao retornarem, um mês depois, Torres, nos primeiros dias de treinos, novamente apresentou oscilação de humor. Ele, que sofria de um estrabismo brando, o qual, por ser muito perceptível, o caracterizava, começou a receber apelidos de seus companheiros de treinos, o que por ele era respondido com agressão física. Torres, em certa ocasião, acertou uma maça na cabeça de um de seus companheiros de treino, ao ser questionado pela equipe de psicologia, o porquê fizera aquilo, sua resposta foi curta e direta: “ele me chamou de Zé do Olho”.

Em outra ocasião, Torres, que treinava uma nova modalidade (lançamento de dardo) por algum motivo, que ele mesmo não soube responder o porquê, lançou o dardo na direção de seu técnico, que só não foi atingido por poucos centímetros.

Na tentativa de se entender o motivo dessas súbitas reações, Torres teve seus responsáveis convocados para uma reunião com a assistente social e com o psicólogo da equipe. O intuito era conhecer mais sobre o menino e sua forma de se relacionar fora do espaço da Estação Conhecimento. Na entrevista, a mãe de Torres disse que nunca vira seu filho tão envolvido com algo, como ele estava com o atletismo, que seus hábitos alimentares haviam melhorado e que o mesmo sempre buscava na internet e na televisão informações sobre competições de atletismo. Essa informação foi recebida com certa surpresa pela equipe. Se gostava tanto de atletismo, se estava tão envolvido com as propostas da Estação, porque então Torres reagia em certas situações com tanta agressividade?

A possível resposta foi percebida na continuação da entrevista, quando foi revelado que Torres, apesar de em casa sempre ter sido um filho companheiro e prestativo, na escola e em todas as outras instituições que já frequentara, a mãe sempre era convocada, pois havia comportamentos agressivos. A mesma disse que o estrabismo de seu filho era sempre motivo para brincadeiras e provocações de outros meninos e que isso o incomodava tanto que fizera a mãe o acompanhar, por diversas vezes, durante algumas madrugadas, nas filas de hospitais na busca de realizar uma cirurgia em seu olho. Todas as tentativas foram frustradas.

Atualmente Torres é muito respeitado por seus colegas de treino e suas reações agressivas diminuíram drasticamente. Acredita-se que foram alguns os motivos para que essa mudança. A seguir, analisaremos alguns desses motivos.

IDENTIFICAÇÃO COM O ESPORTE:

Uma semana depois desta entrevista, o Engenhão, local onde Torres treina, recebeu o “Meeting Internacional de Atletismo”. Um mês depois, no mesmo local, aconteceram as modalidades de atletismo do “V Jogos Olimpicos Militares”.Deu-se incentivo para que os atletas aproveitassem essas possibilidades para que se aproximassem mais do esporte. Torres, que antes sonhava em ser um jogador de futebol, além de ter assistido algumas competições, teve contato com atletas condecorados internacionalmente e pode assistir aos treinos e o processo de concentração e aquecimento dos mesmos. Torres se identificara com o esporte, como sua mãe já havia indicado, e isso o fez aumentar a dedicação, atenção e concentração nos treinos, conseguindo assim dar uma maior importância aos treinos do que as provocações de seus companheiros. Torres, que anteriormente era percebido por suas reações agressivas, passou a sonhar e se imaginar como atleta profissional. Para isto, mudou seu foco durante os treinos. Esta capacidade imaginativa dos atletas era sempre incentivada pela equipe de psicologia. Winnicott (1990, p.78) fala que:

A solução para os problemas da ambivalência inerente surge através da elaboração imaginativa de todas as funções; sem a fantasia, as expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma bruta seriam a regra. A fantasia prova, deste modo, ser a característica do humano a matéria-prima da socialização e da própria civilização.

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA IDENTIDADE A PARTIR DA MELHORA NO RENDIMENTO:

Por ter aprimorado seu envolvimento com os treinos e por ter começado a freqüentar os encontros com a equipe de psicologia, Torres, que já mostrara ter potencial para o atletismo, aperfeiçoou seus movimentos, aprimorou sua capacidade de foco e atenção, optou pelas modalidades de resistência e começou a conquistar um melhor rendimento tanto nos treinos, quanto nas competições. Aos poucos, Torres passou a ser reconhecido por seus companheiros de treinos como referência nas provas e nos treinos de resistência. Ele, que antes era reconhecido apenas por seu estrabismo, obteve uma nova identidade, passou a ser reconhecido por seus resultados e, sobretudo, sua dedicação nos treinos. Acerca do colocado até aqui sobre o jovem, Milman. Lulli & Bezzera Jr. Benilton (2008, p.23) acrescentam:

Quando ações realizadas pelo sujeito são bem sucedidas no sentido de serem acolhidas pelo ambiente e legitimadas por ele, elas tendem a se tornar hábitos subjetivos, ou seja, são incorporados aos padrões e esquemas de ações que se tornam “naturais”, que não mais suscitam interrogações.

A RELAÇÃO HORIZONTAL EXISTENTE ENTRE TODOS DA ESTAÇÃO CONHECIMENTO

Antes, Torres estava acostumado, em outras instituições de convívio, a ter suas reações respondidas de forma hierárquica e castradora, sem que ao menos buscassem conhecer sua história pessoal, seu mitologema (HILLMAN, 1997). No episódio ocorrido com seu técnico, a reação deste, apesar de ter ficado assustado e ter demonstrado sua reprovação quanto ao ato realizado, não foi de advertir de forma desmoralizante. Pediu apenas que parasse de treinar e esperasse para que conversassem depois. Durante a conversa, seu técnico perguntou o que acontecera e porque fizera aquilo, no intuito de dar continência aquela reação inadequada. Esse e outros episódios fizeram com que Torres percebesse que a Estação Conhecimento se tratava de uma instituição diferenciada. Um local onde o que importa é o sujeito Torres, sua história, seus anseios, seus sentimentos e seus desejos. Um local onde as relações entre todos se faz de forma dialética e horizontal. Sobre isso, diz Silveira (1981, p.75) “A volta à realidade depende em primeiro lugar de um relacionamento confiante com alguém, relacionamento que se estenderá aos poucos a contatos com outras pessoas e com o ambiente”.

Ainda há muito que ser feito no caso Torres. Porém, a relação com o esporte, com os professores, como os outros atletas e principalmente com ele mesmo já se transformou.

CONCLUSÃO

Posto tudo isso até aqui, percebe-se a constituição de sujeito como algo potencialmente inerente ao ser humano sob a ação das estimulações externas, das figuras externas, as quais possuem algum tipo de influência. A partir dos relatos de caso e os colocando a luz do levantamento teórico previamente realizado, fica bastante evidenciada ação que as figuras cuidadoras e, sendo mais específicas, as figuras maternas e paternas participam ativamente deste processo de construção de um sujeito.

Ainda, tem-se evidenciado em caráter coadjuvante a ação de um projeto sócio-educativo-esportivo como um mecanismo de opção para “complemento” ou, até mesmo, uma efetiva apresentação de valores e objetivos construtivos para um jovem carente material, afetivo e moralmente falando. Os profissionais ali envolvidos acabam por assumir inconscientemente parte dessa função.

Por fim, se apresenta o olhar e ação do Psicólogo e suas nuances de ação mediante às necessidades colocadas pelas situações institucionais e pelo público, o qual procura por ajuda na Estação Conhecimento. Este profissional portador de uma teoria de ser humano, ao qual abrange um olhar biopsicossocial, acaba por se tornar um elemento necessário para compor a equipe multidisciplinar da instituição, na medida em que ela mesma é algo novo e em processo de construção e bastante motivada a somar em seus públicos alvos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECKER JUNIOR, Benno. La Psicologia Del Ejercicio Y Del Deporte em Brasil Y América Del Sur,inRevista de Psicologia del Deporte, v. 10, n. 2, p. 249-253, 2001

BEZERRA, Junior. Benilton. & MILMAN, Lulli. A Casa da Árvore – uma experiência inovadora na atenção à infância. 1.ed. Rio de Janeiro: Garamond Ltda. 2008. 224p.

CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. 2. ed São Paulo: Publifolha, 2009. 81p.

HILLMAN, James. O Código do Ser – Uma busca do caráter e da vocação pessoal. 1.ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda., 1997. 353p.

RÚBIO, Kátia. O Atleta e o Mito do Herói – O imaginário esportivo contemporâneo. 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. 225p.

SILVEIRA, Nise. Da IMAGENS DO INCONSCIENE. 1.ed. Rio de Janeiro: ALHAMBRA. 1981 346p.

WINNICOTT, Donald Woods. Natureza Humana. 1. ed.Rio de Janeiro: Imago, 1990. 222p.

Essa foi a história de outro inconsciente que se individuou.

Ontem, dia 27 de outubro de 2011 tivemos a triste notícia do falecimento de James Hillman.

O criador da Psicologia Arquetípica nasceu em 1926, escreveu mais de 20 livros e tornou-se referência internacional em psicologia profunda.

Polêmico e instigador, nutria um terrível amor pela “guerra”, como intitulou seu livro mais biográfico. Colocou a própria psicologia no divã analisando-a com muita propriedade resgatando seus antecedentes históricos e todo imaginário que desde então a envolve através dos tempos.

Colecionou fãs e desafetos no meio acadêmico, porém a alma era a sua prioridade. E esta sempre tinha algo a dizer em sua opinião, fosse nas relações de amizade, fosse (principalmente) nas tensões dos relacionamentos conturbados, tanto para com o exterior como para o interior.

James Hillman insistiu em nos puxar para baixo e fazer-nos entender que esse movimento não era tão pejorativo quanto sua representação social. Insistiu em reconectar a palavra “aprofundamento” com a ideia da descida ao mundo dos mortos.

Foi radical inversor da ordem psicológica e arrebanhou uma legião de seguidores por isso e ao escrever seu livro mais popular, O Código do Ser (The Soul’s Code), inverteu a sua própria ordem sendo fiel à sua tradição trickster e conseguiu a indignação acadêmica de muitos de seus admiradores.

Mas era filho de Marte e havia nascido para isso.

Fez alma até o fim da vida e teve tempo de ver e ler as homenagens que recebeu por seu trabalho.

James Hillman foi para o mundo das imagens e estará sempre pronto a atualizar-se onde quer que o termo “alma” seja proferido. Não para discutir o seu conceito, e sim para convidar a essa vivência.

‎”A verdadeira revolução começa no indivíduo que pode ser verdadeiro com sua depressão” – James Hillman

Curso de Extensão – Estudando C. G. Jung e a Psicologia Analítica